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quinta-feira, 18 de outubro de 2012

O som da vida - Parte I

            No ápice da montanha de gelo um sol morno se erguia por cima daquele mundo frio e silencioso, Os seus finos raios recortavam em camadas de luz os montes que se estendiam por entre o gelo até aos confins da terra.
Suspiros e murmúrios quase extintos ecoavam por entre o vento contando histórias de passados, sonhos que produziram lembranças num momento sublime que os meros mortais conhecem como vida.
O seu espírito vagueava sobre aquela paisagem sem compreender a sua natureza a sua existência, desconhecia o seu nome o seu princípio e o seu fim, sabia de certa forma que o seu corpo estava morto, não conseguia produzir qualquer som mas meditava num vazio, não sentia tristeza ou alegria ou qualquer emoção humana. Tentava recuperar qualquer lembrança de uma existência no entanto todos o dias lhe era dado a conhecer somente a sua solidão.
            Sabia de uma forma incompreensível que a determinado momento por um indefinido tempo teria sido alguém, teria vivido outra vida. A sua natureza era sublime, perfeita, mas o seu desconhecimento de todas as coisas e a sua solidão sobre aquele universo levavam-no a desejar a simplicidade de uma vida sujeita a dores e tormentos num mundo caótico em constante movimento.
            Então desejou, desejou de uma forma tão poderosa ser alguém, sentir, tocar, correr descalço sobre a terra húmida, sentir o toque da chuva sobre a pele, o sopro do vento a agitar os seus cabelos que, o universo atendeu ao seu pedido. Sentiu-se arrebatar como que aspirado às profundezas da terra e num breve instante despertou, como se há muito tivesse adormecido.
            Estava deitado sobre capim, sentia calor, ao fundo escutava vozes compulsivas e incompreensíveis de crianças que expressavam as suas naturezas alegres e rebeldes. O som parecia estranho mas ao mesmo tempo natural, quase óbvio. Levantou-se lentamente observando as suas mãos finas dedos compridos e delicados, correu-os pelo seu rosto. O toque era suave e transmitia uma sensação de conforto. As pernas balançavam como se nunca tivessem antes sido usadas. Cabelos loiros voavam de uma forma rebelde diante dos seus olhos. Caminhou com alguma dificuldade até à beira de um rio, as águas estavam tranquilas e transmitiam nitidamente a imagem do seu reflexo. Ele percebeu que na verdade era “Ela”, uma mulher bela, elegante de traços finos e esbeltos estendia-se à sua frente, desconhecia as suas vestes que pareciam apropriadas e desconhecia a sua imagem, quase certa de que em outra vida nunca teria sido a sua.
            Caminhou lentamente por entre as ervas molhadas que abraçavam o rio, observava agora as crianças de perto que a ignoravam por completo, perdidas nos seus afazeres, ausentes do complexo mundo exterior dos adultos.
Um homem observava-a de forma curiosa, apercebeu-se nitidamente da diferença entre géneros e das suas atrações, reconheceu a sua própria beleza e o efeito que exterior que produzia aos demais. Estava completamente perdida no tempo e no espaço e até que a natureza do seu retorno se revelasse teria de permanecer discreta, tentando ocultar o efeito da sua aparência enquanto desvendava o puzzle da sua existência.
Tentou afastar-se do contacto humano caminhou durante longas horas por campos, estradas, vilas, no entanto apenas se conseguiu sentir invisível entre as multidões das cidades maiores, onde todos eram estranhos entre eles.
Uma coluna de prédios estendia-se pela avenida onde os carros circulavam em dois sentidos, no passeio centenas, talvez milhares de pessoas caminhavam despercebidas de si mesmas e do mundo. Aconchegou-se num banco de costas para um pequeno jardim e voltada para a avenida. Com um capuz cobria o seu rosto ocultando os longos cabelos entre o blusão que trazia vestido. Tentava construir informação coerente, mas os seus fundamentos não tinham base. A sua história não tinha um ponto de partida e dos dois mundos que conhecia teria dúvidas de qual seria verdadeiramente o real.
Foi então que a voz de um homem que surgiu do nada sentado do seu lado se pronunciou…
- É impressionante não é?
- Desculpe? – A sua voz intrigou-lhe mais do que a pergunta que lhe dirigia o estranho, tocou lentamente nos seus lábios como se pudesse segurar as palavras com os dedos. Queria comunicar mas os argumentos não existiam.
