segunda-feira, 22 de outubro de 2012

O Destino nas asas de uma borboleta


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


 
Estranha sensação,
Quando seguramos os nossos sonhos
Na palma da nossa mão,
Como uma Borboleta que bate as suas asas em camara lenta,
Vulnerável, cativa, como se escutasse o pulsar do nosso coração
Hipnotizada pelo som da nossa vida, do nosso ardente desejo.
Estranho momento,
Em que tudo que precisávamos fazer
Era apenas fechar os nossos dedos e não deixá-la fugir
Como um instinto quase irracional, mas lógico e sensato.
E no entanto os dedos permanecem imóveis.
Os sonhos permanecem tão perto por alguns momentos
Sentimos a sua força, a sua essência a sua glória,
Mas vemo-los afastarem-se lentamente, dolorosamente
Com o vento que os arrasta impiedosamente de volta à sua ilusão.
Deixando a dúvida de que alguma vez tivessem existido.

 
A felicidade não está num lugar distante, num futuro incerto,
Na maior conquista, no pior sacrifício.
Está na próxima esquina, na próxima pessoa, no próximo momento.
Basta-nos acreditar.
 

(Joel Flor)

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

O som da vida - Parte I

            No ápice da montanha de gelo um sol morno se erguia por cima daquele mundo frio e silencioso, Os seus finos raios recortavam em camadas de luz os montes que se estendiam por entre o gelo até aos confins da terra.
Suspiros e murmúrios quase extintos ecoavam por entre o vento contando histórias de passados, sonhos que produziram lembranças num momento sublime que os meros mortais conhecem como vida.
O seu espírito vagueava sobre aquela paisagem sem compreender a sua natureza a sua existência, desconhecia o seu nome o seu princípio e o seu fim, sabia de certa forma que o seu corpo estava morto, não conseguia produzir qualquer som mas meditava num vazio, não sentia tristeza ou alegria ou qualquer emoção humana. Tentava recuperar qualquer lembrança de uma existência no entanto todos o dias lhe era dado a conhecer somente a sua solidão.
            Sabia de uma forma incompreensível que a determinado momento por um indefinido tempo teria sido alguém, teria vivido outra vida. A sua natureza era sublime, perfeita, mas o seu desconhecimento de todas as coisas e a sua solidão sobre aquele universo levavam-no a desejar a simplicidade de uma vida sujeita a dores e tormentos num mundo caótico em constante movimento.
            Então desejou, desejou de uma forma tão poderosa ser alguém, sentir, tocar, correr descalço sobre a terra húmida, sentir o toque da chuva sobre a pele, o sopro do vento a agitar os seus cabelos que, o universo atendeu ao seu pedido. Sentiu-se arrebatar como que aspirado às profundezas da terra e num breve instante despertou, como se há muito tivesse adormecido.
            Estava deitado sobre capim, sentia calor, ao fundo escutava vozes compulsivas e incompreensíveis de crianças que expressavam as suas naturezas alegres e rebeldes. O som parecia estranho mas ao mesmo tempo natural, quase óbvio. Levantou-se lentamente observando as suas mãos finas dedos compridos e delicados, correu-os pelo seu rosto. O toque era suave e transmitia uma sensação de conforto. As pernas balançavam como se nunca tivessem antes sido usadas. Cabelos loiros voavam de uma forma rebelde diante dos seus olhos. Caminhou com alguma dificuldade até à beira de um rio, as águas estavam tranquilas e transmitiam nitidamente a imagem do seu reflexo. Ele percebeu que na verdade era “Ela”, uma mulher bela, elegante de traços finos e esbeltos estendia-se à sua frente, desconhecia as suas vestes que pareciam apropriadas e desconhecia a sua imagem, quase certa de que em outra vida nunca teria sido a sua.
            Caminhou lentamente por entre as ervas molhadas que abraçavam o rio, observava agora as crianças de perto que a ignoravam por completo, perdidas nos seus afazeres, ausentes do complexo mundo exterior dos adultos.
Um homem observava-a de forma curiosa, apercebeu-se nitidamente da diferença entre géneros e das suas atrações, reconheceu a sua própria beleza e o efeito que exterior que produzia aos demais. Estava completamente perdida no tempo e no espaço e até que a natureza do seu retorno se revelasse teria de permanecer discreta, tentando ocultar o efeito da sua aparência enquanto desvendava o puzzle da sua existência.
Tentou afastar-se do contacto humano caminhou durante longas horas por campos, estradas, vilas, no entanto apenas se conseguiu sentir invisível entre as multidões das cidades maiores, onde todos eram estranhos entre eles.
