sábado, 17 de dezembro de 2011

Paixão de um Fantasma


Vagueio,
De tempo em tempo
Entre a chuva e o vento
Mas não sinto
O calor do mundo
Busco perdido,
Pela sombra esquecido
Num murmúrio infinito
A luz do meu abrigo

Busco,
O encanto
No teu recanto
Nas lágrimas do meu descanso
Na plenitude de um canto
De um poema inacabado

Sinto,
Os sonhos,
Os risos
Como um tempo fechado
Um momento apagado
Num mundo que agora desconheço

Vivo,
Na ausência da vida,
Sonho,
Nessa terra esquecida,
Amo,
Mas não…
Voltarei a tocar esse amor



(Joel Flor)

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Conto "A Sombra dos Heróis"




Prefácio

No ano de 2004 terminava assim a minha primeira grande obra literária, de nome “Águias de Ferro” um livro que daria aproximadamente duzentas páginas com uma história fantástica e emocionante carregada de ficção e acção. Com o passar do tempo e com a maturidade que absorvi dos livros que me inspiravam, tornei-me um pouco mais exigente comigo mesmo e a hipótese de publicar este livro transformou-se numa ideia quase nula. Uma vez que as alterações teriam de passar pela estrutura, pelo tipo de linguagem, no tempo que esse processo me tomaria poderia escrever dois ou mais livros o que acabei no final por fazer.
            O conto “A sombra dos heróis” veio deste modo dar vida as essas personagens esquecidas que deixei no fundo de uma gaveta e talvez um pouco de inspiração para que um dia esse projecto tome um novo rumo e ganhe vida. Espero que apreciem este pequeno número de páginas que estarão ao vosso dispor.


Um abraço do amigo e escritor
Joel Flor




Parte um


                Matt não conseguia mais distinguir o verão do inverno, a noite do dia, o destino teria lhe dado a conhecer as estrelas que em criança tão fervorosamente venerava, deleitando-se nas suas próprias histórias. No século XXII, cresceu ouvindo lendas de uma guerra distante, que era travado no espaço entre a humanidade e uma nova raça. Felizmente, até ao momento um confronto na Terra tinha sido evitado. Mas a guerra permanecia e o seu fim não acenava para quem o procurava.
 Matt formou-se na academia militar. Com a idade de vinte e seis anos o seu primeiro nome era tenente, despediu-se dos seus pais e da namorada Christine e partiu para as estrelas. Após um ano no espaço, chegou a informação do paradeiro de um coronel destemido que teria se perdido entre a guerra juntamente com a sua elite, “A elite dos bravos” como era chamada, havia sinal de actividade num planeta vermelho num sistema inactivo sem vida, o inimigo de nome Arakuness, uma forma de vida inteligente e extraterrestre combatia outra forma de vida desconhecida. No entanto os radares não detectavam seres humanos no planeta. Não havia registo de confrontos internos entre Arakuness, eram diferentes dos homens, lutavam por um propósito final, e agiam sobre um comando apenas. A curiosidade dos líderes moveu o batalhão de Matt para o terrível destino desconhecido, em busca de um guerreiro que por si só, poderia alterar o curso da guerra.
                O enorme vaivém espacial aterrou sobre o planeta, um pelotão de quinhentos soldados emergiu do interior ao comando do Capitão Raines, a guerra tinha sido travada até ao momento a milhares de anos de luz da Terra nos últimos vinte anos. Raines um soldado em fim de carreira tinha sido um dos poucos que teria visto um Arakuness, o enorme exército humano teria sido quebrado por uma disputa de colónias e só agora começavam a preparar-se para reivindicar os planetas do sistema perdido. Da guerra restava apenas a lenda contada pelos poucos sobreviventes. Os restantes quinhentos nunca teriam visto um inimigo e alguns começavam até mesmo a duvidar da sua existência.
                Todo o mistério foi quebrado quando um grito aterrador emergiu entre os rochedos que se estendiam por todo o horizonte, um enorme Arakuness despertou sobre aquele fecho de luz vermelho que separava o céu da terra. Rapidamente ceifou seis vidas que não tiveram tempo de ver a morte. Uma quantidade enorme de fogo foi descarregada sobre aquele ser, quando o último tiro cessou o exército apercebeu-se que não se acolheu no silêncio anterior. O chão tremia sobre a terrível marcha dos Arakuness. Sem armas de fogo marchavam sobre os humanos com um único propósito, eliminá-los a todos.
                O pânico momentâneo foi fatal, os extraterrestres cercaram-nos por todos os lados. Num movimento inteligente quebraram as defesas e penetraram no coração do exército. Raines não teve oportunidade de criar um raciocínio, tinha sido arrastado para um confronto directo e desproporcional  à preparação dos seus soldados. Estava cada um por si contra uma força letal que desconheciam. Os soldados tinham uma curta margem de tiro e estavam a morrer rapidamente sem oportunidade de criar baixas no adversário que numa distância curta era praticamente indestrutível.
                Por cima da colina o grupo de homens observava-os através de um binóculo…
- Os Arakuness estão em confrontos!
- Confrontos contra quem? – Questiona o coronel Scott a quem procuravam durante todos aqueles anos.
                Segurando os binóculos um sentimento de espanto assoma-o…
                - É impossível!!!
                - O que se passa?
                - Vejo bandeiras da Aliança!
                Numa altura em que os seus soldados já preparavam canhões de longo alcance para quebrar a investida dos Arakuness um grito urgente de Scott interrompeu-os…
                - CESSEM FOGO! Preparem-se para combate directo!
                Os soldados trocaram um olhar inquieto e surpreso de leves segundos e apressaram-se a obedecer o coronel sem saber o que se passava. Scott montou sobre uma mota e liderou a marcha do seu pequeno exército de trinta homens. Todos tinham um ar marcado pela guerra. Tony era metade humano, metade robô, uma operação teria poupado a sua vida após ter sido estilhaçado por uma explosão, teria o feito mais forte do que antes, mesmo na distância que o afastava da humanidade, Scott sabia que ele o seguiria até a morte.