- Refiro-me ao modo como circulam, perdidos em rotinas curtas obcecados por projetos que nunca viram a existir, numa luta constante contra a incerteza de um tempo, o tempo que lhes é concedido neste mundo.
Ela soube naquele momento que a aquele estranho possuía todas as respostas, que de certa forma também ele era parte de algo que transcendia a vida. Queria interroga-lo com centenas de perguntas mas a sua mente não as produzia. Foi então que se focou na questão principal e prosseguiu…
- O que sou eu?
- Foste em tempos, noutros tempos um deles.
- E agora?
- Não me perguntes a mim, foste tu que questionaste a tua origem, rejeitaste a tua natureza por uma segunda oportunidade.
- Isso acontece com frequência, existem mais casos?
- Apenas com os que não estão em paz com eles próprios. Aqueles que deixaram assuntos inacabados entre os mortais. Ou os que precisam se redimir dos seus erros, e corrigir os seus passos.
- O que devo eu fazer?
- Deves aproveitar o tempo que te foi dado. Em breve irás retornar.
- Quanto tempo tenho?
- Muito pouco!
- Como é que sabes tudo isto? Quem és tu?
- Sou alguém que observou muitas gerações, que conhece a natureza humana, as suas virtudes e as suas fraquezas. O resultado da sua imaturidade e por outro lado a beleza da sua devoção à vida, o poder dos seus sonhos.
- Não sei por onde começar!
- Segue o som da música.
- Qual som?
Olhou para aquela figura mas a mesma já lá não estava. Tinha-se evaporado. Confusa, começou lentamente a escutar um coro que cantava vigorosamente um canto. Levantou-se e seguiu o som.
Estreitou-se por uma ruela estreita e esguia, cruzou-se entre alguns olhares de residentes locais que estranhavam a sua presença até que estacou junto de um enorme portão em arco que estava aberto, de dentro ouvia-se um grupo de mulheres que cantava de uma forma virtuosa um canto religioso. Enquanto se apoderava daquele som que estremecia aquela sua natureza sentiu uma mão sobre o seu ombro. Voltando-se uma mulher de cor, de meia-idade sorria-lhe.
- Entra criança, vamos servir o almoço.
Denotou que estava já por alguns momentos com uma certa má disposição, que algo a incomodava, percebeu que não se alimentava a horas e o convite que a enfeitiçava com o perfume do guisado fez com que cedesse sem questionar.
Teria cerca de trinta pessoas circulando por aquela enorme casa. Ninguém a observava como uma estranha. Por outro lado, eram muito simpáticos e acolhedores. A senhora que a recebeu chamava-se Amélia, alguns minutos depois sentou-se do seu lado sorrindo de uma forma que certas pessoas sorriem, tá nas suas naturezas serem o que são e mesmo os piores trajetos que a vida por vezes impõe, não consegue mudar a natureza que as faz sorrir quando por vezes querem chorar.
- Minha criança! Pareces perdida, queres falar sobre isso?
- Eu acredito que todos temos um propósito no mundo, um motivo para estarmos aqui, mas não consigo encontrar o meu!
- Por vezes tentamos forçar o raciocínio, quando todas as respostas estão no coração. És jovem, não devias encontrar propósitos. Tens de viver somente, a vida e os propósitos hão de se revelar com o tempo. No tempo certo.
- Não estou certa do tempo que tenho!
- Ninguém está! O segredo está em viver e deixar o tempo correr!
- Sim mas no meu caso…
Susteve as suas palavras, não sabia até que ponto a sua história ou a ausência de uma poderia parecer estranha…
- Porque não voltas para casa? Pelo teu aspeto não pareces alguém que ande pela estrada. Deves ter alguém desesperado à tua procura.
- Eu não me recordo de nada! Como é que eu posso saber se alguém me procura e de onde venho?
- É simples, tens uma esquadra de polícia a dois quarteirões daqui. Se foste dada como desaparecida deverão ter um registo.
Assentiu em concordância e levantou-se lentamente…
- Obrigado pela sua hospitalidade, vou tentar descobrir alguma coisa.
Ela abraçou a Amélia sentindo um certo conforto naquele abraço, o contacto humano era um estranho despertar de emoções. Afastou-se lentamente acenando-lhe.
Contornou as pequenas ruelas saindo novamente na avenida principal, existiam dois mundos dentro daquela cidade, aquele pequeno subúrbio e aquela estrada recheada de montras, prédios, cartazes e pessoas, centenas de pessoas elegantes que circulavam seguindo as suas rotinas. A esquadra estava junto a uma esquina bem visível. Aproximou-se timidamente, cruzou-se com dois agentes que passaram por ela despercebidos. Alguns metros mais a frente outro agente a observava curioso, continuou passando por ele e entrou dentro do edifico. Várias pessoas trabalhavam entre papéis, telefones e computadores, na maioria fardados, outros pareciam civis. Dirigiu-se a um enorme balcão, do outro lado um agente jovem sorriu-lhe.