Uma coluna de prédios estendia-se pela avenida onde os carros circulavam em dois sentidos, no passeio centenas, talvez milhares de pessoas caminhavam despercebidas de si mesmas e do mundo. Aconchegou-se num banco de costas para um pequeno jardim e voltada para a avenida. Com um capuz cobria o seu rosto ocultando os longos cabelos entre o blusão que trazia vestido. Tentava construir informação coerente, mas os seus fundamentos não tinham base. A sua história não tinha um ponto de partida e dos dois mundos que conhecia teria dúvidas de qual seria verdadeiramente o real.
Foi então que a voz de um homem que surgiu do nada sentado do seu lado se pronunciou…
- É impressionante não é?
- Desculpe? – A sua voz intrigou-lhe mais do que a pergunta que lhe dirigia o estranho, tocou lentamente nos seus lábios como se pudesse segurar as palavras com os dedos. Queria comunicar mas os argumentos não existiam.
- Refiro-me ao modo como circulam, perdidos em rotinas curtas obcecados por projetos que nunca viram a existir, numa luta constante contra a incerteza de um tempo, o tempo que lhes é concedido neste mundo.
Ela soube naquele momento que a aquele estranho possuía todas as respostas, que de certa forma também ele era parte de algo que transcendia a vida. Queria interroga-lo com centenas de perguntas mas a sua mente não as produzia. Foi então que se focou na questão principal e prosseguiu…
- O que sou eu?
- Foste em tempos, noutros tempos um deles.
- E agora?
- Não me perguntes a mim, foste tu que questionaste a tua origem, rejeitaste a tua natureza por uma segunda oportunidade.
- Isso acontece com frequência, existem mais casos?
- Apenas com os que não estão em paz com eles próprios. Aqueles que deixaram assuntos inacabados entre os mortais. Ou os que precisam se redimir dos seus erros, e corrigir os seus passos.
- O que devo eu fazer?
- Deves aproveitar o tempo que te foi dado. Em breve irás retornar.
- Quanto tempo tenho?
- Muito pouco!
- Como é que sabes tudo isto? Quem és tu?
- Sou alguém que observou muitas gerações, que conhece a natureza humana, as suas virtudes e as suas fraquezas. O resultado da sua imaturidade e por outro lado a beleza da sua devoção à vida, o poder dos seus sonhos.
- Não sei por onde começar!
- Segue o som da música.
- Qual som?
Olhou para aquela figura mas a mesma já lá não estava. Tinha-se evaporado. Confusa, começou lentamente a escutar um coro que cantava vigorosamente um canto. Levantou-se e seguiu o som.
Estreitou-se por uma ruela estreita e esguia, cruzou-se entre alguns olhares de residentes locais que estranhavam a sua presença até que estacou junto de um enorme portão em arco que estava aberto, de dentro ouvia-se um grupo de mulheres que cantava de uma forma virtuosa um canto religioso. Enquanto se apoderava daquele som que estremecia aquela sua natureza sentiu uma mão sobre o seu ombro. Voltando-se uma mulher de cor, de meia-idade sorria-lhe.
- Entra criança, vamos servir o almoço.
Denotou que estava já por alguns momentos com uma certa má disposição, que algo a incomodava, percebeu que não se alimentava a horas e o convite que a enfeitiçava com o perfume do guisado fez com que cedesse sem questionar.
Teria cerca de trinta pessoas circulando por aquela enorme casa. Ninguém a observava como uma estranha. Por outro lado, eram muito simpáticos e acolhedores. A senhora que a recebeu chamava-se Amélia, alguns minutos depois sentou-se do seu lado sorrindo de uma forma que certas pessoas sorriem, tá nas suas naturezas serem o que são e mesmo os piores trajetos que a vida por vezes impõe, não consegue mudar a natureza que as faz sorrir quando por vezes querem chorar.
- Minha criança! Pareces perdida, queres falar sobre isso?
- Eu acredito que todos temos um propósito no mundo, um motivo para estarmos aqui, mas não consigo encontrar o meu!
- Por vezes tentamos forçar o raciocínio, quando todas as respostas estão no coração. És jovem, não devias encontrar propósitos. Tens de viver somente, a vida e os propósitos hão de se revelar com o tempo. No tempo certo.
- Não estou certa do tempo que tenho!
- Ninguém está! O segredo está em viver e deixar o tempo correr!
- Sim mas no meu caso…
Susteve as suas palavras, não sabia até que ponto a sua história ou a ausência de uma poderia parecer estranha…
- Porque não voltas para casa? Pelo teu aspeto não pareces alguém que ande pela estrada. Deves ter alguém desesperado à tua procura.
- Eu não me recordo de nada! Como é que eu posso saber se alguém me procura e de onde venho?
- É simples, tens uma esquadra de polícia a dois quarteirões daqui. Se foste dada como desaparecida deverão ter um registo.
Assentiu em concordância e levantou-se lentamente…
- Obrigado pela sua hospitalidade, vou tentar descobrir alguma coisa.
Ela abraçou a Amélia sentindo um certo conforto naquele abraço, o contacto humano era um estranho despertar de emoções. Afastou-se lentamente acenando-lhe.
