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segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Tempo - Feliz 2013

 
Tempo,
Se existe algo inevitável, esse algo é o tempo,
Tem o poder de esquecer, de transformar,
De transportar, de sonhar, de recordar,
Até que invevitavelmente esse mesmo tempo
Deixe de nos pertencer, mantendo-nos vivos apenas,
Na memória dos que permanecem presos ao tempo que lhes é dado.
Esta é a força do tempo, e o poder que ele impõe na única oportunidade que nos dá.
Que saibamos aproveitar cada segundo, compensar em dobro cada momento desperdiçado.
Que possamos recordar os anos memoráveis, os que realmente importam,
Que de uma forma arrebatadora alteraram o curso da nossa história.
Que possamos sempre respeitar esse tempo, amar enquanto temos tempo,
Perdoar enquanto temos tempo e acreditar sempre no tempo que temos.

Este ano será arquivado dentre de poucas horas,
A chave da sua porta que poderia eventualmente mudar o nosso passado nãos nos pertence mais.
Mas neste ano que irá começar, todas as portas estão abertas.
E todos os sonhos estão vivos.

Feliz 2013, saúde no corpo e na mente, o demais sempre virá por acréscimo!
Joel Flor

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Em busca do horizonte Azul - Parte II

O animal aproximava-se lentamente, movia-se sem querer passar despercebido, descontraído e de focinho levantado. Talvez desse a sua presa por vencida pensou o homem que permaneceu imóvel. Estava fraco, com ele também a sua capacidade de reagir. A pouco mais de cinco metros o lobo susteve o passo e deitou-se confortavelmente sobre a areia, como um viajante que alcança o seu destino, repousando a sua cabeça sobre as patas. O homem permaneceu imóvel e atónito durante alguns segundos, até que se sentou sobre o chão deambulando entre o cansaço e o delírio.
                - Provavelmente se sente tão só e perdido quanto eu! – Indagou ele…
                O lobo permanecia tranquilo em repouso ignorando os delírios do seu anfitrião. Aquele era o seu reino de cinzas, ele, estava só de passagem.
                - São criaturas fantásticas os lobos, dizem… Diziam, que seguiam as suas presas durante dias por quilómetros de distância, no entanto nunca ouvi de um que se aproximasse tanto apenas pela companhia. O mundo está mais silencioso é verdade. Até a natureza transformou os seus costumes.
Estou intrigado, como é que sobreviveste? Há dias que não vejo homem ou animal, ou poça de água que sacie um miserável inseto. A grande guerra deu mesmo cabo deste mundo.
                O animal bocejava entediado recostando-se novamente por entre as patas…
                - Perdoa-me, não tenho com quem conversar há algum tempo. As poucas pessoas com quem cruzei na estrada estavam loucas, nada mais do que mortos ambulantes. Talvez esteja lentamente a seguir o mesmo rumo. Tenho o estômago dolorido de tantos dias sem comer, se estás à espera que eu morra para fazeres o banquete, és capaz de ficar desiludido.
                O homem moveu-se dolorosamente, juntando, folhas secas, restos de arbustos queimados e alguns pedaços de madeira ressequida. Amontoou-os e incendiou num fogo brando, regozijando-se confortavelmente na sua criação.
                - Isto vai manter-nos quentes ao longo da noite. Até amanhã! A menos que decidas comer-me durante a noite.
                Deitou-se por entre os seus trapos sem qualquer temor, o conforto do fogo abraçou-o, consolando as tristezas e carregando-o a um sono profundo. Viajou por entre tempos esquecidos, o sol ainda brilhava por entre as persianas da sua janela. O céu tinha um tom laranja, sobre os contornos do sol nascente. Sentia o calor, não do sol mas de um corpo. Aquele olhar meigo fixava-o, por entre aquele rosto pintado à mão. Uma memória comum a qualquer ser humano que na ignorância amaldiçoe o seu destino pensou. No entanto naquele lugar deserto onde todos os sonhos arderam, as suas memórias eram o mais próximo do paraíso que conseguia estar. Eram o verdadeiro alimento da sua alma.
 
(Joel Flor)

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

O Destino nas asas de uma borboleta


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


 
Estranha sensação,
Quando seguramos os nossos sonhos
Na palma da nossa mão,
Como uma Borboleta que bate as suas asas em camara lenta,
Vulnerável, cativa, como se escutasse o pulsar do nosso coração
Hipnotizada pelo som da nossa vida, do nosso ardente desejo.
Estranho momento,
Em que tudo que precisávamos fazer
Era apenas fechar os nossos dedos e não deixá-la fugir
Como um instinto quase irracional, mas lógico e sensato.
E no entanto os dedos permanecem imóveis.
Os sonhos permanecem tão perto por alguns momentos
Sentimos a sua força, a sua essência a sua glória,
Mas vemo-los afastarem-se lentamente, dolorosamente
Com o vento que os arrasta impiedosamente de volta à sua ilusão.
Deixando a dúvida de que alguma vez tivessem existido.

 
A felicidade não está num lugar distante, num futuro incerto,
Na maior conquista, no pior sacrifício.
Está na próxima esquina, na próxima pessoa, no próximo momento.
Basta-nos acreditar.
 

(Joel Flor)