                Dum salto elegante Scott libertou duas lâminas longas que teriam sido desenhadas e projectadas somente para aquele propósito, caindo entre quatro Arakuness eliminou-os em segundos. Os restantes soldados penetraram no coração da batalha numa força letal. Matt estava estendido sobre o chão com um Arakuness colocando a pata sobre o seu peito, a enorme garra da criatura estava encostada ao seu pescoço pronto para o degolar. Antes que visse a sua vida expirar, o coronel Scott passou por eles em velocidade e cortou a cabeça daquela criatura. Trocou uma breve troca de olhares com o soldado e prosseguiu rapidamente contra a frente dos Arakuness. Matt permanecia sentado no chão incrédulo e sem forças. Teria crescido a ouvir as histórias de Scott e agora ali estava ele, no primeiro encontro ainda lhe salvava a vida. Após breves minutos Scott cessava a investida e num grito forte dava a ordem “RECON”, os soldados sabiam então que estava terminado. Observando os sobreviventes de Raines, Scott pronunciasse…
                - Quem é que está no comando?
                Por entre as sombras coberto de sangue, mancando de uma perna que iria perder brevemente Raines aproximou-se…
                - Capitão Raines, viemos de muito longe coronel, estamos aqui para levá-lo para casa.
                - Só demoraram quinze anos, estou pasmo!
                - Não tínhamos qualquer informação do seu paradeiro, o que lhe aconteceu?
                - Foi nos dado a ordem de guardar a estação espacial “New World” até que os reforços chegassem. Eu não questiono as minhas ordens, no entanto os reforços nunca vieram e nós fomos abandonados à morte. Depois de perdermos a estação a nossa nave despenhou-se neste planeta ficando inutilizável, temos tentado sobreviver até hoje, de tal forma que os Arakuness acabaram por perder o interesse.
                Raines registava toda aquela informação, incrédulo no que aquele pequeno número de soldados teria feito. Teriam salvo 349 homens pela sua intervenção quando na verdade eram eles que deveriam ser salvos.
                Matt observava-os um por um, teria visto o funeral de Scott nas televisões em que um caixão vazio descia à sepultura sobre as lágrimas de uma esposa e um casal de crianças. O dia em que o mundo chorou o único herói que havia conhecido.  A guerra teria lhe tirado tudo, teria dado a sua vida para a servir, mas mesmo assim na sua devoção a humanidade abandonou-o. Observava cada um dos soldados, não havia vida nos seus olhares, esperança ou qualquer sentimento. A estação New World tinha morrido com todos eles.
                Havia uma certa energia que rondava aquele planeta, o ar era pesado e segundo o médico de serviço, um homem não sobreviveria mais do que duas semanas inalando aquele oxigénio contaminado, não havia sinal de existência de água, muito menos de qualquer fonte de alimento. Quinze anos eram muito tempo para qualquer homem resistir de uma forma impossível. Cada elemento que rodeava Matt tornava aquele momento mais misterioso e difícil de decifrar.
                A noite desceu rapidamente de um momento para o outro, Raines e Scott conversavam em particular nos aposentos do coronel dentro do pequeno acampamento. Os soldados já se teriam recolhido no vaivém aguardando impacientemente partirem daquele mundo amaldiçoado. Matt observava o céu vermelho, pensou que fosse onde quer que estivesse o céu seria sempre o mesmo, no entanto ali estava ele, contemplando outro universo completamente distinto, tão longe de casa e de tudo o que tinha conhecido. O Capitão saiu da tenda do coronel indiferente. Scott saiu em seguida aproximando-se de Tony o cyborg.
                - O que vamos fazer? – Questiona Tony na sua voz metálica.
                - Não temos qualquer propósito aqui, esperámos todos os dias por essa nave. Agora que ela veio só nos resta partir.
                - Não sei, acho que não me enquadro muito no perfil de um habitante da Terra.
                - Lembra-te que os teus amigos estão contigo, não te abandonei antes, não será gora também. O que outros dizem e pensam pouco importa. Prometi que vos levaria todos para casa um dia, ninguém fica para trás.
                - Então e a guerra?
                - Nunca estivemos destinados a vencer. Lutarei no dia que ela bater a minha porta, no meu planeta. Não voltarei a procurá-la nos confins do universo.
                Aquele cyborg permaneceu em silêncio, não demonstrava emoções, apenas assentiu em concordância.
                Matt teria sido instruído para inspeccionar o campo de batalha uma última vez antes de partirem. Em busca de itens e armas que não convinham estar ao dispor dos Arakuness, caminhando lentamente entre aqueles corpos, denotou que os soldados humanos tinham desaparecido, excepto um que estava de pé observando o horizonte. Permanecia imóvel e emotivo, Matt aproximou-se rapidamente dele assustado perguntou-lhe o nome e o soldado respondeu calmamente…
                - Sargento Hank, tenente.
                - O que aconteceu sargento? Porque não seguiu as tropas como foi indicado a todos?
                - O que aconteceu aqui tenente está para lá de qualquer explicação que eu lhe possa dar. Eu senti a lâmina trespassar o meu coração, senti a vida expirar no meu último fôlego. Existe qualquer coisa neste mundo que nos impede de discernir o real do impossível. Não sei se estou a sonhar, ou se estamos mesmo vivos.
                Matt mantinha-se atónito e incrédulo aproximando-se do soldado segurou-lhe no pulso na esperança de lhe dizer “Se tens pulso é porque estás vivo soldado, agora vem que tens algumas explicações a dar.” Mas tal não aconteceu, um calafrio arrebatou o seu corpo quando procurou o pulso de Hank e não o encontrou.