- Precisa de ajuda menina?
- Sim… Queria tentar descobrir se existe alguém a minha procura. Perdi a memória. Não me recordo nem do meu nome.
Intrigado e desvanecendo lentamente o sorriso o agente acompanhou-a a um corredor onde pediu-lhe que aguardasse. Alguns minutos passados foi encaminhada para outro agente, um homem dos seus cinquenta anos, sentou-se junto a uma secretária. Entre vários papéis tinha o retrato do agente com a esposa e duas filhas, a imagem tocou-a, mas logo retomou a sua atenção.
- Já procuraste nas tuas roupas se tens algum documento, algum contacto?
- Os bolsos estão vazios.
- Muito bem, eu vou tirar-te as impressões digitais, uma foto de rosto e outra de perfil. Se quiseres um café quente podes usar aquela máquina, isto vai demorar um pouco vou correr todas as imagens de pessoas desaparecidas nas últimas 48 horas, parece fácil mas infelizmente são mais do que imaginas. Pode ser que tenhamos sorte, e entretanto vou emitir um ficheiro com os teus dados e partilhar com as outras esquadras. Há de se conseguir alguma coisa. Sempre se consegue, tem é de se ter paciência.
- Obrigado.
E assim esperou, esperou e adormeceu estendida naquele banco desconfortável até que as dores quebrassem o sono contornando a embriaguez do cansaço. O agente de nome Carlos estava de pé diante de si, lá fora o sol tinha-se posto dando lugar a uma noite fria e gélida. A falta de conforto parecia a melhor alternativa que tinha perante a escuridão das ruas agora um pouco mais desertas.
- Lamento, verifiquei todos os casos atuais de desaparecimento nas últimas 72 horas, não existe ninguém à tua procura. São agora 22 horas tenho de ir embora, suponho que não tenhas onde ficar certo?
- Suponho que não.
- Tem uma pensão do outro lado da rua, se quiseres posso-te alojar lá e retomamos amanhã cedo. Se te sentires animada, podes sempre passar aqui a noite num dos computadores, vendo casos mais antigos. Vão andar alguns agentes por aí qualquer coisa que precises, podes pedir-lhes.
- Não acredito que consiga dormir com tanta coisa em que pensar, fico aqui.
- Muito bem, se não tiveres sorte pode ser que amanhã já tenhamos notícias.
Assentiu com um leve sorriso, tinha tido sorte com as pessoas que cruzaram o seu caminho nas últimas horas, já era algo de valor. Pesquisou vários casos sem sucesso, ao fim de quarenta minutos os olhos estavam cansados e resolveu sair um pouco. Mergulhou naquela noite escura e fria. As respostas que precisava, a busca pela verdade, ninguém desde mundo lhe podia dar.
Como se alguém escutasse a voz do seu coração uma criança que estava sentada no passeio envolta em trapos dos seus doze anos de idade dirigiu-lhe a voz.
- Os mistérios do mundo são tão pequenos quando o ser humano se debruça sobre os mistérios da sua alma, da sua própria existência. No entanto contra todas as possibilidades sem qualquer fundamento ele insiste na procura da verdade.
- Não é o certo? Buscarmos sempre a verdade?
- A verdade sem conhecimento e sabedoria é apenas uma ideia. Pode ser manipulada e transformada segundo intentos, no entanto aquele que conhece a verdade e caminha na sua luz, esse sim desvenda todos os segredos.
- Quem és tu? Para além de alguém que conhece várias gerações humanas e o demais que não me recordo.
- A humanidade só me conhece no fim da sua jornada, alguns tendem a chamar-me de morte. Eu considero uma palavra forte e negativa. Não sou eu que tiro a vida, apenas aguardo por todos quando a mesma chega ao fim, sou um guia, num novo mundo, numa nova vida.
Não vais encontrar ninguém à tua procura porque já ninguém te espera encontrar com vida. Como aguardei muitos, um dia vim por ti também, uma alma destroçada, cheia de remorsos.
- Porque motivo não me recordo de nada?
- Quanto vieste ter comigo pediste que te apagasse o passado, assim o fiz e mesmo sem o registo de uma vida, a tua alma quis regressar.
- Se eu recuperar a memória poderei saber o que busco?
- Poderás arrepender-te também de buscar seja o que for.
- É o único caminho!
Aquela criança suspirou durante breves momentos, mostrando o primeiro sinal de incerteza sobre o que iria fazer…
- Muito bem, fecha os teus olhos!
Como uma luz que clareou a sua mente a memória retornou, e ela caiu de joelhos em pranto e desespero perante o terror da verdade…