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

O som da vida - Parte I

            No ápice da montanha de gelo um sol morno se erguia por cima daquele mundo frio e silencioso, Os seus finos raios recortavam em camadas de luz os montes que se estendiam por entre o gelo até aos confins da terra.
Suspiros e murmúrios quase extintos ecoavam por entre o vento contando histórias de passados, sonhos que produziram lembranças num momento sublime que os meros mortais conhecem como vida.
O seu espírito vagueava sobre aquela paisagem sem compreender a sua natureza a sua existência, desconhecia o seu nome o seu princípio e o seu fim, sabia de certa forma que o seu corpo estava morto, não conseguia produzir qualquer som mas meditava num vazio, não sentia tristeza ou alegria ou qualquer emoção humana. Tentava recuperar qualquer lembrança de uma existência no entanto todos o dias lhe era dado a conhecer somente a sua solidão.
            Sabia de uma forma incompreensível que a determinado momento por um indefinido tempo teria sido alguém, teria vivido outra vida. A sua natureza era sublime, perfeita, mas o seu desconhecimento de todas as coisas e a sua solidão sobre aquele universo levavam-no a desejar a simplicidade de uma vida sujeita a dores e tormentos num mundo caótico em constante movimento.
            Então desejou, desejou de uma forma tão poderosa ser alguém, sentir, tocar, correr descalço sobre a terra húmida, sentir o toque da chuva sobre a pele, o sopro do vento a agitar os seus cabelos que, o universo atendeu ao seu pedido. Sentiu-se arrebatar como que aspirado às profundezas da terra e num breve instante despertou, como se há muito tivesse adormecido.
            Estava deitado sobre capim, sentia calor, ao fundo escutava vozes compulsivas e incompreensíveis de crianças que expressavam as suas naturezas alegres e rebeldes. O som parecia estranho mas ao mesmo tempo natural, quase óbvio. Levantou-se lentamente observando as suas mãos finas dedos compridos e delicados, correu-os pelo seu rosto. O toque era suave e transmitia uma sensação de conforto. As pernas balançavam como se nunca tivessem antes sido usadas. Cabelos loiros voavam de uma forma rebelde diante dos seus olhos. Caminhou com alguma dificuldade até à beira de um rio, as águas estavam tranquilas e transmitiam nitidamente a imagem do seu reflexo. Ele percebeu que na verdade era “Ela”, uma mulher bela, elegante de traços finos e esbeltos estendia-se à sua frente, desconhecia as suas vestes que pareciam apropriadas e desconhecia a sua imagem, quase certa de que em outra vida nunca teria sido a sua.
            Caminhou lentamente por entre as ervas molhadas que abraçavam o rio, observava agora as crianças de perto que a ignoravam por completo, perdidas nos seus afazeres, ausentes do complexo mundo exterior dos adultos.
Um homem observava-a de forma curiosa, apercebeu-se nitidamente da diferença entre géneros e das suas atrações, reconheceu a sua própria beleza e o efeito que exterior que produzia aos demais. Estava completamente perdida no tempo e no espaço e até que a natureza do seu retorno se revelasse teria de permanecer discreta, tentando ocultar o efeito da sua aparência enquanto desvendava o puzzle da sua existência.
Tentou afastar-se do contacto humano caminhou durante longas horas por campos, estradas, vilas, no entanto apenas se conseguiu sentir invisível entre as multidões das cidades maiores, onde todos eram estranhos entre eles.
Uma coluna de prédios estendia-se pela avenida onde os carros circulavam em dois sentidos, no passeio centenas, talvez milhares de pessoas caminhavam despercebidas de si mesmas e do mundo. Aconchegou-se num banco de costas para um pequeno jardim e voltada para a avenida. Com um capuz cobria o seu rosto ocultando os longos cabelos entre o blusão que trazia vestido. Tentava construir informação coerente, mas os seus fundamentos não tinham base. A sua história não tinha um ponto de partida e dos dois mundos que conhecia teria dúvidas de qual seria verdadeiramente o real.
Foi então que a voz de um homem que surgiu do nada sentado do seu lado se pronunciou…
- É impressionante não é?
- Desculpe? – A sua voz intrigou-lhe mais do que a pergunta que lhe dirigia o estranho, tocou lentamente nos seus lábios como se pudesse segurar as palavras com os dedos. Queria comunicar mas os argumentos não existiam.
- Refiro-me ao modo como circulam, perdidos em rotinas curtas obcecados por projetos que nunca viram a existir, numa luta constante contra a incerteza de um tempo, o tempo que lhes é concedido neste mundo.
Ela soube naquele momento que a aquele estranho possuía todas as respostas, que de certa forma também ele era parte de algo que transcendia a vida. Queria interroga-lo com centenas de perguntas mas a sua mente não as produzia. Foi então que se focou na questão principal e prosseguiu…
- O que sou eu?
- Foste em tempos, noutros tempos um deles.
- E agora?
- Não me perguntes a mim, foste tu que questionaste a tua origem, rejeitaste a tua natureza por uma segunda oportunidade.
- Isso acontece com frequência, existem mais casos?
- Apenas com os que não estão em paz com eles próprios. Aqueles que deixaram assuntos inacabados entre os mortais. Ou os que precisam se redimir dos seus erros, e corrigir os seus passos.
- O que devo eu fazer?
- Deves aproveitar o tempo que te foi dado. Em breve irás retornar.
- Quanto tempo tenho?
- Muito pouco!
- Como é que sabes tudo isto? Quem és tu?
- Sou alguém que observou muitas gerações, que conhece a natureza humana, as suas virtudes e as suas fraquezas. O resultado da sua imaturidade e por outro lado a beleza da sua devoção à vida, o poder dos seus sonhos.
- Não sei por onde começar!
- Segue o som da música.
- Qual som?
Olhou para aquela figura mas a mesma já lá não estava. Tinha-se evaporado. Confusa, começou lentamente a escutar um coro que cantava vigorosamente um canto. Levantou-se e seguiu o som.
Estreitou-se por uma ruela estreita e esguia, cruzou-se entre alguns olhares de residentes locais que estranhavam a sua presença até que estacou junto de um enorme portão em arco que estava aberto, de dentro ouvia-se um grupo de mulheres que cantava de uma forma virtuosa um canto religioso. Enquanto se apoderava daquele som que estremecia aquela sua natureza sentiu uma mão sobre o seu ombro. Voltando-se uma mulher de cor, de meia-idade sorria-lhe.
- Entra criança, vamos servir o almoço.
Denotou que estava já por alguns momentos com uma certa má disposição, que algo a incomodava, percebeu que não se alimentava a horas e o convite que a enfeitiçava com o perfume do guisado fez com que cedesse sem questionar.
Teria cerca de trinta pessoas circulando por aquela enorme casa. Ninguém a observava como uma estranha. Por outro lado, eram muito simpáticos e acolhedores. A senhora que a recebeu chamava-se Amélia, alguns minutos depois sentou-se do seu lado sorrindo de uma forma que certas pessoas sorriem, tá nas suas naturezas serem o que são e mesmo os piores trajetos que a vida por vezes impõe, não consegue mudar a natureza que as faz sorrir quando por vezes querem chorar.
- Minha criança! Pareces perdida, queres falar sobre isso?
- Eu acredito que todos temos um propósito no mundo, um motivo para estarmos aqui, mas não consigo encontrar o meu!
- Por vezes tentamos forçar o raciocínio, quando todas as respostas estão no coração. És jovem, não devias encontrar propósitos. Tens de viver somente, a vida e os propósitos hão de se revelar com o tempo. No tempo certo.
- Não estou certa do tempo que tenho!
- Ninguém está! O segredo está em viver e deixar o tempo correr!
- Sim mas no meu caso…
Susteve as suas palavras, não sabia até que ponto a sua história ou a ausência de uma poderia parecer estranha…
- Porque não voltas para casa? Pelo teu aspeto não pareces alguém que ande pela estrada. Deves ter alguém desesperado à tua procura.
- Eu não me recordo de nada! Como é que eu posso saber se alguém me procura e de onde venho?
- É simples, tens uma esquadra de polícia a dois quarteirões daqui. Se foste dada como desaparecida deverão ter um registo.
Assentiu em concordância e levantou-se lentamente…
- Obrigado pela sua hospitalidade, vou tentar descobrir alguma coisa.
Ela abraçou a Amélia sentindo um certo conforto naquele abraço, o contacto humano era um estranho despertar de emoções. Afastou-se lentamente acenando-lhe.
Contornou as pequenas ruelas saindo novamente na avenida principal, existiam dois mundos dentro daquela cidade, aquele pequeno subúrbio e aquela estrada recheada de montras, prédios, cartazes e pessoas, centenas de pessoas elegantes que circulavam seguindo as suas rotinas. A esquadra estava junto a uma esquina bem visível. Aproximou-se timidamente, cruzou-se com dois agentes que passaram por ela despercebidos. Alguns metros mais a frente outro agente a observava curioso, continuou passando por ele e entrou dentro do edifico. Várias pessoas trabalhavam entre papéis, telefones e computadores, na maioria fardados, outros pareciam civis. Dirigiu-se a um enorme balcão, do outro lado um agente jovem sorriu-lhe.
- Precisa de ajuda menina?
- Sim… Queria tentar descobrir se existe alguém a minha procura. Perdi a memória. Não me recordo nem do meu nome.
Intrigado e desvanecendo lentamente o sorriso o agente acompanhou-a a um corredor onde pediu-lhe que aguardasse. Alguns minutos passados foi encaminhada para outro agente, um homem dos seus cinquenta anos, sentou-se junto a uma secretária. Entre vários papéis tinha o retrato do agente com a esposa e duas filhas, a imagem tocou-a, mas logo retomou a sua atenção.
- Já procuraste nas tuas roupas se tens algum documento, algum contacto?
- Os bolsos estão vazios.
- Muito bem, eu vou tirar-te as impressões digitais, uma foto de rosto e outra de perfil. Se quiseres um café quente podes usar aquela máquina, isto vai demorar um pouco vou correr todas as imagens de pessoas desaparecidas nas últimas 48 horas, parece fácil mas infelizmente são mais do que imaginas. Pode ser que tenhamos sorte, e entretanto vou emitir um ficheiro com os teus dados e partilhar com as outras esquadras. Há de se conseguir alguma coisa. Sempre se consegue, tem é de se ter paciência.
- Obrigado.
E assim esperou, esperou e adormeceu estendida naquele banco desconfortável até que as dores quebrassem o sono contornando a embriaguez do cansaço. O agente de nome Carlos estava de pé diante de si, lá fora o sol tinha-se posto dando lugar a uma noite fria e gélida. A falta de conforto parecia a melhor alternativa que tinha perante a escuridão das ruas agora um pouco mais desertas.
- Lamento, verifiquei todos os casos atuais de desaparecimento nas últimas 72 horas, não existe ninguém à tua procura. São agora 22 horas tenho de ir embora, suponho que não tenhas onde ficar certo?
- Suponho que não.
- Tem uma pensão do outro lado da rua, se quiseres posso-te alojar lá e retomamos amanhã cedo. Se te sentires animada, podes sempre passar aqui a noite num dos computadores, vendo casos mais antigos. Vão andar alguns agentes por aí qualquer coisa que precises, podes pedir-lhes.
- Não acredito que consiga dormir com tanta coisa em que pensar, fico aqui.
- Muito bem, se não tiveres sorte pode ser que amanhã já tenhamos notícias.
Assentiu com um leve sorriso, tinha tido sorte com as pessoas que cruzaram o seu caminho nas últimas horas, já era algo de valor. Pesquisou vários casos sem sucesso, ao fim de quarenta minutos os olhos estavam cansados e resolveu sair um pouco. Mergulhou naquela noite escura e fria. As respostas que precisava, a busca pela verdade, ninguém desde mundo lhe podia dar.
Como se alguém escutasse a voz do seu coração uma criança que estava sentada no passeio envolta em trapos dos seus doze anos de idade dirigiu-lhe a voz.
- Os mistérios do mundo são tão pequenos quando o ser humano se debruça sobre os mistérios da sua alma, da sua própria existência. No entanto contra todas as possibilidades sem qualquer fundamento ele insiste na procura da verdade.
- Não é o certo? Buscarmos sempre a verdade?
- A verdade sem conhecimento e sabedoria é apenas uma ideia. Pode ser manipulada e transformada segundo intentos, no entanto aquele que conhece a verdade e caminha na sua luz, esse sim desvenda todos os segredos.
- Quem és tu? Para além de alguém que conhece várias gerações humanas e o demais que não me recordo.
- A humanidade só me conhece no fim da sua jornada, alguns tendem a chamar-me de morte. Eu considero uma palavra forte e negativa. Não sou eu que tiro a vida, apenas aguardo por todos quando a mesma chega ao fim, sou um guia, num novo mundo, numa nova vida.
Não vais encontrar ninguém à tua procura porque já ninguém te espera encontrar com vida. Como aguardei muitos, um dia vim por ti também, uma alma destroçada, cheia de remorsos.
- Porque motivo não me recordo de nada?
- Quanto vieste ter comigo pediste que te apagasse o passado, assim o fiz e mesmo sem o registo de uma vida, a tua alma quis regressar.
- Se eu recuperar a memória poderei saber o que busco?
- Poderás arrepender-te também de buscar seja o que for.
- É o único caminho!
Aquela criança suspirou durante breves momentos, mostrando o primeiro sinal de incerteza sobre o que iria fazer…
- Muito bem, fecha os teus olhos!
Como uma luz que clareou a sua mente a memória retornou, e ela caiu de joelhos em pranto e desespero perante o terror da verdade…