Parte dois


                Matt apressou-se ao alcance do vaivém sem saber ao certo o que iria fazer ou que relatório iria transmitir a Raines. De uma coisa estava certo. Nunca deveriam ter pisado aquele planeta.
                Segurou Raines pelo braço forçando-o à sua atenção, Raines devolveu-lhe um olhar preocupante…
                - O que se passa?
                - Existe algo de errado aqui. Os corpos na colina desapareceram todos… e temos um soldado caminhando sem pulso, que supostamente teria sido dado como morto a algumas horas atrás.
                - Isso não faz qualquer sentido Matt. Onde é que está esse soldado?
                - O que não faz qualquer sentido é os homens de Scott terem permanecido vivos neste mundo durante quinze anos. Não faz sentido o Scott ter cinquenta anos e aparentar trinta.
                - Qual é a tua teoria sobre isto?
                - Eles nunca sobreviveram há batalha de New World, Raines. Este planeta é um planeta que dá vida a quem já não a tem. Esta energia estranha que sentimos mas não conseguimos ver alimenta a imagem daquilo que um dia fomos.
                - Talvez alimente apenas a ilusão daquilo que esperamos ver.
                - Isto não é uma ilusão. É real!
                - Vamos conversar com ele então, com o Scott.
                - Não acredito que isso seja prudente. Ele pode saber e pode ternos ocultado até ao momento, o coronel pode ser mais perigoso do que alguma vez imaginámos.
                - Perigoso ou não, ele salvou-te a vida, devias estar um pouco mais grato por isso.
                Matt silenciou-se sobre o peso daquelas palavras, no entanto não sabia qual seria as consequências de nada fazer. Não sabia até que ponto poderiam ou não estar envolvidos os Arakuness naquele fenómeno sobrenatural. Mas ele tinha de ter a certeza que o Scott estava vivo ou não. Tinha treinado a sua vida inteira para chegar até ele, não ia fracassar por falta de evidências. Ignorou o Raines e aproximou-se do compartimento onde Scott estava reunido com os seus homens, entrando sem se anunciar foi surpreendido por uma enorme lâmina encostada ao seu pescoço. Tony observava-o friamente desprovido de qualquer emoção.
                - Consigo ouvir o teu coração acelerado daqui. O que te traz a nós? – Questiona Tony.
                - Quero falar com  o coronel.
                - O coronel está ocupado, vais ter a viagem toda para falares com ele.
                - Talvez não.
                Scott levantou o seu olhar perante a audácia do jovem Matt…
                - Deixa-o Tony, esperem todos lá fora…
                Os soldados saíram sem questionar deixando-o a sós com Matt. Sem grandes cerimónias Scott questionou-o…
                - O que passa tenente?
                - Algo permanece na minha mente como uma agulha que me atinge o entendimento, cada vez que me questiono pelo facto de vocês estarem vivos. Ao fim de todo este tempo.
                - Onde é que queres chegar? A Aliança gastou milhões a ensinar-me a sobreviver, talvez simplesmente tenham tido sucesso.
                - Quando foi a última vez que escutaste o bater do teu coração?
                Scott olhou-o atónito e confuso, não fazia ideia das intenções de Matt que se surpreendeu a si mesmo também…
                - Tu não fazias ideia pois não?
                - Ideia do quê?
                Matt aproximou-se de Scott colocando-lhe a mão sobre o peito.
                - Que a muito que o teu coração parou de bater.
                Scott desviou o seu olhar pensativo tentando remexer no seu passado, estava confuso com tudo aquilo que lhe fazia sentido de uma forma assustadora.
                - É impossível!
                - Depois de tudo aquilo que pessoas como nós viram, simplesmente recuso-me a acreditar em tal palavra. A minha pergunta agora é: quais são as vossas intenções?
                Scott permaneceu em silêncio observando o seu compartimento, tinha um pouco dele em cada canto. O seu coração estava dividido pela saudade de um mundo de uma família que se mantinha numa imagem turva e da vida que se mantinha presente, dos homens que o acompanhavam pela vida e pela morte, e pelo elo que havia superado a morte.
                - Vocês não têm nada a temer de mim e dos meus soldados, nós vamos partir com vocês, se a tua teoria for verdadeira, supostamente é este mundo que nos mantém vivos. Se o abandonarmos supostamente algo deverá também acontecer.
                - Está certo, não digo que confio naquilo em que te tornaste, mas confio no passado que deixaste para trás, naquilo que um dia foste. A tua família também confia.
                Matt remove do seu bolso uma fotografia que carregava o rosto da esposa de Scott, o filho e a filha. Scott comoveu-se de imediato ao reconhecê-los…
                - Eles cresceram tanto!
                - A tua mulher esteve no teu funeral, mas sempre acreditou que um dia voltarias a entrar pela porta de casa como se nada tivesse acontecido. No dia em que embarquei ela entregou-me essa foto, para que tivesses a fazer o que quer que fosse, largasses tudo e voltasses para os seus braços.
                As lágrimas desciam lentamente a face de Scott percorrendo a sua pela marcada como a corrente de um rio, o seu olhar vazio pronunciava o resto da sua humanidade e da vida que o mantinha vivo. Era um homem forte e destemido, cujo universo poderia ser abalado somente através do amor que se mantinha aceso numa vela quase extinta.
                Soaram os alarmes através da planície que ecoava como um som morto. Scott e Matt precipitaram-se para o exterior da tenda. No horizonte a marcha dos Arakuness persistia em que nenhum deles saísse vivo daquele planeta.
                Raines não se preocupou em preparar uma defesa, encaminhou todos para o Vaivém, ninguém mais iria morrer naquele lugar, este eram os seus planos. No entanto os Arakuness estavam determinados a cumprir o objectivo que tinham traçado. Scott avançou com os seus soldados atingindo a primeira frente que os alcançava dando algum tempo aos restantes que terminassem a evacuação. Quatro longos minutos foram suficientes para colocar todos a salvo na nave. Raines gritou para Scott que recuasse com os seus homens, não havia mais necessidade de se arriscarem, o mesmo olhando o hesitante concordou de seguida. Alcançaram a nave em segundos sendo seguidos por centenas que se transformavam em milhares. Dentro do vaivém dois Arakuness que conseguiram alcançá-los foram eliminados rapidamente por dois tiros de Matt que sorriu satisfeito por ter conseguido abater um extraterrestre na sua aventura no espaço. A nave começou a erguer-se do chão cobrindo o terreno de fumo e pó. Uma vez na cabine de armas os soldados não hesitaram em começar a esbanjar um mar de fogo sobre os Arakuness no terreno.
                Raines respirou fundo ao notar que estavam todos a salvo e que a missão teria sido cumprida com êxito, lentamente a nave alcançava a atmosfera. Matt despedia-se sobre a imagem do planeta vermelho que se afastava lentamente através de uma janela.
                Subitamente a sua atenção despertou para um fenómeno inesperado, mas no entanto aguardado sem que soubesse as consequências da sua natureza. Ao fundo num compartimento os soldados assustados teriam abandonado a sala em pânico permanecendo apenas Scott e os seus soldados. Matt percorreu o corredor passando por vários soldados que cruzavam com ele assustados.
                Ao entrar naquela sala Scott comunicava pelo rádio para que Raines interrompesse o voo, algo teria acontecido. Matt caminhava lentamente atónito ao que os seus olhos contemplavam, de uma forma assustadora e irreal. Scott permanecia como uma imagem projectada sobre uma parede, uma luz transparecia da sua imagem, não estava mais na condição de carne e osso, de um simples mortal. Os seus homens de igual modo eram como fantasmas sobre a forma humana. Observavam-no agora calmos e serenos.
                - Tinhas razão. – Comentava Scott…
                - O que tencionas fazer agora?
                - Não podemos deixar este mundo, apenas existimos nele.
                - Farei com existam sempre nas nossas memórias, por tudo o que fizeram e pelo sacrifício que tomaram. Lamento que termine assim.
                - Não te preocupes, vamos ficar bem. Diz a minha família que os amo muito. Que sempre irei visita-los nos seus sonhos.
                - Assim farei. Obrigado por tudo Scott.
                A nave permaneceu sobrevoando o planeta, Scott deu instrução que um dos portões fosse aberto. Os trinta soldados mergulharam em queda livre flutuando sobre o céu como sóis que se desprendiam como estrelas cadentes de um quadro pintado à mão. A determinada altura os corpos ganharam cor e vida e começaram a cair em velocidade sobre o campo de batalha. Scott soltou as suas armas e aterrou cortando um Arakuness ao meio. O vaivém proporcionou-lhe cobertura aérea e a elite de soldados mais uma vez derrubou os alienígenas em poucos minutos. Quando tudo terminou Scott ergueu o seu olhar para a nave e acenou em forma de despedida.
                A Nave desapareceu como uma luz que se extinguia no infinito do espaço. Scott trocou um olhar por todos os guerreiros. Mantinham-se frios e sobre controlo como as máquinas que tinham sido ensinados a ser.
                - Lamento mas não vou conseguir manter a minha promessa. Nós nunca sairemos deste lugar. Esta é a nossa maldição.
Na linha do horizonte emergia um exército de duzentos soldados, o sargento Hank vinha na frente aproximando-se deles.
                - Sargento Hank apresentasse ao seu serviço coronel. Ensine-nos a matar Arakuness e o seguiremos para onde quer que nos leve.
                - Creio que existe um motivo muito maior que a teoria de um planeta amaldiçoado para estarmos vivos. Nenhum de nós voltará a ver a Terra, no entanto no que depender de nós nenhum Arakuness a verá também. Não seremos mais heróis perdidos na nossa sombra. De hoje em diante seremos a Legião dos mortos. Que a nossa lenda nos siga até aos confins do tempo.
                - Os soldados assentiram em concordância. Iriam manter os Arakuness entretidos por um tempo indeterminado.
                Entretanto Matt estava de novo entregue aos silêncio das estrelas. Ia a caminho de casa, da sua namorada e dos seus pais que o aguardavam do jeito que o viram partir. No entanto ele voltaria mudado. Tudo o que tinha sentido e presenciado tinham-no transformado e parte daquela energia tinha regressado com ele. Desejava sobre todas as coisas que Scott e os seus homens encontrassem a paz que os permitisse encontrar o descanso eterno. Não imaginava que os seus caminhos poderiam se cruzar novamente um dia, mas o propósito de Scott, era maior que a vida e a morte, que o possível e o impossível, e o descanso que Matt lhe teria desejado estava decididamente fora dos seus planos.