Contornou as pequenas ruelas saindo novamente na avenida principal, existiam dois mundos dentro daquela cidade, aquele pequeno subúrbio e aquela estrada recheada de montras, prédios, cartazes e pessoas, centenas de pessoas elegantes que circulavam seguindo as suas rotinas. A esquadra estava junto a uma esquina bem visível. Aproximou-se timidamente, cruzou-se com dois agentes que passaram por ela despercebidos. Alguns metros mais a frente outro agente a observava curioso, continuou passando por ele e entrou dentro do edifico. Várias pessoas trabalhavam entre papéis, telefones e computadores, na maioria fardados, outros pareciam civis. Dirigiu-se a um enorme balcão, do outro lado um agente jovem sorriu-lhe.
- Precisa de ajuda menina?
- Sim… Queria tentar descobrir se existe alguém a minha procura. Perdi a memória. Não me recordo nem do meu nome.
Intrigado e desvanecendo lentamente o sorriso o agente acompanhou-a a um corredor onde pediu-lhe que aguardasse. Alguns minutos passados foi encaminhada para outro agente, um homem dos seus cinquenta anos, sentou-se junto a uma secretária. Entre vários papéis tinha o retrato do agente com a esposa e duas filhas, a imagem tocou-a, mas logo retomou a sua atenção.
- Já procuraste nas tuas roupas se tens algum documento, algum contacto?
- Os bolsos estão vazios.
- Muito bem, eu vou tirar-te as impressões digitais, uma foto de rosto e outra de perfil. Se quiseres um café quente podes usar aquela máquina, isto vai demorar um pouco vou correr todas as imagens de pessoas desaparecidas nas últimas 48 horas, parece fácil mas infelizmente são mais do que imaginas. Pode ser que tenhamos sorte, e entretanto vou emitir um ficheiro com os teus dados e partilhar com as outras esquadras. Há de se conseguir alguma coisa. Sempre se consegue, tem é de se ter paciência.
- Obrigado.
E assim esperou, esperou e adormeceu estendida naquele banco desconfortável até que as dores quebrassem o sono contornando a embriaguez do cansaço. O agente de nome Carlos estava de pé diante de si, lá fora o sol tinha-se posto dando lugar a uma noite fria e gélida. A falta de conforto parecia a melhor alternativa que tinha perante a escuridão das ruas agora um pouco mais desertas.
- Lamento, verifiquei todos os casos atuais de desaparecimento nas últimas 72 horas, não existe ninguém à tua procura. São agora 22 horas tenho de ir embora, suponho que não tenhas onde ficar certo?
- Suponho que não.
- Tem uma pensão do outro lado da rua, se quiseres posso-te alojar lá e retomamos amanhã cedo. Se te sentires animada, podes sempre passar aqui a noite num dos computadores, vendo casos mais antigos. Vão andar alguns agentes por aí qualquer coisa que precises, podes pedir-lhes.
- Não acredito que consiga dormir com tanta coisa em que pensar, fico aqui.
- Muito bem, se não tiveres sorte pode ser que amanhã já tenhamos notícias.
Assentiu com um leve sorriso, tinha tido sorte com as pessoas que cruzaram o seu caminho nas últimas horas, já era algo de valor. Pesquisou vários casos sem sucesso, ao fim de quarenta minutos os olhos estavam cansados e resolveu sair um pouco. Mergulhou naquela noite escura e fria. As respostas que precisava, a busca pela verdade, ninguém desde mundo lhe podia dar.
Como se alguém escutasse a voz do seu coração uma criança que estava sentada no passeio envolta em trapos dos seus doze anos de idade dirigiu-lhe a voz.
- Os mistérios do mundo são tão pequenos quando o ser humano se debruça sobre os mistérios da sua alma, da sua própria existência. No entanto contra todas as possibilidades sem qualquer fundamento ele insiste na procura da verdade.
- Não é o certo? Buscarmos sempre a verdade?
- A verdade sem conhecimento e sabedoria é apenas uma ideia. Pode ser manipulada e transformada segundo intentos, no entanto aquele que conhece a verdade e caminha na sua luz, esse sim desvenda todos os segredos.
- Quem és tu? Para além de alguém que conhece várias gerações humanas e o demais que não me recordo.
- A humanidade só me conhece no fim da sua jornada, alguns tendem a chamar-me de morte. Eu considero uma palavra forte e negativa. Não sou eu que tiro a vida, apenas aguardo por todos quando a mesma chega ao fim, sou um guia, num novo mundo, numa nova vida.
Não vais encontrar ninguém à tua procura porque já ninguém te espera encontrar com vida. Como aguardei muitos, um dia vim por ti também, uma alma destroçada, cheia de remorsos.
- Porque motivo não me recordo de nada?
- Quanto vieste ter comigo pediste que te apagasse o passado, assim o fiz e mesmo sem o registo de uma vida, a tua alma quis regressar.
- Se eu recuperar a memória poderei saber o que busco?
- Poderás arrepender-te também de buscar seja o que for.
- É o único caminho!
Aquela criança suspirou durante breves momentos, mostrando o primeiro sinal de incerteza sobre o que iria fazer…
- Muito bem, fecha os teus olhos!
Como uma luz que clareou a sua mente a memória retornou, e ela caiu de joelhos em pranto e desespero perante o terror da verdade…