 
Continua…


(Joel Flor)
 

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Jornada



Deleita silenciosamente os seus ossos cansados no velho cadeirão da sala. A lareira que teria levado algumas horas para alcançar o triunfo do fogo, esbanjava agora o consolo do seu calor como um abraço afável onde todos os percalços do dia se dissolvem graciosamente sobre as chamas.
O seu corpo permanecia imóvel, o único sinal de vida que expressava eram os olhos que viajam pelos cantos da casa, pelas recordações em cima das prateleiras, por entre livros, móveis, fotografias de rostos que permaneciam apenas por entre o perfume amargo da saudade. O silêncio trazia de volta as recordações e como ela detestava aquele silêncio. Poderia um vendedor de TV por cabo entrar de rompante mesmo que o velho televisor avariado há oito anos encurtasse a sua visita. Poderia um parente distante aparecer junto à porta com uma mala entre os dedos. Podia na pior das hipóteses cair uma tempestade, talvez o som da chuva e do trovão a consolassem com a sua melodia, mas até a brisa da tarde descansava no seu recanto.
Esse era o problema do silêncio, quando ele absorve a nossa vida levando tudo e todos, o mundo e a natureza acabam também por se esquecer de nós, até que as nossas memórias morram connosco e a nossa história se desfaça entre as cinzas como se nunca tivesse existido. “Cinzas ao vento”, este era um dos inúmeros pensamentos que a perturbavam.
Na história da sua vida, os três filhos teriam partido para a guerra e não voltaram, o seu marido teria adormecido para sempre na sua cama, num sono profundo e pacífico. Um homem de consciência tranquila sobre o legado que teria dado aos filhos e da história que teria deixado para trás.
Parte dela teria morrido com eles e a pessoa que ela foi em tempos era apenas uma sombra. A casa que em tempos era inundada pelos sorrisos das crianças que cresciam aos seus pés. Dos churrascos de domingo dos amigos que despareceram com o tempo. Essa melodia graciosa e acolhedora, o som da vida estava presente naqueles retratos, ela permanecia como a última nota de uma música. Como a última frase de um romance com um final óbvio.
O som de um veículo surge no horizonte, o seu vulto movimenta-se por entre as persianas de madeira contornando a luz do por do sol quase extinto. O silêncio è rompido pelo som das rodas que se sustém junto à sua porta, mantendo-se apenas o som de um motor que trabalhava como um relógio.
Ela teria tido aquele mesmo sonho vezes sem conta, que um veículo trouxesse as suas crianças de volta para os seus braços, até que o sonho morreu com o fim da esperança.
Levantou-se dolorosamente sobre os seus ossos cansados apoiando-se sobre as suas pernas. Escutou vozes do lado de fora. O ronco do motor se afastou lentamente à medida que um homem batia à porta. Aproximou-se exausta tentando reconhecer os traços que se desenhavam por entre as cortinas da porta. Sem pensamentos prévios foi recebida pelo sorriso do seu filho mais novo, estava envelhecido, teria permanecido durante dez anos como prisioneiro de guerra. Acolheu-a nos seus braços durante alguns minutos até que entraram os dois e conversaram durante horas.
Era tempo de escrever uma nova história, de seguir um novo percurso. Existem coisas na nossa vida que parecem incontornáveis, fins que parecem previsíveis e sonhos que parecem maldições, mas num universo em constante movimento a única certeza que é certa, é não termos certeza de nada. Que devemos acreditar até ao último segundo. Que devemos manter sempre acesa, a luz na escuridão.
 