terça-feira, 6 de dezembro de 2011

O Blog "Joel Flor"

O Blog "Joel Flor" apesar de estar limitado apenas a um nome e ao trabalho de um jovem escritor desconhecido, tem vindo a crescer em visitas de um modo consideravel ao longo dos meses.
Agradeço a todos que tem dado vida a este espaço, pelo interesse constante que manifestam, pelas suas presenças e pela apreciação do meu trabalho.
Sintam-se sempre livres em deixar opiniões, sugestões e todo o tipo mensagens, porque independentemente do que faço, é para todos vós que escrevo.
Cumprimentos do escritor e amigo Joel Flor.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Conto "O Portador dos Sonhos"

E se pudesse-mos segurar o sol com as mãos, ocultar a sua luz do mundo. Absorver a sua vida e viver para sempre, tal feito traria com certeza também os seus maus efeitos, seriamos diferente de todos, seriamos únicos, no entanto ser único significa também estar só, e tudo isto significa algo que nos abrange a todos, a vida de um homem é e sempre será incompleta, buscar algo mais é um elemento da nossa natureza e mesmo que tenhamos o mundo inteiro, seremos sempre insatisfeitos.
Um pai de família pobre, pode querer o suficiente para por a comida na mesa, um pai de família estável quer o suficiente para dar um futuro aos seus filhos, apesar de todos temos um futuro e ele não estar nas mãos de ninguém. Um filho pode destruir num dia o que uma geração construiu e por fim um homem rico quer e sempre irá querer ter mais ainda.
Esta era uma das certezas que Gareth um simples pescador, teria aprendido na sua jornada pelo mundo, no seu entendimento sobre a vida que lhe era concedida, até o dia em que caminhando junto à praia surgiu um viajante, que seria tudo menos um homem comum, carregava com ele todos os segredos dos homens e o poder de mudar o mundo e o destino de cada um.