 
Continua…


(Joel Flor)
 

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Jornada



Deleita silenciosamente os seus ossos cansados no velho cadeirão da sala. A lareira que teria levado algumas horas para alcançar o triunfo do fogo, esbanjava agora o consolo do seu calor como um abraço afável onde todos os percalços do dia se dissolvem graciosamente sobre as chamas.
O seu corpo permanecia imóvel, o único sinal de vida que expressava eram os olhos que viajam pelos cantos da casa, pelas recordações em cima das prateleiras, por entre livros, móveis, fotografias de rostos que permaneciam apenas por entre o perfume amargo da saudade. O silêncio trazia de volta as recordações e como ela detestava aquele silêncio. Poderia um vendedor de TV por cabo entrar de rompante mesmo que o velho televisor avariado há oito anos encurtasse a sua visita. Poderia um parente distante aparecer junto à porta com uma mala entre os dedos. Podia na pior das hipóteses cair uma tempestade, talvez o som da chuva e do trovão a consolassem com a sua melodia, mas até a brisa da tarde descansava no seu recanto.
Esse era o problema do silêncio, quando ele absorve a nossa vida levando tudo e todos, o mundo e a natureza acabam também por se esquecer de nós, até que as nossas memórias morram connosco e a nossa história se desfaça entre as cinzas como se nunca tivesse existido. “Cinzas ao vento”, este era um dos inúmeros pensamentos que a perturbavam.
Na história da sua vida, os três filhos teriam partido para a guerra e não voltaram, o seu marido teria adormecido para sempre na sua cama, num sono profundo e pacífico. Um homem de consciência tranquila sobre o legado que teria dado aos filhos e da história que teria deixado para trás.
Parte dela teria morrido com eles e a pessoa que ela foi em tempos era apenas uma sombra. A casa que em tempos era inundada pelos sorrisos das crianças que cresciam aos seus pés. Dos churrascos de domingo dos amigos que despareceram com o tempo. Essa melodia graciosa e acolhedora, o som da vida estava presente naqueles retratos, ela permanecia como a última nota de uma música. Como a última frase de um romance com um final óbvio.
O som de um veículo surge no horizonte, o seu vulto movimenta-se por entre as persianas de madeira contornando a luz do por do sol quase extinto. O silêncio è rompido pelo som das rodas que se sustém junto à sua porta, mantendo-se apenas o som de um motor que trabalhava como um relógio.
Ela teria tido aquele mesmo sonho vezes sem conta, que um veículo trouxesse as suas crianças de volta para os seus braços, até que o sonho morreu com o fim da esperança.
Levantou-se dolorosamente sobre os seus ossos cansados apoiando-se sobre as suas pernas. Escutou vozes do lado de fora. O ronco do motor se afastou lentamente à medida que um homem batia à porta. Aproximou-se exausta tentando reconhecer os traços que se desenhavam por entre as cortinas da porta. Sem pensamentos prévios foi recebida pelo sorriso do seu filho mais novo, estava envelhecido, teria permanecido durante dez anos como prisioneiro de guerra. Acolheu-a nos seus braços durante alguns minutos até que entraram os dois e conversaram durante horas.
Era tempo de escrever uma nova história, de seguir um novo percurso. Existem coisas na nossa vida que parecem incontornáveis, fins que parecem previsíveis e sonhos que parecem maldições, mas num universo em constante movimento a única certeza que é certa, é não termos certeza de nada. Que devemos acreditar até ao último segundo. Que devemos manter sempre acesa, a luz na escuridão.
 