 
 
(Joel Flor)

sábado, 23 de junho de 2012

A chuva das Memórias

                O silêncio é rompido pelo ressonar do trovão, antecipando-se ligeiramente ao leve tilintar das gotas de água que levantavam os primeiros grãos de poeira da terra. Aconchegava-se na sua caixa de papelão tentando combater o frio húmido que o vento carregava, mas de certa forma enfeitiçava-se lentamente sobre o poder do som da natureza, por aquela melodia melancólica. Os sons era tudo o que possuía, os infortúnios da vida teriam num passado distante lhe levado a visão deixando-o para sempre na escuridão. A lembrança das cores das formas era nada mais que um retrato desfigurado de uma outra vida.
                Por aquela altura a densidade do som da chuva teria absorvido todos os outros sons, a cidade permanecia no silêncio, assombrado pela força da natureza que chorava sobre o mundo dos homens.
                - Vivaldi desceu das nuvens para tocar só para mim, que honra! – Comenta ele sobre uma gargalhada para o seu cachorro sarnento e moribundo.
                O sorriso desvaneceu-lhe lentamente, e a tristeza o atingiu profundamente como os relâmpagos que desciam das nuvens. Chorou incansavelmente como a muito não chorava. Desejou por momentos que a loucura o tomasse, que perdesse noção de quem era, do que havia sido e do que o tempo lhe teria roubado.
                O som de passos chapinhando sobre a água despertou subitamente a sua atenção. Pelos passos das pessoas ele avaliava o seu carácter, a sua constituição física e até o peso da sua carteira.
                Era um homem, tinha passos firmes e despreocupados, não lentos mas tão pouco apressados, os sapatos cheiravam a novos e de boa qualidade, no entanto o que não esperava era a supressão daquele som quando o homem se susteve diante de si em silêncio.
                Assustado e incrédulo temeu por momentos pela sua vida, mas rapidamente recordou-se que a sua vida nada valia, e desejou logo de seguida que a mesma tivesse em risco a fim de pôr um termo ao seu sofrimento.
                - Porque choras? – Questionou aquele homem de presença firme. A sua voz transmitia segurança, compaixão e uma certeza de que não estaria ali por acaso.
                - Choro porque não tenho motivos para rir, como deves certamente observar.
                - Entendo! A vida consegue ser cruel por vezes, nas escolhas que nunca tivemos, nos sonhos que nunca vivemos e nas cicatrizes que nunca irão sarar.
                Seguiram-se alguns segundos de silêncio. O cego tentava perceber por qual motivo estaria ali aquele homem, com certeza não era apenas para conversar. No entanto sentia vergonha de questioná-lo e assim aguardou que o seu propósito se revelasse.
                - A chuva também me desperta várias memórias, apenas as tristes.
                - Parece que temos algo em comum então.
                O cego calculou que por aquele momento o estranho homem estivesse-lhe sorrindo e retribuiu-lhe da mesma forma. Teriam passado muitos anos desde a última vez que lhe tinham dado um pouco de atenção, sentir uma presença por perto era mais agradável do que recordava.
                - Gostava de te contar uma história, se tiveres interessado em ouvir. – Comentou o estranho.
                - Tenho todo o tempo do mundo.
                - Houve em tempos uma tempestade como esta. O dia tinha amanhecido com o céu limpo mas de um momento para outro as nuvens começaram a formar-se. Um homem muito rico afastou-se da costa com alguns amigos num barco turístico. A tempestade surgiu do nada, perdendo o controlo do barco o mesmo se encalhou sobre as rochas provocando-lhe vários estragos. Numa terrível luta contra a natureza o barco começou-se a afundar irremediavelmente.
               Um pescador que regressava de um dia trabalho surpreendido também pela tempestade, no entanto mais preparado para ultrapassá-la, avistou os destroços e escutou ao longe o grito das pessoas.
               Lutando contra todas as possibilidades ele mergulhou sobre mar, nadou com todas as forças e alcançou um local onde pedaços de madeira e restos do barco boiavam dançando por entre as ondas rebeldes. Recuperou o fôlego e entregou-se ao fundo do mar. Alguns corpos emergiam do abismo sem vida, contornou-os até que alcançou o barco nas profundezas do mar. Por entre os vidros de um compartimento observou um pequeno espaço onde uma criança recém-nascida boiava deitada num berço. A água entrava rapidamente o que lhe dava pouco tempo. Partiu um vidro que se rachou, a força da pressão estilhaçou-o em vários sentidos atingindo-o em várias partes do corpo, nomeadamente os olhos.
                Qualquer homem vulgar teria desistido por aquela altura, teria lutado para salvar a sua vida, mas aquele homem persistiu e momentos mais tarde emergiu sobre as ondas com a criança nos braços.
                Foi a única vida que conseguiu salvar, chorou amargamente por ter fracassado para com os outros quando foi encontrado pela polícia marítima.
                Ao fim de três dias sobre cuidados intensivos num hospital aquele homem veio a perder a vista completamente.
                A sua história nunca foi contada, nunca passou nas notícias, a única referência que se soube foi da ilustre família que perdeu a vida em alto mar. As pessoas já não se interessam por heróis, já não acreditam em contos de fada. Preferem os mexericos, os pobres da sociedade, a realidade cruel deste mundo decadente.
                - Se nunca foi contada como é que soubeste?
                - Porque graças a ti, hoje estou vivo!
                O cego permaneceu em silêncio atónito sem palavras, deixando que o estranho continuasse.
                - Procurei-te por todo o mundo, tenho uma dívida por pagar, e na minha família sempre pagamos as nossas dívidas.
                - Não me deves nada rapaz. Vive apenas e goza essa vida para que o meu sacrifício não tenha sido em vão.
                - Se o fizesse não seria muito diferente de todos os outros que se esqueceram de ti.
                - Não tem nada que me possas dar que eventualmente mude algo na minha vida.
                - Vou dar-te dois olhos novos. É uma cirurgia dispendiosa mas a minha dívida não tem preço, quando recuperares terás formação para trabalhar na minha empresa e nunca mais voltarás a dormir na rua ao som da chuva. Por mais que esse som nos toque na alma e nos consuma na sua magia.
                - Não sei o que dizer!
                - Não precisas de o fazer. A vida ensinou-me muito, tal como a nunca me arrepender de todo o bem que fizer, mesmo que o mundo não o reconheça. A isso, chama-se ser nobre. Um dia tu salvaste a minha vida. Deixa que salve a tua hoje.
                A chuva parou lentamente, vestígios do sol despiam a escuridão com os seus raios de luz, o estranho sentou-se lado a lado com o cego observando o arco-íris que surgia no horizonte.
                - Como é que ele é... O nascer do sol?
                - Hum… É magnífico! Simplesmente magnífico.
                O dia amanheceu sobre as ruas molhadas e desertas, sobre o palco de dois desconhecidos. Um contemplava-o com o olhar, outro com o coração.