Gareth arrastava a rede para junto da areia, teria sido mais um dia de pesca fraco, perguntava a si mesmo todos os dias: Para onde estariam indo os peixes? Parecia que o mundo estava a morrer de dia para dia, e com ele toda a sua natureza se consumia e se entregava ao esquecimento. Foi meditando nos seus problemas que cresciam com cada sol que se levantava a cada manhã, que avistou o estranho homem, estranho porque de uma forma estranha não se enquadrava no cenário. O homem veio caminhando na sua direcção até que parou junto ao seu barco observando-o em silêncio.
Sentindo uma sensação de incomodo Gareth saiu ao seu encontro…
- Posso ajudá-lo em alguma coisa?
- Procuro uma casa para descansar a noite, e preciso comer alguma coisa também.
- Lamento mas não existem pensões nas redondezas, talvez se continuar a caminhar pela praia ao fim do dia chegue à cidade mais próxima e encontre algo por lá.
O homem agradeceu por gestos e continuou a sua peregrinação. Naquelas terras era costume ser hospitaleiro e oferecer a casa mesmo a estranhos. Se fosse uma família, um casal ou até mesmo alguém com outra aparência ter-lhe-ia oferecido tal como manda a tradição, o que seria certamente o que o homem esperava que ele fizesse, no entanto a sua aparência estranha, o seu olhar, modo de caminhar, tudo naquele homem o incitava a manda-lo seguir a costa. Todavia lentamente a consciência começava a pesar, teria aprendido em vida a não julgar pela aparência, a dar sem esperar nada em troca. Sabia que a próxima cidade estava a três dias de viagem, seriam três dias que aquele homem estaria sem comer.
Saiu então ao seu encontro, o sol parecia começar a esconder-se naquele horizonte longínquo, mas o rastro de luz que existia permitiu-lhe enxergar aquela forma caminhando como um vulto. Sem dar a sentir a sua presença o viajante ao longe parou o seu passo, voltou-se para trás e aguardou que Gareth fosse até ele. Ambos retornaram juntos até a casa de Gareth sem que uma palavra fosse dita. Dentro de uma casa de barro, havia uma lareira na qual uma mulher e três crianças se aqueciam. Usando a mesma lareira Gareth colocou sobre uma rede o peixe que lhe teria oferecido o mar. Todos observavam o estranho atentos, que sentado sobre o chão limitava-se a sorrir tranquilamente. Deram graças pelo peixe e pelo pão, e todos saciaram a sua fome. Deitaram as crianças sobre os seus leitos. Gareth e o estranho foram até ao exterior da casa e sentaram-se sobre a areia que cobria os vários hectares de terra que o olhar podia alcançar. O céu estava polvilhado de estrelas que por si iluminavam a noite ao som dos grilos e das aves noturnas que cantarolavam sons melancólicos.
- Não sei o seu nome!
Sem que desviasse o seu olhar do céu e do encantamento que a ele impunha o estranho responde a pergunta…
- Não tenho nome… No entanto os homens chamam-me de… “O portador dos Sonhos”
Gareth sorriu, no entanto foi um sorriso curto que se transformou numa afeição atónita, não esperava que homem fosse um aldrabão, ou cómico, ou sarcástico, ou que da mesma forma estranha fosse mais do que um homem. Simplesmente não esperava nada, porque nada teria sido revelado até ao momento. Então limitou a jogar o jogo, para ver onde o mesmo o levava.
- O que quer isso em concreto dizer?
- Eu busco nas pessoas a sua compaixão, a sua caridade, o seu lado humano que tem vindo a se extinguir ao longo dos tempos. Um homem que nada tem para oferecer ofereceu tudo. Isso é uma raridade pouco comum nos dias de hoje.
- Talvez seja mais uma imprudência da minha parte.
- O facto de ser imprudente apenas torna o gesto ainda mais nobre.
- De certa forma! Continuo sem saber o que procuras aqui!
- O que poderia um homem que possui a grandeza de um céu estrelado, a magnitude de um mar extenso, uma família e casa possivelmente desejar?
- Para alem de peixe no mar? Creio que não haja muito mais que precise!
- Se eu pudesse dar muito mais do que tudo isso? Se eu te pudesse dar o mundo inteiro. Continuarias a desejar somente peixe?
- O mundo inteiro não compra a felicidade de um homem e eu sou feliz, sempre fui, talvez ignorante, mas a ignorância consegue ser uma bênção quando não nos afasta do nosso rumo. A única coisa que preciso é de peixe para sustentar a minha família.
- Imagina que eu tenho um reino para te dar, milhares de servos e servas, soldados, conselheiros, cavaleiros, mais terras que o céu possa conter. Navios, ouro e todo tipo de especiarias, beber dos melhores vinhos, comer das melhores carnes. Uma vida acima de todos os teus pensamentos, para ti e a tua família. Continuarias a desejar somente peixe no mar?
O homem manteve-se em silêncio, o assunto começava a absorvê-lo, a contagiá-lo, a envenená-lo com o seu aroma, mas deteve-se a determinado momento…
- Haverá porventura maior riqueza na terra, que a felicidade e o amor de uma família?
- Talvez não. No entanto um dia, essa mesma família, tal como tu haverão de regressar ao pó da terra, por vezes quando limitamo-nos a viver em função dos outros, ao vê-los partir, parte de nós vai com eles também, e o mundo deixa de fazer sentido, e se ao invés de todas as grandezas e luxúrias da terra, eu pudesse dar-te a imortalidade, para ti e para os teus?
Aquela altura Gareth parou de pensar nas alternativas que lhe eram apontadas e fixou a sua atenção no seu convidado, na convicção com que proferia as suas palavras.
- Quem és tu?
- Já te respondi a essa pergunta!
- Sim, “O portador dos sonhos”. Mas isso é uma resposta muito vaga. Em virtude de entender a tua natureza, faço-te a mesma pergunta. Se te pudesse dar tudo, mesmo tudo, o que me pedirias?
O estranho que sorria com frequência susteve as suas emoções por breves momentos desviando o seu olhar que denunciava a sua fraqueza. Gareth retomou o assunto…
- Eu posso ser apenas um pescador, mas aprendi algo em vida, todos os desejos trazem as suas consequências, acredito que um dia a mesma pergunta foi-te colocada, e carregas o peso da tua escolha até aos dias de hoje. Eu sou um homem feliz, tenho tudo o que sempre quis, se terei de sobreviver sobre momentos difíceis, assim seja, com eles haverei sempre de aprender, porque a vida é uma escola, e a sua estrada não pode ser contornada.
O estranho sorriu olhando-o agora nos olhos, levantou-se e dirigiu-se rumo ao seu caminho, susteve o seu passo e devolveu o olhar a Gareth…
- Tens razão, tens uma família e uma vida maravilhosa Gareth, nunca traias os teus princípios, mantém-te firme a esse homem que és, e não te preocupes, o peixe vai voltar.
Seguiu a sua estrada, enquanto Gareth o via desaparecer novamente sobre a linha do horizonte, deitou-se junto das esposa e dos três filhos aconchegando-os nos seus braços. Combatendo o frio que entrava pelas brechas das janelas e das portas.
O viajante seguia a estrada de areia quando passou por um mendigo que amaldiçoava a própria vida e a sua existência. O viajante parou junto dele, observando-o e examinando-o, o mendigo calculou que iria receber alguma esmola e logo se precipitou a demonstrar um ar miserável.
- Uma esmola por favor. Estou a vários dias sem comer!
- Posso te dar tudo o que quiseres, queres apenas uma esmola?
O mendigo observou o viajante com um ar intrigado, e logo questionou-o?
- Como assim tudo?
O viajante mostrou-lhe as suas mãos, as mesmas estavam envoltas numa luz forte que iluminava a praia e a noite com uma intensidade sobrenatural, como se carregasse o sol nas mesmas, contendo a sua luz.
- Posso fazer de ti o homem mais poderoso do mundo, nunca mais terás de mendigar, todos te respeitaram, todos te serão submissos, serás senhor da terra.
- Eu quero sim, quero tudo!
O viajante colocou as mãos sobre a sua cabeça e a luz que as envolvia apoderou-se do seu corpo ampliando a sua força. Uma luz dourada cobria agora o viajante que lentamente começava se desfazendo num pó dourado que aspirava se envolvendo na neblina. Ao longe por entre um murmúrio expirou num sopro de palavras…
- O fardo não é mais meu, entrego-o a ti para que o carregues, os sonhos da humanidade serão a tua maldição.
A sua luz difundiu-se entre as estrelas do céu. Pequenas gotas de luz caiam sobre a terra. O mendigo sentia-se flutuando sobre a areia, tentava segurar as gotas com as mãos mas as mesmas desfaziam-se por entre os dedos. Caminhou até junto á agua observando o seu reflexo. O seu rosto tinha rejuvenescido trinta anos. A sua força estava jovem e virtuosa. A sua mente continha poderes que estavam ocultos a humanidade, e então correu sobre a terra em busca da sua glória, do mundo que lhe pertencia agora, em busca de todos os sonhos que o destino lhe teria roubado.
Gareth observava a sua esposa que não adormecia, permanecia sonhadora e pensativa de olhos abertos, sem que o sono os fechasse…
- Está tudo bem? – Questiona ele.
- A vida neste mundo é difícil, precisamos de tão pouco para sobreviver e mesmo assim por vezes o pouco nos é tirado. Não sei o que faremos se o peixe não voltar.
- Deixarei de ser pescador, passarei a ser caçador, ou lavrador, ou que quer que seja. O homem não pode definir a sua vida através de uma tradição, de uma paixão. A terra sempre há-de prover aquilo que nos faz falta. A vida define-se consoante a necessidade que temos, assim sobreviveremos de tempo em tempo, de geração em geração. Pois a verdadeira riqueza é estarmos vivos, e fazermos parte deste mundo. Não naquilo que temos… mas sim naquilo que somos.