 
 
(Joel Flor)

sábado, 23 de junho de 2012

A chuva das Memórias

                O silêncio é rompido pelo ressonar do trovão, antecipando-se ligeiramente ao leve tilintar das gotas de água que levantavam os primeiros grãos de poeira da terra. Aconchegava-se na sua caixa de papelão tentando combater o frio húmido que o vento carregava, mas de certa forma enfeitiçava-se lentamente sobre o poder do som da natureza, por aquela melodia melancólica. Os sons era tudo o que possuía, os infortúnios da vida teriam num passado distante lhe levado a visão deixando-o para sempre na escuridão. A lembrança das cores das formas era nada mais que um retrato desfigurado de uma outra vida.
                Por aquela altura a densidade do som da chuva teria absorvido todos os outros sons, a cidade permanecia no silêncio, assombrado pela força da natureza que chorava sobre o mundo dos homens.
                - Vivaldi desceu das nuvens para tocar só para mim, que honra! – Comenta ele sobre uma gargalhada para o seu cachorro sarnento e moribundo.
                O sorriso desvaneceu-lhe lentamente, e a tristeza o atingiu profundamente como os relâmpagos que desciam das nuvens. Chorou incansavelmente como a muito não chorava. Desejou por momentos que a loucura o tomasse, que perdesse noção de quem era, do que havia sido e do que o tempo lhe teria roubado.
                O som de passos chapinhando sobre a água despertou subitamente a sua atenção. Pelos passos das pessoas ele avaliava o seu carácter, a sua constituição física e até o peso da sua carteira.
                Era um homem, tinha passos firmes e despreocupados, não lentos mas tão pouco apressados, os sapatos cheiravam a novos e de boa qualidade, no entanto o que não esperava era a supressão daquele som quando o homem se susteve diante de si em silêncio.
                Assustado e incrédulo temeu por momentos pela sua vida, mas rapidamente recordou-se que a sua vida nada valia, e desejou logo de seguida que a mesma tivesse em risco a fim de pôr um termo ao seu sofrimento.
                - Porque choras? – Questionou aquele homem de presença firme. A sua voz transmitia segurança, compaixão e uma certeza de que não estaria ali por acaso.
                - Choro porque não tenho motivos para rir, como deves certamente observar.
                - Entendo! A vida consegue ser cruel por vezes, nas escolhas que nunca tivemos, nos sonhos que nunca vivemos e nas cicatrizes que nunca irão sarar.
                Seguiram-se alguns segundos de silêncio. O cego tentava perceber por qual motivo estaria ali aquele homem, com certeza não era apenas para conversar. No entanto sentia vergonha de questioná-lo e assim aguardou que o seu propósito se revelasse.
                - A chuva também me desperta várias memórias, apenas as tristes.
                - Parece que temos algo em comum então.
                O cego calculou que por aquele momento o estranho homem estivesse-lhe sorrindo e retribuiu-lhe da mesma forma. Teriam passado muitos anos desde a última vez que lhe tinham dado um pouco de atenção, sentir uma presença por perto era mais agradável do que recordava.
                - Gostava de te contar uma história, se tiveres interessado em ouvir. – Comentou o estranho.
                - Tenho todo o tempo do mundo.
                - Houve em tempos uma tempestade como esta. O dia tinha amanhecido com o céu limpo mas de um momento para outro as nuvens começaram a formar-se. Um homem muito rico afastou-se da costa com alguns amigos num barco turístico. A tempestade surgiu do nada, perdendo o controlo do barco o mesmo se encalhou sobre as rochas provocando-lhe vários estragos. Numa terrível luta contra a natureza o barco começou-se a afundar irremediavelmente.
               Um pescador que regressava de um dia trabalho surpreendido também pela tempestade, no entanto mais preparado para ultrapassá-la, avistou os destroços e escutou ao longe o grito das pessoas.
               Lutando contra todas as possibilidades ele mergulhou sobre mar, nadou com todas as forças e alcançou um local onde pedaços de madeira e restos do barco boiavam dançando por entre as ondas rebeldes. Recuperou o fôlego e entregou-se ao fundo do mar. Alguns corpos emergiam do abismo sem vida, contornou-os até que alcançou o barco nas profundezas do mar. Por entre os vidros de um compartimento observou um pequeno espaço onde uma criança recém-nascida boiava deitada num berço. A água entrava rapidamente o que lhe dava pouco tempo. Partiu um vidro que se rachou, a força da pressão estilhaçou-o em vários sentidos atingindo-o em várias partes do corpo, nomeadamente os olhos.
                Qualquer homem vulgar teria desistido por aquela altura, teria lutado para salvar a sua vida, mas aquele homem persistiu e momentos mais tarde emergiu sobre as ondas com a criança nos braços.
                Foi a única vida que conseguiu salvar, chorou amargamente por ter fracassado para com os outros quando foi encontrado pela polícia marítima.
                Ao fim de três dias sobre cuidados intensivos num hospital aquele homem veio a perder a vista completamente.
                A sua história nunca foi contada, nunca passou nas notícias, a única referência que se soube foi da ilustre família que perdeu a vida em alto mar. As pessoas já não se interessam por heróis, já não acreditam em contos de fada. Preferem os mexericos, os pobres da sociedade, a realidade cruel deste mundo decadente.
                - Se nunca foi contada como é que soubeste?
                - Porque graças a ti, hoje estou vivo!
                O cego permaneceu em silêncio atónito sem palavras, deixando que o estranho continuasse.
                - Procurei-te por todo o mundo, tenho uma dívida por pagar, e na minha família sempre pagamos as nossas dívidas.
                - Não me deves nada rapaz. Vive apenas e goza essa vida para que o meu sacrifício não tenha sido em vão.
                - Se o fizesse não seria muito diferente de todos os outros que se esqueceram de ti.
                - Não tem nada que me possas dar que eventualmente mude algo na minha vida.
                - Vou dar-te dois olhos novos. É uma cirurgia dispendiosa mas a minha dívida não tem preço, quando recuperares terás formação para trabalhar na minha empresa e nunca mais voltarás a dormir na rua ao som da chuva. Por mais que esse som nos toque na alma e nos consuma na sua magia.
                - Não sei o que dizer!
                - Não precisas de o fazer. A vida ensinou-me muito, tal como a nunca me arrepender de todo o bem que fizer, mesmo que o mundo não o reconheça. A isso, chama-se ser nobre. Um dia tu salvaste a minha vida. Deixa que salve a tua hoje.
                A chuva parou lentamente, vestígios do sol despiam a escuridão com os seus raios de luz, o estranho sentou-se lado a lado com o cego observando o arco-íris que surgia no horizonte.
                - Como é que ele é... O nascer do sol?
                - Hum… É magnífico! Simplesmente magnífico.
                O dia amanheceu sobre as ruas molhadas e desertas, sobre o palco de dois desconhecidos. Um contemplava-o com o olhar, outro com o coração.