 
Continua…


(Joel Flor)
 

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Livro "A Melodia do Silêncio"

Capitão John Stevens, um piloto americano durante a segunda guerra mundial, viveu uma vida em memória dos seus princípios e feitos heróicos, educou os seus filhos de modo a que fossem bem sucedidos na vida debaixo da sua autoridade perfeccionista. O ano de 1997 quebrava por completo a sua forte estrutura, ficaria viúvo da sua esposa Megan aos cuidados da filha mais nova que 10 anos mais tarde acabaria por entregá-lo a um lar. John em tempos atravessou 700 quilómetros a pé perdido no mundo, lutando contra a morte, contemplando cada dia que resistia como um milagre. Agora no fim dos seus dias estava reduzido à velhice e as memórias. Esquecido pelos seus num lar, rodeado de pessoas que aguardam seus últimos suspiros, esquecidos pela humanidade, completamente isolados do mundo. Nos últimos momentos de uma longa espera pela morte, ele encontra o verdadeiro significado da vida.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

O Blog "Joel Flor"

O Blog "Joel Flor" apesar de estar limitado apenas a um nome e ao trabalho de um jovem escritor desconhecido, tem vindo a crescer em visitas de um modo consideravel ao longo dos meses.
Agradeço a todos que tem dado vida a este espaço, pelo interesse constante que manifestam, pelas suas presenças e pela apreciação do meu trabalho.
Sintam-se sempre livres em deixar opiniões, sugestões e todo o tipo mensagens, porque independentemente do que faço, é para todos vós que escrevo.
Cumprimentos do escritor e amigo Joel Flor.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Conto "O Portador dos Sonhos"