Joel Flor

domingo, 27 de novembro de 2011

Reflexo de um olhar


Reflexo de um olhar

Como poderei definir o que existe,
Através desse mar cristalizado
Desse céu translúcido,
Que transmite a vida da alma,
De um despertar de sentidos,
Um transparecer de emoções
Um elo constante entre o mundo,
E o teu mundo,
Como poderei definir o reflexo desse olhar
Poderoso mas secreto
Sereno mas inquieto
Pequeno, mas onde se reflecte
O nosso universo.

(Joel Flor)

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Dois lados de um mundo




Estava distante… de ti… do mundo, perdido entre pensamentos vagos e perpétuos, tentando inconscientemente encontrar um retorno nos desígnios da vida. Subitamente os céus rugiram de uma forma impetuosa, sobre o choque das nuvens negras que cobriam a terra impondo o seu domínio sobre a escuridão.
Uma pequena brisa contornou os traços cansados do meu rosto como que me acariciando a pele pela sua passagem, com o seu toque suave e terno.
Na nostalgia do momento, na solidão que me consumia o espírito e que tentava lentamente desabrochar do seu próprio abismo, nesse momento o céu chorou.
As suas lágrimas que caiam sobre a minha pele me lavando o rosto, transformavam o mundo ao meu redor e subitamente despertei como que se tivesse caminhado num sonho profundo, num mundo distante da realidade, numa distorção da verdade. Vejo agora a guerra que me levou para longe de ti, do teu mundo, do nosso mundo. Onde as cores são vivas, onde o sol nos aquece a pele, nos conforta, onde escuto o riso das crianças pela manhã ao caminharem para a escola, nos seus pequenos passos, ambiciosos e ao mesmo tempo desprovidos de guia, de um sentido, pendentes ao amparo dos pais. Esse sonho, esse reflexo de uma memória que fere a alma, onde caminho lado a lado contigo de mãos dadas, e o mundo, esse… cabe na nossa mão.
Escuto agora o som da chuva forte, que se sobrepõe a todos os outros sons, o murmúrio dos homens que deambulam pela neblina foi ocultado pelo seu poder, pela sua magnitude, por essa natureza tão sublime que dá vida, e renova os corações com o seu canto.
Vejo-te agora claramente, o cabelo ondulado que te caí sobre os olhos com um espiral reluzente aos contornos do sol, da luz que resplandece o teu sorriso, dos teus lábios que estremecem o meu mundo pelo seu toque.
Preservo o meu nome como letras gastas, quase extintas, mas mantenho vivo esse teu perfume, a tua essência que vive dentro de mim, que me possuí e me entretece como um feitiço eterno, como uma masmorra da alma, da qual a chave, foi lançada nas profundezas da terra. Aqui… no fim do meu mundo respiro-te, e sinto-te, no toque da chuva, no sopro do vento, e na força da terra.


- Do outro lado do mundo -

Observo os meus passos na areia, esse rastro solitário, o toque morno da maré que sobe lentamente, do vento que sopra em vão, tentando alterar o rumo do mundo. Observo o despertar do sol no horizonte, aguardo que a luz te traga de volta aos meus braços. Que esse mundo cruel que te roubou de mim, te devolva num súbito gesto de misericórdia, de compaixão, de piedade. Que se sinta comovido pela nossa paixão, pelo nosso amor profundo. Que saiba esse mundo, que és a luz do meu mundo, que quando me roubou de ti, levou também o meu sol e me abarcou nessa escuridão, nesse ocultar dos sentidos. Na perplexidade de uma vida sem rumo, sem destino, sem sentido, sobrevivendo apenas da saudade, da esperança, da dolorosa memória que me visita a cada momento, a cada instante. Do sonho que momentaneamente me conduz de volta a ti, numa pequena imagem que me traz de volta esse mesmo sonho que um dia fomos, essa ilusão impossível que os homens não podem entender.
Está acima de todos nós, numa linguagem que por nós não pode ser escrita, porque por nós não foi tão pouco gerada.
Procuro o meu recanto, na solidão, no desespero e penso que vives. Imploro aos céus que sonhes como eu, que te transportes a esse reino de mil e uma cores que nos dá vida, e nos faz resplandecer na escuridão. Aguardo hoje… sempre… eternamente, por esse retorno que não pode ser negado, não pode ser esquecido, pois vives em mim e me dás vida. Nesse mundo sereno, ambicioso coberto de amor, que só existe através ti… de mim… de nós.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Neste Lugar

No ano de 2007 a exactamente 4 anos atrás, peguei numa guitarra e tentei expor o meu estado de espírito através da música que se manifestava mais facilmente que as palavras. Sem o devido tempo necessário para compor uma letra o resultado foi este...


Letra, melodia e voz
De Joel Flor

sábado, 15 de outubro de 2011

Mar Azul



Mar azul,
Que segredos em ti se escondem,
As ondas que encobrem as pegadas do destino
E ocultam as marcas do passado
Que palavras poderão descrever a tua grandeza
Esse mundo que te carrega e te sustém nos seus braços
O sol que reflecte em ti o seu rosto, cintilando sobre a tua imensidão
Como pérolas e diamantes
O vento que tenta te tocar como um amante perdido
Provocando as tuas ondas, fazendo-te acariciar a terra.
Deixa-me sentir a fragrância da tua natureza,
A tua presença indescritível,
Deixa-me tocar-te, sentir a tua força, a tua ira, a tua serenidade.
O som do teu canto, do teu desabrochar
Do teu encantamento sobre a força do vento
Do teu esplendor eterno.