(Joel Flor)

sábado, 16 de junho de 2012

A Queda da Estrela

           Maria viu com os seus próprios olhos esverdeados, a estrela que dançava por entre as demais na escuridão da noite como um pirilampo endiabrado querendo dar nas vistas.
Era uma daquelas noites quentes de verão em que o perfume do sol permanece na sua ausência. A estrela permanecia inquieta, escondia-se ocasionalmente entre as nuvens mas logo tornava a esbanjar a sua presença numa magia espontânea. Ela permaneceu indiferente até que notou algo estranho, aquela forma dançante de luz começou a crescer, ganhando proximidade e a sua presença não pode mais ser ignorada. Desceu como um relâmpago sobre os montes provocando um enorme clarão sobre vários quilómetros, como se o sol tivesse despertado por alguns segundos.
Incrédula, ela observa tudo ao seu redor mas estava só, não havia ninguém para partilhar aquela visão extraordinária e terrível. O seu coração batia forte e incansavelmente num ritmo que lhe cortava a respiração. A sua mente estava dispersa, perdida, entre a incredulidade e o raciocínio. Então correu ao encalço daquela luz que começava a se apagar entre os montes, se encolhendo sobre a escuridão. Alcançou-a depois de uma corrida interminável, mas susteve-se quando sobre a terra, sobre um círculo de fogo, um anjo chorava a sua queda.


                                                                                                                       (Joel Flor)

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Lendas de Guerra - A unificação dos Reinos - Capítulo X