(Joel Flor)

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

O Blog "Joel Flor"

O Blog "Joel Flor" apesar de estar limitado apenas a um nome e ao trabalho de um jovem escritor desconhecido, tem vindo a crescer em visitas de um modo consideravel ao longo dos meses.
Agradeço a todos que tem dado vida a este espaço, pelo interesse constante que manifestam, pelas suas presenças e pela apreciação do meu trabalho.
Sintam-se sempre livres em deixar opiniões, sugestões e todo o tipo mensagens, porque independentemente do que faço, é para todos vós que escrevo.
Cumprimentos do escritor e amigo Joel Flor.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Conto "O Portador dos Sonhos"

E se pudesse-mos segurar o sol com as mãos, ocultar a sua luz do mundo. Absorver a sua vida e viver para sempre, tal feito traria com certeza também os seus maus efeitos, seriamos diferente de todos, seriamos únicos, no entanto ser único significa também estar só, e tudo isto significa algo que nos abrange a todos, a vida de um homem é e sempre será incompleta, buscar algo mais é um elemento da nossa natureza e mesmo que tenhamos o mundo inteiro, seremos sempre insatisfeitos.
Um pai de família pobre, pode querer o suficiente para por a comida na mesa, um pai de família estável quer o suficiente para dar um futuro aos seus filhos, apesar de todos temos um futuro e ele não estar nas mãos de ninguém. Um filho pode destruir num dia o que uma geração construiu e por fim um homem rico quer e sempre irá querer ter mais ainda.
Esta era uma das certezas que Gareth um simples pescador, teria aprendido na sua jornada pelo mundo, no seu entendimento sobre a vida que lhe era concedida, até o dia em que caminhando junto à praia surgiu um viajante, que seria tudo menos um homem comum, carregava com ele todos os segredos dos homens e o poder de mudar o mundo e o destino de cada um.

Gareth arrastava a rede para junto da areia, teria sido mais um dia de pesca fraco, perguntava a si mesmo todos os dias: Para onde estariam indo os peixes? Parecia que o mundo estava a morrer de dia para dia, e com ele toda a sua natureza se consumia e se entregava ao esquecimento. Foi meditando nos seus problemas que cresciam com cada sol que se levantava a cada manhã, que avistou o estranho homem, estranho porque de uma forma estranha não se enquadrava no cenário. O homem veio caminhando na sua direcção até que parou junto ao seu barco observando-o em silêncio.
Sentindo uma sensação de incomodo Gareth saiu ao seu encontro…
- Posso ajudá-lo em alguma coisa?
- Procuro uma casa para descansar a noite, e preciso comer alguma coisa também.
- Lamento mas não existem pensões nas redondezas, talvez se continuar a caminhar pela praia ao fim do dia chegue à cidade mais próxima e encontre algo por lá.
O homem agradeceu por gestos e continuou a sua peregrinação. Naquelas terras era costume ser hospitaleiro e oferecer a casa mesmo a estranhos. Se fosse uma família, um casal ou até mesmo alguém com outra aparência ter-lhe-ia oferecido tal como manda a tradição, o que seria certamente o que o homem esperava que ele fizesse, no entanto a sua aparência estranha, o seu olhar, modo de caminhar, tudo naquele homem o incitava a manda-lo seguir a costa. Todavia lentamente a consciência começava a pesar, teria aprendido em vida a não julgar pela aparência, a dar sem esperar nada em troca. Sabia que a próxima cidade estava a três dias de viagem, seriam três dias que aquele homem estaria sem comer.
Saiu então ao seu encontro, o sol parecia começar a esconder-se naquele horizonte longínquo, mas o rastro de luz que existia permitiu-lhe enxergar aquela forma caminhando como um vulto. Sem dar a sentir a sua presença o viajante ao longe parou o seu passo, voltou-se para trás e aguardou que Gareth fosse até ele. Ambos retornaram juntos até a casa de Gareth sem que uma palavra fosse dita. Dentro de uma casa de barro, havia uma lareira na qual uma mulher e três crianças se aqueciam. Usando a mesma lareira Gareth colocou sobre uma rede o peixe que lhe teria oferecido o mar. Todos observavam o estranho atentos, que sentado sobre o chão limitava-se a sorrir tranquilamente. Deram graças pelo peixe e pelo pão, e todos saciaram a sua fome. Deitaram as crianças sobre os seus leitos. Gareth e o estranho foram até ao exterior da casa e sentaram-se sobre a areia que cobria os vários hectares de terra que o olhar podia alcançar. O céu estava polvilhado de estrelas que por si iluminavam a noite ao som dos grilos e das aves noturnas que cantarolavam sons melancólicos.
- Não sei o seu nome!
Sem que desviasse o seu olhar do céu e do encantamento que a ele impunha o estranho responde a pergunta…
- Não tenho nome… No entanto os homens chamam-me de… “O portador dos Sonhos”
Gareth sorriu, no entanto foi um sorriso curto que se transformou numa afeição atónita, não esperava que homem fosse um aldrabão, ou cómico, ou sarcástico, ou que da mesma forma estranha fosse mais do que um homem. Simplesmente não esperava nada, porque nada teria sido revelado até ao momento. Então limitou a jogar o jogo, para ver onde o mesmo o levava.
- O que quer isso em concreto dizer?
- Eu busco nas pessoas a sua compaixão, a sua caridade, o seu lado humano que tem vindo a se extinguir ao longo dos tempos. Um homem que nada tem para oferecer ofereceu tudo. Isso é uma raridade pouco comum nos dias de hoje.
- Talvez seja mais uma imprudência da minha parte.
- O facto de ser imprudente apenas torna o gesto ainda mais nobre.
- De certa forma! Continuo sem saber o que procuras aqui!
- O que poderia um homem que possui a grandeza de um céu estrelado, a magnitude de um mar extenso, uma família e casa possivelmente desejar?
- Para alem de peixe no mar? Creio que não haja muito mais que precise!
- Se eu pudesse dar muito mais do que tudo isso? Se eu te pudesse dar o mundo inteiro. Continuarias a desejar somente peixe?
- O mundo inteiro não compra a felicidade de um homem e eu sou feliz, sempre fui, talvez ignorante, mas a ignorância consegue ser uma bênção quando não nos afasta do nosso rumo. A única coisa que preciso é de peixe para sustentar a minha família.
- Imagina que eu tenho um reino para te dar, milhares de servos e servas, soldados, conselheiros, cavaleiros, mais terras que o céu possa conter. Navios, ouro e todo tipo de especiarias, beber dos melhores vinhos, comer das melhores carnes. Uma vida acima de todos os teus pensamentos, para ti e a tua família. Continuarias a desejar somente peixe no mar?
O homem manteve-se em silêncio, o assunto começava a absorvê-lo, a contagiá-lo, a envenená-lo com o seu aroma, mas deteve-se a determinado momento…
- Haverá porventura maior riqueza na terra, que a felicidade e o amor de uma família?
- Talvez não. No entanto um dia, essa mesma família, tal como tu haverão de regressar ao pó da terra, por vezes quando limitamo-nos a viver em função dos outros, ao vê-los partir, parte de nós vai com eles também, e o mundo deixa de fazer sentido, e se ao invés de todas as grandezas e luxúrias da terra, eu pudesse dar-te a imortalidade, para ti e para os teus?
Aquela altura Gareth parou de pensar nas alternativas que lhe eram apontadas e fixou a sua atenção no seu convidado, na convicção com que proferia as suas palavras.
- Quem és tu?
- Já te respondi a essa pergunta!
- Sim, “O portador dos sonhos”. Mas isso é uma resposta muito vaga. Em virtude de entender a tua natureza, faço-te a mesma pergunta. Se te pudesse dar tudo, mesmo tudo, o que me pedirias?
O estranho que sorria com frequência susteve as suas emoções por breves momentos desviando o seu olhar que denunciava a sua fraqueza. Gareth retomou o assunto…
- Eu posso ser apenas um pescador, mas aprendi algo em vida, todos os desejos trazem as suas consequências, acredito que um dia a mesma pergunta foi-te colocada, e carregas o peso da tua escolha até aos dias de hoje. Eu sou um homem feliz, tenho tudo o que sempre quis, se terei de sobreviver sobre momentos difíceis, assim seja, com eles haverei sempre de aprender, porque a vida é uma escola, e a sua estrada não pode ser contornada.
O estranho sorriu olhando-o agora nos olhos, levantou-se e dirigiu-se rumo ao seu caminho, susteve o seu passo e devolveu o olhar a Gareth…
- Tens razão, tens uma família e uma vida maravilhosa Gareth, nunca traias os teus princípios, mantém-te firme a esse homem que és, e não te preocupes, o peixe vai voltar.
Seguiu a sua estrada, enquanto Gareth o via desaparecer novamente sobre a linha do horizonte, deitou-se junto das esposa e dos três filhos aconchegando-os nos seus braços. Combatendo o frio que entrava pelas brechas das janelas e das portas.
O viajante seguia a estrada de areia quando passou por um mendigo que amaldiçoava a própria vida e a sua existência. O viajante parou junto dele, observando-o e examinando-o, o mendigo calculou que iria receber alguma esmola e logo se precipitou a demonstrar um ar miserável.
- Uma esmola por favor. Estou a vários dias sem comer!
- Posso te dar tudo o que quiseres, queres apenas uma esmola?
O mendigo observou o viajante com um ar intrigado, e logo questionou-o?
- Como assim tudo?
O viajante mostrou-lhe as suas mãos, as mesmas estavam envoltas numa luz forte que iluminava a praia e a noite com uma intensidade sobrenatural, como se carregasse o sol nas mesmas, contendo a sua luz.
- Posso fazer de ti o homem mais poderoso do mundo, nunca mais terás de mendigar, todos te respeitaram, todos te serão submissos, serás senhor da terra.
- Eu quero sim, quero tudo!
O viajante colocou as mãos sobre a sua cabeça e a luz que as envolvia apoderou-se do seu corpo ampliando a sua força. Uma luz dourada cobria agora o viajante que lentamente começava se desfazendo num pó dourado que aspirava se envolvendo na neblina. Ao longe por entre um murmúrio expirou num sopro de palavras…
- O fardo não é mais meu, entrego-o a ti para que o carregues, os sonhos da humanidade serão a tua maldição.
A sua luz difundiu-se entre as estrelas do céu. Pequenas gotas de luz caiam sobre a terra. O mendigo sentia-se flutuando sobre a areia, tentava segurar as gotas com as mãos mas as mesmas desfaziam-se por entre os dedos. Caminhou até junto á agua observando o seu reflexo. O seu rosto tinha rejuvenescido trinta anos. A sua força estava jovem e virtuosa. A sua mente continha poderes que estavam ocultos a humanidade, e então correu sobre a terra em busca da sua glória, do mundo que lhe pertencia agora, em busca de todos os sonhos que o destino lhe teria roubado.
Gareth observava a sua esposa que não adormecia, permanecia sonhadora e pensativa de olhos abertos, sem que o sono os fechasse…
- Está tudo bem? – Questiona ele.
- A vida neste mundo é difícil, precisamos de tão pouco para sobreviver e mesmo assim por vezes o pouco nos é tirado. Não sei o que faremos se o peixe não voltar.
- Deixarei de ser pescador, passarei a ser caçador, ou lavrador, ou que quer que seja. O homem não pode definir a sua vida através de uma tradição, de uma paixão. A terra sempre há-de prover aquilo que nos faz falta. A vida define-se consoante a necessidade que temos, assim sobreviveremos de tempo em tempo, de geração em geração. Pois a verdadeira riqueza é estarmos vivos, e fazermos parte deste mundo. Não naquilo que temos… mas sim naquilo que somos.