E se pudesse-mos segurar o sol com as mãos, ocultar a sua luz do mundo. Absorver a sua vida e viver para sempre, tal feito traria com certeza também os seus maus efeitos, seriamos diferente de todos, seriamos únicos, no entanto ser único significa também estar só, e tudo isto significa algo que nos abrange a todos, a vida de um homem é e sempre será incompleta, buscar algo mais é um elemento da nossa natureza e mesmo que tenhamos o mundo inteiro, seremos sempre insatisfeitos.
Um pai de família pobre, pode querer o suficiente para por a comida na mesa, um pai de família estável quer o suficiente para dar um futuro aos seus filhos, apesar de todos temos um futuro e ele não estar nas mãos de ninguém. Um filho pode destruir num dia o que uma geração construiu e por fim um homem rico quer e sempre irá querer ter mais ainda.
Esta era uma das certezas que Gareth um simples pescador, teria aprendido na sua jornada pelo mundo, no seu entendimento sobre a vida que lhe era concedida, até o dia em que caminhando junto à praia surgiu um viajante, que seria tudo menos um homem comum, carregava com ele todos os segredos dos homens e o poder de mudar o mundo e o destino de cada um.

Gareth arrastava a rede para junto da areia, teria sido mais um dia de pesca fraco, perguntava a si mesmo todos os dias: Para onde estariam indo os peixes? Parecia que o mundo estava a morrer de dia para dia, e com ele toda a sua natureza se consumia e se entregava ao esquecimento. Foi meditando nos seus problemas que cresciam com cada sol que se levantava a cada manhã, que avistou o estranho homem, estranho porque de uma forma estranha não se enquadrava no cenário. O homem veio caminhando na sua direcção até que parou junto ao seu barco observando-o em silêncio.
Sentindo uma sensação de incomodo Gareth saiu ao seu encontro…
- Posso ajudá-lo em alguma coisa?
- Procuro uma casa para descansar a noite, e preciso comer alguma coisa também.
- Lamento mas não existem pensões nas redondezas, talvez se continuar a caminhar pela praia ao fim do dia chegue à cidade mais próxima e encontre algo por lá.
O homem agradeceu por gestos e continuou a sua peregrinação. Naquelas terras era costume ser hospitaleiro e oferecer a casa mesmo a estranhos. Se fosse uma família, um casal ou até mesmo alguém com outra aparência ter-lhe-ia oferecido tal como manda a tradição, o que seria certamente o que o homem esperava que ele fizesse, no entanto a sua aparência estranha, o seu olhar, modo de caminhar, tudo naquele homem o incitava a manda-lo seguir a costa. Todavia lentamente a consciência começava a pesar, teria aprendido em vida a não julgar pela aparência, a dar sem esperar nada em troca. Sabia que a próxima cidade estava a três dias de viagem, seriam três dias que aquele homem estaria sem comer.
Saiu então ao seu encontro, o sol parecia começar a esconder-se naquele horizonte longínquo, mas o rastro de luz que existia permitiu-lhe enxergar aquela forma caminhando como um vulto. Sem dar a sentir a sua presença o viajante ao longe parou o seu passo, voltou-se para trás e aguardou que Gareth fosse até ele. Ambos retornaram juntos até a casa de Gareth sem que uma palavra fosse dita. Dentro de uma casa de barro, havia uma lareira na qual uma mulher e três crianças se aqueciam. Usando a mesma lareira Gareth colocou sobre uma rede o peixe que lhe teria oferecido o mar. Todos observavam o estranho atentos, que sentado sobre o chão limitava-se a sorrir tranquilamente. Deram graças pelo peixe e pelo pão, e todos saciaram a sua fome. Deitaram as crianças sobre os seus leitos. Gareth e o estranho foram até ao exterior da casa e sentaram-se sobre a areia que cobria os vários hectares de terra que o olhar podia alcançar. O céu estava polvilhado de estrelas que por si iluminavam a noite ao som dos grilos e das aves noturnas que cantarolavam sons melancólicos.
- Não sei o seu nome!