Joel Flor

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Conto "A escolha"

O frio se instaurava pelas ruas estreitas de Lisboa como um intruso sorrateiro procurando consumir a ausência do sol, agora entregue ao seu repouso. Sofia regressava com duas amigas da noite de sexta-feira, alegres e donas do mundo. Tinham uma vida perfeita, Universidade, dinheiro dos pais, carros importados e pois claro, as sextas-feiras eram sagradas. A Carla murmurava-lhe algumas parvoíces ao ouvido quando a mesma é acometida de uma ânsia no estômago que estraga a diversão momentânea. Mais tarde entrando sorrateiramente pelas traseiras da vivenda dos pais em Cascais, joga-se com as suas roupas embebidas num o odor fétido de álcool e tabaco e desmaia num sono profundo.
Poucas horas mais tarde o sol se erguia na sua magnitude e força penetrando sobre as enormes portas de vidro, implacável sobre a sua fúria inquisidora, torturando o efeito de ressaca que despontava com uma terrível dor de cabeça. Por volta das oito horas da manhã a empregada Denise que teria sido ama pessoal de Sofia na sua infância mantendo-se depois ao serviço da família, entra no seu quarto, despindo-a e ajudando-a a chegar a um chuveiro. Alguns minutos mais tarde ela procurava novamente a Denise que a aguardava com o pequeno-almoço pronto na mesa, observando-a com, um ar preocupante.
- Não sei o que seria de mim sem ti Denise, estou de rastos. - Comenta Sofia sobre uma voz rouca.
Denise engole em seco antes de se pronunciar.
- Já tenho o resultado dos exames Sofia... deu positivo.
A jovem sustem o copo de leite que tinha entre os dedos suspenso e imóvel juntamente com o seu corpo e rosto pálido, lentamente procura uma cadeira cambaleando entre as pernas a uma altura em que gotas de leite salpicavam o chão espelhado.
- Falaste alguma coisa aos meus pais?
- Não, mas esperava que tomasses esse passo o mais breve possível.
- Acho que não conheces bem os meus pais Denise. Isto seria o fim, na minha família nunca houve uma mãe solteira aos dezoito anos. Tem de haver outra solução!
- Que solução Sofia, daqui uns meses vai se notar!
- Não é isso que eu estou a dizer.
Denise observa-a não querendo acreditar no que ela queria dizer. Aquela não era a criança que teria ajudado a criar como se fosse sua filha, talvez mais que os próprios pais, indiferentes aos seus erros.
- Eu não posso decidir por ti, mas para uma decisão dessas podes esquecer a minha ajuda. Nesse tema considera-te só porque jamais irei te apoiar.
Sofia lançava-lhe um olhar furioso, sentia-se desesperada e desamparada. O seu mundo perfeito teria desabado sobre os seus pés como um castelo de areia e ela que sempre tinha tido tudo e todos agora estava só. O pai da criança que se formava no seu ventre era um desconhecido, um jovem alto de traços esbeltos que teria conhecido numa discoteca, no entanto não recordava o seu e nome e o seu rosto desfigurava-se aos poucos na memória.
Meditando mais tarde a sós sobre a situação que se deparava, tomou um impulso de coragem ou talvez covardia e procurou uma clínica ilegal especializada em abortos, longe de casa e discreta, justificar o alto valor que iria sair da sua conta poupança era de longe o pior dos problemas, os pais eram completamente ausentes da sua vida, um casal de estranhos que partilhava a mesma casa e comunicava de um modo geral por bilhetes colados na porta de um frigorífico. Naquela tarde não foi diferente, um bilhete escrito, "Vou passar o fim-de-semana com a Carla!" resolvia o problema sem grandes questões.
Algumas horas mais tarde chegava de táxi a um condomínio fechado com umas instalações decentes que transmitiram um pouco de tranquilidade e confiança no trabalho que ia ser feito. Um assistente acompanhou-a à sala de operações onde iria decorrer a cirurgia. Tudo decorria rapidamente, sem dar tempo que pensar no que ia ao certo fazer. Tinha tomado um impulso procurando uma solução e a solução tinha ganho cor e forma em minutos. Limitava-se a pensar que após umas horas de repouso tudo voltaria a ser como antes e rapidamente esqueceria aquele dia sombrio.
Um médico sorridente e simpático entrou na sala, falava como um vendedor de seguros que tentava quebrar o desconforto do momento com piadas e comentários engraçados gerados a vapor. Apesar do à vontade em que esbanjava numa intimidade excessiva, por momento algum se identificou.
- Vai correr tudo bem, vou te injectar o soro, vais adormecer rapidamente e quando acordares já estará tudo feito, vais ter de ficar só um dia de repouso e pronto estás livre para ires à tua vida.
Sofia assentiu com a cabeça sem ter certeza de nada, dentro de si se encontrava uma pessoa aterrorizada numa guerra contra a sua própria consciência. Nunca teria tomado uma decisão tão adulta até aquele dia, e o facto de estar só desabava a sua fraca estrutura psicológica. Os milhões de pensamentos que cruzavam a sua mente afundaram-se num lago momentâneo à medida que o líquido branco do soro penetrava as suas veias sem um prévio convite, perdeu imediatamente os sentidos desmaiando num sono profundo e sereno.
Acorda subitamente deitada sobre um campo pintado de flores de todas as cores sobre um sol acolhedor e confortante, a bata branca de paciente teria sido trocada por um belo vestido branco de seda comprido até aos pés que se movimentava aos contornos do vento que suspirava como o ressonar de uma criança, os pássaros cantavam diferentes tipos de canções, melodias doces que transmitiam paz numa sintonia divina. Por entre as relvas algo se mexia sem que pudesse ser visto, não lhe provocava receio, apenas curiosidade por entre a que já se havia instaurado naquele cenário deslumbrante, poderoso e tão longe do toque humano.
A medida que aquele remoinho sobre a vegetação se aproximava de entre as relvas e flores saltou uma criança, um rapazinho de cabelos loiros e olhos esverdeados, tinha um sorriso meigo olhando-a de relance, num gesto de reconhecimento e provocação, saiu correndo novamente por entre as flores mergulhando naquele arco-íris terrestre e ao mesmo tempo divino perdendo-se entre sorrisos que se dispersavam naquela vastidão de todas as cores da natureza.
Foi então que a imagem de um homem se formou por entre flores que subitamente se envolviam num remoinho de luzes crescendo com delicadeza ganhando forma e vida. Um ser de aparência humana emergiu daquele tornado de cores pronunciando-se com uma voz que foi soando humana a cada palavra que proferia, à medida que se formava.
- Olá Sofia, que bom te ver aqui, esperei muito por este encontro. – Comenta aquele ser.
- Quem és tu? - Pergunta ela atónita.
- Hoje essa será de longe a mais importante das respostas que deves ouvir. O mundo se revelou a ti num segundo mostrando-te o terror e o medo que impõe quando te tira algo com o qual não julgamos ser capazes de viver. Mas a determinada altura todos os homens acham que chegaram ao limite daquilo que julgariam suportar, no entanto sempre nasce um novo dia que prova que estão errados. Sofrer é natural, é humano, é quase necessário no percurso de cada um. Agora as escolhas que tomamos essas sim, temos de ter cuidado com elas, pois uma escolha pode mudar o mundo, uma escolha persegue-nos até ao fim.
Um pouco confusa com toda aquela informação exposta de um modo intenso e claro, ela foge ao assunto com aquilo que lhe ocupava a mente.
- Aquela criança? Isto tudo... è irreal!
- Os sonhos são irreais, depende do ponto a que estás disposta a ir para torná-los reais.
- Um momento pode ser real, e irreal no segundo seguinte. Tudo depende das escolhas que tomamos, são elas que ditam as regras do que é e não é possível.
- Ele é o meu filho? - Questiona ela trémula e incrédula!
- Sim... poderia ter sido! Mas essa escolha, tu já tomaste. Não tens como voltar atrás.
- Porquê que isto está a me acontecer?
- Porque até ao dia de hoje foste uma pessoa desprezível, nunca pensaste em alguém para além de ti, do teu futuro dos sonhos superficiais que se desvanecem em pó, das amigas que te acompanham, mas temes revelar os teus tenebrosos segredos. Da imagem exterior que valorizas tanto. Tudo isso o tempo destrói.
- Isto è um sonho, eu não acredito nessas coisas.
- Como muitas outras pessoas nunca tiveste a necessidade de acreditar, sempre foste atrás das soluções práticas.
- Mas se eu já tomei a minha escolha, porque é que estamos aqui?
- Porque a partir do momento em que olhaste aquela criança nos olhos, sentiste a dimensão do amor de uma mãe, como por um segundo, por isso é que ela não saí da tua cabeça, pela tua capacidade de amar já te transformaste numa nova pessoa.
- Fala-me mais dessa criança. Como é que sabes que ele existe se a escolha já foi tomada?
- Porque eu não tomo escolhas, eu conheço o passado, o futuro e o presente, tudo me è revelado por isso não preciso escolher.
A tua próxima pergunta é: O que será que aconteceria se eu escolhesse ter esse filho. Irias sofrer, os teus pais te rejeitariam, irias morar num bairro degradado, sem condições mas terias a maior riqueza desse mundo.
- Deixa-me vê-lo!
Aquele ser aproximou-se dela colocou-lhe as mãos sobre a testa e subitamente o mundo se transfigurou, num segundo viu o filho crescer, ir para a escola, começar a namorar, entrar na universidade, pedir alguém em casamento e ser um homem exemplar, amado…
- Isto é o que muitas pessoas podem ser, no entanto ele seria muito mais do que isso, se tivesse tido a oportunidade de viver.
- Como assim?
- Daqui 30 anos irá se propagar um vírus mortal chamado XV, esse vírus vai dizimar 6 mil milhões de pessoas, até que por fim eliminará por completo a raça humana. Dentro de 40 anos não haverá um ser vivo na Terra.
Sofia escutava trémula e incrédula toda aquela informação que lhe era dada. Sentindo-se cair sobre o chão sem forças.
- O teu filho se existisse seria o Doutor Leonel Silvestre, ele estava destinado a encontrar a cura, mas através de uma escolha, o destino do mundo mudou?
- Eu sou responsável pelo fim da humanidade?
- O fim da humanidade tem tanto de previsível como de inevitável. Tu és responsável pelas tuas escolhas.
- Estou perante o meu julgamento?
- Não, estás perante uma segunda oportunidade.
- Eu farei tudo para concertar os meus erros, prometo! Não me deixes terminar assim, eu vou viver em função dessa criança, se for preciso morrerei em função dessa criança também.
- Então, assim seja!
Sofia despertou subitamente deitada sobre aquela máquina observando o médico!
- A cirurgia…
- Calma, vai correr tudo bem, vou te injectar o soro, vais adormecer rapidamente e quando acordares já estará tudo feito, vais ter de ficar só um dia de repouso e pronto estás livre para ires à tua vida.
            Quando o médico descia com aquela injecção Sofia agarra-o pelo braço empurrando-o violentamente.
- Afasta-te de mim.
Olhando-a surpreendido o médico observa-a afastando-se e saindo pela porta principal.