- Capítulo X –



Os arqueiros de Vallars aguardavam a ordem para disparar sobre o exército que se aproximava, mas a ordem não foi dada. Malcon queria deliciar-se daquele momento e liderou o exército montado no seu cavalo empunhando a sua longa espada. Lorya teria abandonado a fileira das arqueiras colocando-se com a sua lança lado a lado de Rave e Alexis.
- Quem é que vai liderar os arcos?
- Eu dei as instruções necessárias, neste momento precisas mais de espadas do que arcos. Estou certa?
Rave assentiu sem desviar o seu olhar do Cavaleiro dourado que não cedia à proximidade, aguardava por outro lado que Jak cedesse e se aproximasse.
- Temos alcance para abatê-lo? – Questiona Alexis.
- Não, está fora de alcance, talvez se o conseguíssemos fazer-se aproximar! – Comenta Lorya sem demonstrar muito interesse.
- Não temos tempo para planos agora. Vamos formar um círculo de combate na frente do exército, vamos quebrar a marcha deles.
Os soldados de Jak alcançaram aquela frente de Vallars num estrondo terrível, corpos começaram a ser mutilados, trespassados por aquelas enormes lanças que foram içadas para frente. A ordem foi dada e as arqueiras soltaram as flechas que mergulharam com um cálculo perfeito trespassando pescoços, braços e pernas de uma minoria de soldados. Os guerreiros de Vallars começaram a pousar as lanças e a desembainharem espadas longas para um combate directo. Tinha começado. Ao sinal de Rave um pelotão de trezentas arqueiras recolheu os arcos e desembainharam espadas curtas avançando em corrida pelo terreno. Mais à frente já não havia ordem, todos lutavam pelas suas vidas da melhor forma que podiam. No entanto dois homens de Jak distinguiam-se pela técnica exímia que exibiam apanhando os soldados de surpresa. Rave e Alexis combatiam de costas um para o outro quebrando a muralha de ferro, Rave estraçalhou sete vidas numa combinação de golpes em quatro segundos. As armaduras, os escudos e as espadas pesadas tornavam os soldados lentos. Contra os assassinos mais rápidos do planeta era um facto letal, no outro extremo do campo o cavaleiro dourado estraçalhava vidas com golpes certeiros, cortando cabeças, rachando crânios, sempre mantendo-se na devida distância das arqueiras.
As arqueiras de espadas alcançaram a frente da batalha, eram ágeis usavam adagas e espadas curtas, saltavam por cima dos homens, deslizavam por debaixo deles como se fossem raposas proferindo golpes certeiros. Aquela antes muralha de ferro estava dividida ao meio. O combate prolongava-se por minutos desesperantes até que a determinada altura teriam perdido a noção do tempo numa batalha infernal contra o último suspiro. Lorya era uma guerreira exímia, combatia a poucos metros de Rave e Alexis, mais de cem corpos já jaziam entre a morte e a vida naquele círculo de guerra junto aos seus pés. Ao sinal de Malcom a infantaria leve, os famosos guerreiros de Vallars que teriam permanecido como espectadores até o momento avançaram em corrida. Malcom que estava rodeado de rebeldes que tentavam a todo custo colhê-lo como troféu viu-os serem varridos por aquela frente poderosa que avançava em velocidade pelo terreno ceifando dezenas de vidas. De um momento para o outro Rave apercebeu-se que iria acabar em breve. Todos iriam morrer nos próximos minutos a menos que ele arriscasse.
- O Malcom tem de morrer! – Gritou ele exasperado para Lorya. Sem tempo para lhe responder cercada de inimigos Lorya assentia. Voltando-se para Alexis deu lhe indicações rapidamente.
- Mantém-me vivo miúdo, dá-me cobertura.
- Rave são pelo menos quinhentos metros! Tu nunca vais conseguir, aquele lado está completamente perdido!
- Dá a ordem de retirada, se eles vos seguirem manda abrirem fogo para lhes fechar a entrada nos bosques.
- Rave eu…
- Tu estás no comando agora faz o que te digo! – Replicou Rave em alta voz enquanto trespassava a garganta de um soldado que falhou a cabeça de Alexis por milímetros.
Rave avançou em corrida proferindo golpes rápidos pelo caminho, libertou-se da armadura leve que carregava tornando-se ainda mais rápido. Saltava por cima dos soldados como se fossem pedras e muros a uma altura em que já nenhum soldado de Jak estava ao seu alcance. Embateu de frente contra a infantaria leve que atrasou o seu passo mas de longe o travou, começou a esquartejar tudo que se movia à sua frente sentindo alguns cortes na sua pele desprotegida.
Um soldado habilidoso, um comandante pela armadura colocou-se no seu caminho embatendo a espada contra a dele empurrou-o para a frente atingindo-lhe com o escudo na cabeça, o segundo golpe que seria da sua espada foi travado a tempo. Rave desarmou-o e trespassou-o pelo estômago sentindo também o seu sangue escorrer-lhe da cabeça. Prosseguiu abatendo rapidamente mais quatro soldados. Erguendo-se por cima de um homem volumoso e robusto pisou-lhe na cabeça e elevou-se a alguns metros de altura embatendo a espada na do cavaleiro dourado que desviou em apuros o golpe jogando-o por terra.
Rave caiu sobre o chão violentamente, atordoado, levantou-se lentamente com a vista turva tentando focar desesperadamente o cenário que o rodeava antes que a sua vida fosse ceifada. Quando os soldados preparavam-se para trespassá-lo a ordem surgiu daquela voz imponente e autoritária.
- Deixem-no! Esse é meu! – Malcom queria o seu troféu, nada melhor do que o único homem digno de ser morto que teria encontrado nos últimos dias. Levantou a sua espada e avançou com todo o seu vigor.
- Luta justamente! – Gritou Rave para o adversário.
- Eu sou um lorde, seu porco miserável. – Responde Malcom quanto preparava-se para atingi-lo na cabeça com a sua espada longa. Rave deslizou agilmente pelo chão, num golpe certeiro sobre as articulações das pernas do cavalo. O grande animal tombou sem forças jogando o seu dono violentamente contra o chão.
- Um lorde de pouca honra pelos vistos. Agora lutas justamente? Ou vais chamar os teus soldados para te salvarem?
Malcom trespassou brutalmente o seu cavalo moribundo e avançou em fúria sobre Rave, começou a distribuir golpes elegantes e fortíssimos, Rave desvia-se agilmente da fúria do filho de Vallars. O exército estava suspenso observando-os impacientemente. Aproveitando uma falha do lorde, Rave atinge-o violentamente com uma cotovelada nos lábios que começam a jorrar sangue de imediato. Malcom coloca a mão à boca, intensificando ainda mais à sua fúria, apontou um golpe frontal com toda a sua força. Rave contornou aquele ataque rodopiando o seu corpo pelo corpo do cavaleiro como que partilhassem uma dança, deslizou a sua espada atravessando o corpo de Malcom, arrancando sem misericórdia a sua vida. O corpo caiu tombado sobre o chão. Rave estendeu o seu olhar sobre o outro lado do campo a longos metros de si, os sobreviventes alcançavam a floresta e uma muralha de fogo separava-os dos soldados de Vallars. Estava orgulhoso do seu pupilo, enfrentava agora o seu destino em paz, cercado por milhares de guerreiros aguardando que a sua vida lhe fosse tirada.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Lendas de Guerra - A unificação dos Reinos - Capítulo IX