Sem que desviasse o seu olhar do céu e do encantamento que a ele impunha o estranho responde a pergunta…
- Não tenho nome… No entanto os homens chamam-me de… “O portador dos Sonhos”
Gareth sorriu, no entanto foi um sorriso curto que se transformou numa afeição atónita, não esperava que homem fosse um aldrabão, ou cómico, ou sarcástico, ou que da mesma forma estranha fosse mais do que um homem. Simplesmente não esperava nada, porque nada teria sido revelado até ao momento. Então limitou a jogar o jogo, para ver onde o mesmo o levava.
- O que quer isso em concreto dizer?
- Eu busco nas pessoas a sua compaixão, a sua caridade, o seu lado humano que tem vindo a se extinguir ao longo dos tempos. Um homem que nada tem para oferecer ofereceu tudo. Isso é uma raridade pouco comum nos dias de hoje.
- Talvez seja mais uma imprudência da minha parte.
- O facto de ser imprudente apenas torna o gesto ainda mais nobre.
- De certa forma! Continuo sem saber o que procuras aqui!
- O que poderia um homem que possui a grandeza de um céu estrelado, a magnitude de um mar extenso, uma família e casa possivelmente desejar?
- Para alem de peixe no mar? Creio que não haja muito mais que precise!
- Se eu pudesse dar muito mais do que tudo isso? Se eu te pudesse dar o mundo inteiro. Continuarias a desejar somente peixe?
- O mundo inteiro não compra a felicidade de um homem e eu sou feliz, sempre fui, talvez ignorante, mas a ignorância consegue ser uma bênção quando não nos afasta do nosso rumo. A única coisa que preciso é de peixe para sustentar a minha família.
- Imagina que eu tenho um reino para te dar, milhares de servos e servas, soldados, conselheiros, cavaleiros, mais terras que o céu possa conter. Navios, ouro e todo tipo de especiarias, beber dos melhores vinhos, comer das melhores carnes. Uma vida acima de todos os teus pensamentos, para ti e a tua família. Continuarias a desejar somente peixe no mar?
O homem manteve-se em silêncio, o assunto começava a absorvê-lo, a contagiá-lo, a envenená-lo com o seu aroma, mas deteve-se a determinado momento…
- Haverá porventura maior riqueza na terra, que a felicidade e o amor de uma família?
- Talvez não. No entanto um dia, essa mesma família, tal como tu haverão de regressar ao pó da terra, por vezes quando limitamo-nos a viver em função dos outros, ao vê-los partir, parte de nós vai com eles também, e o mundo deixa de fazer sentido, e se ao invés de todas as grandezas e luxúrias da terra, eu pudesse dar-te a imortalidade, para ti e para os teus?
Aquela altura Gareth parou de pensar nas alternativas que lhe eram apontadas e fixou a sua atenção no seu convidado, na convicção com que proferia as suas palavras.
- Quem és tu?
- Já te respondi a essa pergunta!
- Sim, “O portador dos sonhos”. Mas isso é uma resposta muito vaga. Em virtude de entender a tua natureza, faço-te a mesma pergunta. Se te pudesse dar tudo, mesmo tudo, o que me pedirias?
O estranho que sorria com frequência susteve as suas emoções por breves momentos desviando o seu olhar que denunciava a sua fraqueza. Gareth retomou o assunto…
- Eu posso ser apenas um pescador, mas aprendi algo em vida, todos os desejos trazem as suas consequências, acredito que um dia a mesma pergunta foi-te colocada, e carregas o peso da tua escolha até aos dias de hoje. Eu sou um homem feliz, tenho tudo o que sempre quis, se terei de sobreviver sobre momentos difíceis, assim seja, com eles haverei sempre de aprender, porque a vida é uma escola, e a sua estrada não pode ser contornada.
O estranho sorriu olhando-o agora nos olhos, levantou-se e dirigiu-se rumo ao seu caminho, susteve o seu passo e devolveu o olhar a Gareth…
- Tens razão, tens uma família e uma vida maravilhosa Gareth, nunca traias os teus princípios, mantém-te firme a esse homem que és, e não te preocupes, o peixe vai voltar.