Joel Flor

domingo, 27 de novembro de 2011

Reflexo de um olhar


Reflexo de um olhar

Como poderei definir o que existe,
Através desse mar cristalizado
Desse céu translúcido,
Que transmite a vida da alma,
De um despertar de sentidos,
Um transparecer de emoções
Um elo constante entre o mundo,
E o teu mundo,
Como poderei definir o reflexo desse olhar
Poderoso mas secreto
Sereno mas inquieto
Pequeno, mas onde se reflecte
O nosso universo.

(Joel Flor)

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Dois lados de um mundo




Estava distante… de ti… do mundo, perdido entre pensamentos vagos e perpétuos, tentando inconscientemente encontrar um retorno nos desígnios da vida. Subitamente os céus rugiram de uma forma impetuosa, sobre o choque das nuvens negras que cobriam a terra impondo o seu domínio sobre a escuridão.
Uma pequena brisa contornou os traços cansados do meu rosto como que me acariciando a pele pela sua passagem, com o seu toque suave e terno.
Na nostalgia do momento, na solidão que me consumia o espírito e que tentava lentamente desabrochar do seu próprio abismo, nesse momento o céu chorou.
As suas lágrimas que caiam sobre a minha pele me lavando o rosto, transformavam o mundo ao meu redor e subitamente despertei como que se tivesse caminhado num sonho profundo, num mundo distante da realidade, numa distorção da verdade. Vejo agora a guerra que me levou para longe de ti, do teu mundo, do nosso mundo. Onde as cores são vivas, onde o sol nos aquece a pele, nos conforta, onde escuto o riso das crianças pela manhã ao caminharem para a escola, nos seus pequenos passos, ambiciosos e ao mesmo tempo desprovidos de guia, de um sentido, pendentes ao amparo dos pais. Esse sonho, esse reflexo de uma memória que fere a alma, onde caminho lado a lado contigo de mãos dadas, e o mundo, esse… cabe na nossa mão.
Escuto agora o som da chuva forte, que se sobrepõe a todos os outros sons, o murmúrio dos homens que deambulam pela neblina foi ocultado pelo seu poder, pela sua magnitude, por essa natureza tão sublime que dá vida, e renova os corações com o seu canto.
Vejo-te agora claramente, o cabelo ondulado que te caí sobre os olhos com um espiral reluzente aos contornos do sol, da luz que resplandece o teu sorriso, dos teus lábios que estremecem o meu mundo pelo seu toque.
Preservo o meu nome como letras gastas, quase extintas, mas mantenho vivo esse teu perfume, a tua essência que vive dentro de mim, que me possuí e me entretece como um feitiço eterno, como uma masmorra da alma, da qual a chave, foi lançada nas profundezas da terra. Aqui… no fim do meu mundo respiro-te, e sinto-te, no toque da chuva, no sopro do vento, e na força da terra.


