
Por
aquela altura a densidade do som da chuva teria absorvido todos os outros sons,
a cidade permanecia no silêncio, assombrado pela força da natureza que chorava
sobre o mundo dos homens.
- Vivaldi desceu das nuvens para
tocar só para mim, que honra! – Comenta ele sobre uma gargalhada para o seu
cachorro sarnento e moribundo.
O sorriso desvaneceu-lhe
lentamente, e a tristeza o atingiu profundamente como os relâmpagos que desciam
das nuvens. Chorou incansavelmente como a muito não chorava. Desejou por
momentos que a loucura o tomasse, que perdesse noção de quem era, do que havia
sido e do que o tempo lhe teria roubado.
O som de passos chapinhando
sobre a água despertou subitamente a sua atenção. Pelos passos das pessoas ele
avaliava o seu carácter, a sua constituição física e até o peso da sua
carteira.
Era um homem, tinha passos
firmes e despreocupados, não lentos mas tão pouco apressados, os sapatos
cheiravam a novos e de boa qualidade, no entanto o que não esperava era a
supressão daquele som quando o homem se susteve diante de si em silêncio.
Assustado e incrédulo temeu por
momentos pela sua vida, mas rapidamente recordou-se que a sua vida nada valia,
e desejou logo de seguida que a mesma tivesse em risco a fim de pôr um termo ao
seu sofrimento.
- Porque choras? – Questionou
aquele homem de presença firme. A sua voz transmitia segurança, compaixão e uma
certeza de que não estaria ali por acaso.
- Choro porque não tenho motivos
para rir, como deves certamente observar.
- Entendo! A vida consegue ser
cruel por vezes, nas escolhas que nunca tivemos, nos sonhos que nunca vivemos e
nas cicatrizes que nunca irão sarar.
Seguiram-se alguns segundos de
silêncio. O cego tentava perceber por qual motivo estaria ali aquele homem, com
certeza não era apenas para conversar. No entanto sentia vergonha de
questioná-lo e assim aguardou que o seu propósito se revelasse.
- A chuva também me desperta
várias memórias, apenas as tristes.
- Parece que temos algo em comum
então.
O cego calculou que por aquele
momento o estranho homem estivesse-lhe sorrindo e retribuiu-lhe da mesma forma.
Teriam passado muitos anos desde a última vez que lhe tinham dado um pouco de
atenção, sentir uma presença por perto era mais agradável do que recordava.
- Gostava de te contar uma
história, se tiveres interessado em ouvir. – Comentou o estranho.
- Tenho todo o tempo do mundo.
- Houve em tempos uma tempestade
como esta. O dia tinha amanhecido com o céu limpo mas de um momento para outro
as nuvens começaram a formar-se. Um homem muito rico afastou-se da costa com
alguns amigos num barco turístico. A tempestade surgiu do nada, perdendo o
controlo do barco o mesmo se encalhou sobre as rochas provocando-lhe vários
estragos. Numa terrível luta contra a natureza o barco começou-se a afundar
irremediavelmente.
Um pescador que regressava de um dia trabalho surpreendido também pela
tempestade, no entanto mais preparado para ultrapassá-la, avistou os destroços
e escutou ao longe o grito das pessoas.
Lutando contra todas as
possibilidades ele mergulhou sobre mar, nadou com todas as forças e alcançou um
local onde pedaços de madeira e restos do barco boiavam dançando por entre as
ondas rebeldes. Recuperou o fôlego e entregou-se ao fundo do mar. Alguns corpos
emergiam do abismo sem vida, contornou-os até que alcançou o barco nas
profundezas do mar. Por entre os vidros de um compartimento observou um pequeno
espaço onde uma criança recém-nascida boiava deitada num berço. A água entrava
rapidamente o que lhe dava pouco tempo. Partiu um vidro que se rachou, a força
da pressão estilhaçou-o em vários sentidos atingindo-o em várias partes do
corpo, nomeadamente os olhos.
Qualquer homem vulgar teria
desistido por aquela altura, teria lutado para salvar a sua vida, mas aquele
homem persistiu e momentos mais tarde emergiu sobre as ondas com a criança nos
braços.
Foi a única vida que conseguiu
salvar, chorou amargamente por ter fracassado para com os outros quando foi encontrado
pela polícia marítima.
Ao fim de três dias sobre
cuidados intensivos num hospital aquele homem veio a perder a vista
completamente.
A sua história nunca foi
contada, nunca passou nas notícias, a única referência que se soube foi da
ilustre família que perdeu a vida em alto mar. As pessoas já não se interessam
por heróis, já não acreditam em contos de fada. Preferem os mexericos, os
pobres da sociedade, a realidade cruel deste mundo decadente.
- Se nunca foi contada como é
que soubeste?
- Porque graças a ti, hoje estou
vivo!
O cego permaneceu em silêncio
atónito sem palavras, deixando que o estranho continuasse.
- Procurei-te por todo o mundo,
tenho uma dívida por pagar, e na minha família sempre pagamos as nossas
dívidas.
- Não me deves nada rapaz. Vive
apenas e goza essa vida para que o meu sacrifício não tenha sido em vão.
- Se o fizesse não seria muito
diferente de todos os outros que se esqueceram de ti.
- Não tem nada que me possas dar
que eventualmente mude algo na minha vida.
- Vou dar-te dois olhos novos. É
uma cirurgia dispendiosa mas a minha dívida não tem preço, quando recuperares
terás formação para trabalhar na minha empresa e nunca mais voltarás a dormir
na rua ao som da chuva. Por mais que esse som nos toque na alma e nos consuma
na sua magia.
- Não sei o que dizer!
- Não precisas de o fazer. A
vida ensinou-me muito, tal como a nunca me arrepender de todo o bem que fizer,
mesmo que o mundo não o reconheça. A isso, chama-se ser nobre. Um dia tu
salvaste a minha vida. Deixa que salve a tua hoje.
A chuva parou lentamente,
vestígios do sol despiam a escuridão com os seus raios de luz, o estranho
sentou-se lado a lado com o cego observando o arco-íris que surgia no
horizonte.
- Como é que ele é... O nascer
do sol?
- Hum… É magnífico! Simplesmente
magnífico.
O dia amanheceu sobre as ruas
molhadas e desertas, sobre o palco de dois desconhecidos. Um contemplava-o com
o olhar, outro com o coração.
(Joel Flor)