- Capítulo IX –



Campos de Idian, fronteira de Jak, duas semanas depois…
O extenso acampamento do exército de Vallars estendia-se pelos largos campos onde as planícies terminavam. Os enormes bosques que os observavam acima da colina transpareciam um aspecto inquisidor, de certa forma muito mais assustadores que os rebeldes que procuravam. Malcon não tinha demonstrado pressa até ao momento. Tinham-se instalado o mais comodamente possível. Começavam a levantar barracas de madeira dando a ideia de quem teria vindo para ficar. Ter tempo para planear a sua estratégia não era propriamente o incentivo que Rave buscava, quanto mais os seus soldados reparavam naquele enorme exército que se formava pouco a pouco, cada vez mais a coragem se dispersava entre eles. Malcom aguardava que o povo de Jak fosse até ele e poupasse-o de entrar pelos terrenos astutos dos bosques, e cada minuto que passava a sua defesa ia crescendo. Ele estava a preparar-se para uma guerra não uma batalha, as construções destinavam-se a ataques futuros a Hazindor e Kombalin. e a cada minuto que Jak lhes concedia mais se aproximavam desse plano. Todos estes pensamentos giravam na mente de Rave. Teria conseguido mais cento e cinquenta soldados naquele compasso de espera e os selvagens de Kombalin não apareciam no horizonte como prometido. Era tempo de agir.
Quando o sol se estendeu no seu ponto mais alto, a frente de Jak emergiu das sombras dos bosques. Vallars começou a preparar-se lentamente sem qualquer preocupação. Rave tentava incutir a máxima disciplina que podia, havia alguns homens de guerra entre ele que o ajudavam a atingir esse fim. Alexis permanecia do seu lado, com uma vestimenta que lhe ficava larga, tinha o corpo de um rapaz, não faziam armaduras para rapazes da sua idade. Parecia nervoso, a ansiedade teria o deixado com enjoos, estava pálido mas queria ocultar tudo isso a Rave que o afastaria de imediato se denotasse qualquer sinal de fraqueza. Então o silêncio terminou com o grito de guerra do outro lado do campo quando um soldado de Jak regressava após falar com o representante de Vallars.
- O que foi que eles propuseram? – Questionou Rave embora já soubesse a resposta.
- A rendição total, um juramento de fidelidade ao rei e a incorporação no exército de Vallars. Em troco seriamos todos poupados.
- O que ele achou dos nossos termos?
- Riu-se e cuspiu no chão. Disse que seríamos queimados juntamente com os bosques.
- Então temos guerra!
- Eu não vesti esta roupa ridícula para nada! – Comenta Alexis num ar revoltoso.
- Se todos partilhassem do teu espírito o Malcom iria ter sérios motivos com que se preocupar. – Virando-se face ao exército que aguardava as ordens Rave pronunciou-se em voz alta.
- Vocês não são mais lavradores, pastores, carpinteiros, homens ou mulheres. Hoje somos todos soldados, não lutamos por honra, glória ou poder, Lutamos pelos nossos filhos, pelos nossos pais, pelos nossos irmãos e irmãs. Lutamos pela nossa terra, lutamos pelo nosso futuro, que neste dia Vallars possa testemunhar a coragem de Jak.
Todos assentiram em gritos de concordância. Do outro lado do campo o exército de Vallars marchava em passo lento e ordeiro. Os longos escudos desenhavam uma muralha de ferro impenetrável tal como Rave teria previsto. Os soldados empunhavam lanças compridas empunhadas ao céu.
Rave gritou a ordem de avanço, Alexis respirou fundo e quando abriu os olhos, a ansiedade e o pavor tinham-se transformado numa extenuante adrenalina que fluía sobre o seu sangue fazendo o seu coração pulsar aceleradamente. Controlando-se respirou fundo e mentalizou-se. – Eu nasci para isto. – Desembainhou as suas espadas e seguiu o seu mentor para aquele inferno de homens de ferro.