- Do outro lado do mundo -

Observo os meus passos na areia, esse rastro solitário, o toque morno da maré que sobe lentamente, do vento que sopra em vão, tentando alterar o rumo do mundo. Observo o despertar do sol no horizonte, aguardo que a luz te traga de volta aos meus braços. Que esse mundo cruel que te roubou de mim, te devolva num súbito gesto de misericórdia, de compaixão, de piedade. Que se sinta comovido pela nossa paixão, pelo nosso amor profundo. Que saiba esse mundo, que és a luz do meu mundo, que quando me roubou de ti, levou também o meu sol e me abarcou nessa escuridão, nesse ocultar dos sentidos. Na perplexidade de uma vida sem rumo, sem destino, sem sentido, sobrevivendo apenas da saudade, da esperança, da dolorosa memória que me visita a cada momento, a cada instante. Do sonho que momentaneamente me conduz de volta a ti, numa pequena imagem que me traz de volta esse mesmo sonho que um dia fomos, essa ilusão impossível que os homens não podem entender.
Está acima de todos nós, numa linguagem que por nós não pode ser escrita, porque por nós não foi tão pouco gerada.
Procuro o meu recanto, na solidão, no desespero e penso que vives. Imploro aos céus que sonhes como eu, que te transportes a esse reino de mil e uma cores que nos dá vida, e nos faz resplandecer na escuridão. Aguardo hoje… sempre… eternamente, por esse retorno que não pode ser negado, não pode ser esquecido, pois vives em mim e me dás vida. Nesse mundo sereno, ambicioso coberto de amor, que só existe através ti… de mim… de nós.

sábado, 15 de outubro de 2011

Mar Azul



Mar azul,
Que segredos em ti se escondem,
As ondas que encobrem as pegadas do destino
E ocultam as marcas do passado
Que palavras poderão descrever a tua grandeza
Esse mundo que te carrega e te sustém nos seus braços
O sol que reflecte em ti o seu rosto, cintilando sobre a tua imensidão
Como pérolas e diamantes
O vento que tenta te tocar como um amante perdido
Provocando as tuas ondas, fazendo-te acariciar a terra.
Deixa-me sentir a fragrância da tua natureza,
A tua presença indescritível,
Deixa-me tocar-te, sentir a tua força, a tua ira, a tua serenidade.
O som do teu canto, do teu desabrochar
Do teu encantamento sobre a força do vento
Do teu esplendor eterno.


Joel Flor

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Conto "A escolha"