Dez anos depois…

Sofia residia num T0 com o seu filho Leonel, trabalhava de dia num supermercado e de noite num bar, de madrugada chega a casa deparando-se com a luz cortada por falta de pagamento, procurando o seu filho o mesmo encontrava-se na varando com duas velas acesas uma de cada lado.
- Não estás dormir ainda seu maroto?
- Mãe, porquê que temos de passar por tanta necessidade, enquanto outras crianças tem tudo.
Sofia envelhecida, vinte quilos mais gorda observa o seu filho sentindo as lágrimas caírem sobre o seu rosto numa sensação de fracasso para com ele. O Leonel sorri com o mesmo sorriso que teria contemplado pela primeira vez naquele campo de flores e luzes.
- Não fiques triste mãe, olha para aquele céu estrelado, faz de conta que é o nosso tesouro.
- Tu és o meu tesouro, a minha riqueza, no meu coração és maior que o céu e a terra, e enquanto te tiver a ti… terei tudo.









Joel Flor



domingo, 2 de outubro de 2011

Confiança


A sombra da dúvida
Destrói a verdade
Estremece a confiança
Contamina o amor
E desencadeia guerras.

Vive...
Deita tudo a perder por amor
Corre riscos
Abraça os sonhos
Segue esse instinto rebelde
Erra e volta a errar
Constrói projectos
E desenha o teu futuro
Porque esse enorme horizonte
Pertence-te a ti.
 
Joel Flor

domingo, 18 de setembro de 2011

Novo Blog - Jornal da Literatura

http://jornalliteratura.blogspot.com/2011/09/jornal-da-literatura.html

JORNAL DA LITERATURA nasce de uma forma humilde mas com objectivos de peso, esperando atingir um público gigantesco. Publico esse que será nomeadamente, leitores, autores e editoras. Pretende de uma forma concisa promover a escrita de jovens autores, tanto de escritores que desejam se promover como de jovens talentos que nem imaginam do que são capazes. Conquistar o devido valor por mérito próprio é algo difícil mesmo nos dias hoje e acredito plenamente que não existe nada mais gratificante do que ler o reconhecimento do nosso talento na escrita de outras pessoas. Estaremos dispostos a abordar o trabalho de escritores e poetas de língua portuguesa espalhados pelo mundo, se os mesmos manifestarem o interesse de serem divulgados poderão nos contactar pelo correio electrónico:

Teremos como objectivos secundários a divulgação de lançamentos, livros e todo o género de eventos literários.

Joel Flor

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

As Lágrimas do Furacão


Um homem desperta numa quinta no sul da França, sem memória, sem passado, sem uma história para contar, nada mais que cicatrizes antigas pelo corpo. Acolhido por um casal de idosos que o encontraram sobre as searas das suas plantações de trigo juntamente com os estragos de uma terrível e invulgar tempestade.
Colocam-lhe o nome de Jean e recebem-no como o filho que nunca tiveram. Com o passar do tempo começam a denotar comportamentos estranhos, pesadelos terríveis, e Jean começa a receber de volta confusos fragmentos de memória, cada um em diferentes eras da humanidade. A construção de todas as peças do Puzzle revelam um passado invulgar, gigantesco e amargurado escondido sobre um segredo mais antigo que a humanidade.