O frio se instaurava pelas ruas estreitas de Lisboa como um intruso sorrateiro procurando consumir a ausência do sol, agora entregue ao seu repouso. Sofia regressava com duas amigas da noite de sexta-feira, alegres e donas do mundo. Tinham uma vida perfeita, Universidade, dinheiro dos pais, carros importados e pois claro, as sextas-feiras eram sagradas. A Carla murmurava-lhe algumas parvoíces ao ouvido quando a mesma é acometida de uma ânsia no estômago que estraga a diversão momentânea. Mais tarde entrando sorrateiramente pelas traseiras da vivenda dos pais em Cascais, joga-se com as suas roupas embebidas num o odor fétido de álcool e tabaco e desmaia num sono profundo.
Poucas horas mais tarde o sol se erguia na sua magnitude e força penetrando sobre as enormes portas de vidro, implacável sobre a sua fúria inquisidora, torturando o efeito de ressaca que despontava com uma terrível dor de cabeça. Por volta das oito horas da manhã a empregada Denise que teria sido ama pessoal de Sofia na sua infância mantendo-se depois ao serviço da família, entra no seu quarto, despindo-a e ajudando-a a chegar a um chuveiro. Alguns minutos mais tarde ela procurava novamente a Denise que a aguardava com o pequeno-almoço pronto na mesa, observando-a com, um ar preocupante.
- Não sei o que seria de mim sem ti Denise, estou de rastos. - Comenta Sofia sobre uma voz rouca.
Denise engole em seco antes de se pronunciar.
- Já tenho o resultado dos exames Sofia... deu positivo.
A jovem sustem o copo de leite que tinha entre os dedos suspenso e imóvel juntamente com o seu corpo e rosto pálido, lentamente procura uma cadeira cambaleando entre as pernas a uma altura em que gotas de leite salpicavam o chão espelhado.
- Falaste alguma coisa aos meus pais?
- Não, mas esperava que tomasses esse passo o mais breve possível.
- Acho que não conheces bem os meus pais Denise. Isto seria o fim, na minha família nunca houve uma mãe solteira aos dezoito anos. Tem de haver outra solução!
- Que solução Sofia, daqui uns meses vai se notar!
- Não é isso que eu estou a dizer.
Denise observa-a não querendo acreditar no que ela queria dizer. Aquela não era a criança que teria ajudado a criar como se fosse sua filha, talvez mais que os próprios pais, indiferentes aos seus erros.
- Eu não posso decidir por ti, mas para uma decisão dessas podes esquecer a minha ajuda. Nesse tema considera-te só porque jamais irei te apoiar.
Sofia lançava-lhe um olhar furioso, sentia-se desesperada e desamparada. O seu mundo perfeito teria desabado sobre os seus pés como um castelo de areia e ela que sempre tinha tido tudo e todos agora estava só. O pai da criança que se formava no seu ventre era um desconhecido, um jovem alto de traços esbeltos que teria conhecido numa discoteca, no entanto não recordava o seu e nome e o seu rosto desfigurava-se aos poucos na memória.
Meditando mais tarde a sós sobre a situação que se deparava, tomou um impulso de coragem ou talvez covardia e procurou uma clínica ilegal especializada em abortos, longe de casa e discreta, justificar o alto valor que iria sair da sua conta poupança era de longe o pior dos problemas, os pais eram completamente ausentes da sua vida, um casal de estranhos que partilhava a mesma casa e comunicava de um modo geral por bilhetes colados na porta de um frigorífico. Naquela tarde não foi diferente, um bilhete escrito, "Vou passar o fim-de-semana com a Carla!" resolvia o problema sem grandes questões.
Algumas horas mais tarde chegava de táxi a um condomínio fechado com umas instalações decentes que transmitiram um pouco de tranquilidade e confiança no trabalho que ia ser feito. Um assistente acompanhou-a à sala de operações onde iria decorrer a cirurgia. Tudo decorria rapidamente, sem dar tempo que pensar no que ia ao certo fazer. Tinha tomado um impulso procurando uma solução e a solução tinha ganho cor e forma em minutos. Limitava-se a pensar que após umas horas de repouso tudo voltaria a ser como antes e rapidamente esqueceria aquele dia sombrio.
Um médico sorridente e simpático entrou na sala, falava como um vendedor de seguros que tentava quebrar o desconforto do momento com piadas e comentários engraçados gerados a vapor. Apesar do à vontade em que esbanjava numa intimidade excessiva, por momento algum se identificou.
- Vai correr tudo bem, vou te injectar o soro, vais adormecer rapidamente e quando acordares já estará tudo feito, vais ter de ficar só um dia de repouso e pronto estás livre para ires à tua vida.
Sofia assentiu com a cabeça sem ter certeza de nada, dentro de si se encontrava uma pessoa aterrorizada numa guerra contra a sua própria consciência. Nunca teria tomado uma decisão tão adulta até aquele dia, e o facto de estar só desabava a sua fraca estrutura psicológica. Os milhões de pensamentos que cruzavam a sua mente afundaram-se num lago momentâneo à medida que o líquido branco do soro penetrava as suas veias sem um prévio convite, perdeu imediatamente os sentidos desmaiando num sono profundo e sereno.
Acorda subitamente deitada sobre um campo pintado de flores de todas as cores sobre um sol acolhedor e confortante, a bata branca de paciente teria sido trocada por um belo vestido branco de seda comprido até aos pés que se movimentava aos contornos do vento que suspirava como o ressonar de uma criança, os pássaros cantavam diferentes tipos de canções, melodias doces que transmitiam paz numa sintonia divina. Por entre as relvas algo se mexia sem que pudesse ser visto, não lhe provocava receio, apenas curiosidade por entre a que já se havia instaurado naquele cenário deslumbrante, poderoso e tão longe do toque humano.
A medida que aquele remoinho sobre a vegetação se aproximava de entre as relvas e flores saltou uma criança, um rapazinho de cabelos loiros e olhos esverdeados, tinha um sorriso meigo olhando-a de relance, num gesto de reconhecimento e provocação, saiu correndo novamente por entre as flores mergulhando naquele arco-íris terrestre e ao mesmo tempo divino perdendo-se entre sorrisos que se dispersavam naquela vastidão de todas as cores da natureza.
Foi então que a imagem de um homem se formou por entre flores que subitamente se envolviam num remoinho de luzes crescendo com delicadeza ganhando forma e vida. Um ser de aparência humana emergiu daquele tornado de cores pronunciando-se com uma voz que foi soando humana a cada palavra que proferia, à medida que se formava.
- Olá Sofia, que bom te ver aqui, esperei muito por este encontro. – Comenta aquele ser.
- Quem és tu? - Pergunta ela atónita.
- Hoje essa será de longe a mais importante das respostas que deves ouvir. O mundo se revelou a ti num segundo mostrando-te o terror e o medo que impõe quando te tira algo com o qual não julgamos ser capazes de viver. Mas a determinada altura todos os homens acham que chegaram ao limite daquilo que julgariam suportar, no entanto sempre nasce um novo dia que prova que estão errados. Sofrer é natural, é humano, é quase necessário no percurso de cada um. Agora as escolhas que tomamos essas sim, temos de ter cuidado com elas, pois uma escolha pode mudar o mundo, uma escolha persegue-nos até ao fim.
Um pouco confusa com toda aquela informação exposta de um modo intenso e claro, ela foge ao assunto com aquilo que lhe ocupava a mente.
- Aquela criança? Isto tudo... è irreal!
- Os sonhos são irreais, depende do ponto a que estás disposta a ir para torná-los reais.
- Um momento pode ser real, e irreal no segundo seguinte. Tudo depende das escolhas que tomamos, são elas que ditam as regras do que é e não é possível.
- Ele é o meu filho? - Questiona ela trémula e incrédula!
- Sim... poderia ter sido! Mas essa escolha, tu já tomaste. Não tens como voltar atrás.
- Porquê que isto está a me acontecer?
- Porque até ao dia de hoje foste uma pessoa desprezível, nunca pensaste em alguém para além de ti, do teu futuro dos sonhos superficiais que se desvanecem em pó, das amigas que te acompanham, mas temes revelar os teus tenebrosos segredos. Da imagem exterior que valorizas tanto. Tudo isso o tempo destrói.
- Isto è um sonho, eu não acredito nessas coisas.
- Como muitas outras pessoas nunca tiveste a necessidade de acreditar, sempre foste atrás das soluções práticas.
- Mas se eu já tomei a minha escolha, porque é que estamos aqui?
- Porque a partir do momento em que olhaste aquela criança nos olhos, sentiste a dimensão do amor de uma mãe, como por um segundo, por isso é que ela não saí da tua cabeça, pela tua capacidade de amar já te transformaste numa nova pessoa.
- Fala-me mais dessa criança. Como é que sabes que ele existe se a escolha já foi tomada?
- Porque eu não tomo escolhas, eu conheço o passado, o futuro e o presente, tudo me è revelado por isso não preciso escolher.
A tua próxima pergunta é: O que será que aconteceria se eu escolhesse ter esse filho. Irias sofrer, os teus pais te rejeitariam, irias morar num bairro degradado, sem condições mas terias a maior riqueza desse mundo.
- Deixa-me vê-lo!
Aquele ser aproximou-se dela colocou-lhe as mãos sobre a testa e subitamente o mundo se transfigurou, num segundo viu o filho crescer, ir para a escola, começar a namorar, entrar na universidade, pedir alguém em casamento e ser um homem exemplar, amado…
- Isto é o que muitas pessoas podem ser, no entanto ele seria muito mais do que isso, se tivesse tido a oportunidade de viver.
- Como assim?
- Daqui 30 anos irá se propagar um vírus mortal chamado XV, esse vírus vai dizimar 6 mil milhões de pessoas, até que por fim eliminará por completo a raça humana. Dentro de 40 anos não haverá um ser vivo na Terra.
Sofia escutava trémula e incrédula toda aquela informação que lhe era dada. Sentindo-se cair sobre o chão sem forças.
- O teu filho se existisse seria o Doutor Leonel Silvestre, ele estava destinado a encontrar a cura, mas através de uma escolha, o destino do mundo mudou?
- Eu sou responsável pelo fim da humanidade?
- O fim da humanidade tem tanto de previsível como de inevitável. Tu és responsável pelas tuas escolhas.
- Estou perante o meu julgamento?
- Não, estás perante uma segunda oportunidade.
- Eu farei tudo para concertar os meus erros, prometo! Não me deixes terminar assim, eu vou viver em função dessa criança, se for preciso morrerei em função dessa criança também.
- Então, assim seja!
Sofia despertou subitamente deitada sobre aquela máquina observando o médico!
- A cirurgia…
- Calma, vai correr tudo bem, vou te injectar o soro, vais adormecer rapidamente e quando acordares já estará tudo feito, vais ter de ficar só um dia de repouso e pronto estás livre para ires à tua vida.
            Quando o médico descia com aquela injecção Sofia agarra-o pelo braço empurrando-o violentamente.
- Afasta-te de mim.
Olhando-a surpreendido o médico observa-a afastando-se e saindo pela porta principal.

Dez anos depois…

Sofia residia num T0 com o seu filho Leonel, trabalhava de dia num supermercado e de noite num bar, de madrugada chega a casa deparando-se com a luz cortada por falta de pagamento, procurando o seu filho o mesmo encontrava-se na varando com duas velas acesas uma de cada lado.
- Não estás dormir ainda seu maroto?
- Mãe, porquê que temos de passar por tanta necessidade, enquanto outras crianças tem tudo.
Sofia envelhecida, vinte quilos mais gorda observa o seu filho sentindo as lágrimas caírem sobre o seu rosto numa sensação de fracasso para com ele. O Leonel sorri com o mesmo sorriso que teria contemplado pela primeira vez naquele campo de flores e luzes.
- Não fiques triste mãe, olha para aquele céu estrelado, faz de conta que é o nosso tesouro.
- Tu és o meu tesouro, a minha riqueza, no meu coração és maior que o céu e a terra, e enquanto te tiver a ti… terei tudo.









Joel Flor