Seguiu a sua estrada, enquanto Gareth o via desaparecer novamente sobre a linha do horizonte, deitou-se junto das esposa e dos três filhos aconchegando-os nos seus braços. Combatendo o frio que entrava pelas brechas das janelas e das portas.
O viajante seguia a estrada de areia quando passou por um mendigo que amaldiçoava a própria vida e a sua existência. O viajante parou junto dele, observando-o e examinando-o, o mendigo calculou que iria receber alguma esmola e logo se precipitou a demonstrar um ar miserável.
- Uma esmola por favor. Estou a vários dias sem comer!
- Posso te dar tudo o que quiseres, queres apenas uma esmola?
O mendigo observou o viajante com um ar intrigado, e logo questionou-o?
- Como assim tudo?
O viajante mostrou-lhe as suas mãos, as mesmas estavam envoltas numa luz forte que iluminava a praia e a noite com uma intensidade sobrenatural, como se carregasse o sol nas mesmas, contendo a sua luz.
- Posso fazer de ti o homem mais poderoso do mundo, nunca mais terás de mendigar, todos te respeitaram, todos te serão submissos, serás senhor da terra.
- Eu quero sim, quero tudo!
O viajante colocou as mãos sobre a sua cabeça e a luz que as envolvia apoderou-se do seu corpo ampliando a sua força. Uma luz dourada cobria agora o viajante que lentamente começava se desfazendo num pó dourado que aspirava se envolvendo na neblina. Ao longe por entre um murmúrio expirou num sopro de palavras…
- O fardo não é mais meu, entrego-o a ti para que o carregues, os sonhos da humanidade serão a tua maldição.
A sua luz difundiu-se entre as estrelas do céu. Pequenas gotas de luz caiam sobre a terra. O mendigo sentia-se flutuando sobre a areia, tentava segurar as gotas com as mãos mas as mesmas desfaziam-se por entre os dedos. Caminhou até junto á agua observando o seu reflexo. O seu rosto tinha rejuvenescido trinta anos. A sua força estava jovem e virtuosa. A sua mente continha poderes que estavam ocultos a humanidade, e então correu sobre a terra em busca da sua glória, do mundo que lhe pertencia agora, em busca de todos os sonhos que o destino lhe teria roubado.
Gareth observava a sua esposa que não adormecia, permanecia sonhadora e pensativa de olhos abertos, sem que o sono os fechasse…
- Está tudo bem? – Questiona ele.
- A vida neste mundo é difícil, precisamos de tão pouco para sobreviver e mesmo assim por vezes o pouco nos é tirado. Não sei o que faremos se o peixe não voltar.
- Deixarei de ser pescador, passarei a ser caçador, ou lavrador, ou que quer que seja. O homem não pode definir a sua vida através de uma tradição, de uma paixão. A terra sempre há-de prover aquilo que nos faz falta. A vida define-se consoante a necessidade que temos, assim sobreviveremos de tempo em tempo, de geração em geração. Pois a verdadeira riqueza é estarmos vivos, e fazermos parte deste mundo. Não naquilo que temos… mas sim naquilo que somos.



Joel Flor

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Dois lados de um mundo




Estava distante… de ti… do mundo, perdido entre pensamentos vagos e perpétuos, tentando inconscientemente encontrar um retorno nos desígnios da vida. Subitamente os céus rugiram de uma forma impetuosa, sobre o choque das nuvens negras que cobriam a terra impondo o seu domínio sobre a escuridão.
Uma pequena brisa contornou os traços cansados do meu rosto como que me acariciando a pele pela sua passagem, com o seu toque suave e terno.
Na nostalgia do momento, na solidão que me consumia o espírito e que tentava lentamente desabrochar do seu próprio abismo, nesse momento o céu chorou.
As suas lágrimas que caiam sobre a minha pele me lavando o rosto, transformavam o mundo ao meu redor e subitamente despertei como que se tivesse caminhado num sonho profundo, num mundo distante da realidade, numa distorção da verdade. Vejo agora a guerra que me levou para longe de ti, do teu mundo, do nosso mundo. Onde as cores são vivas, onde o sol nos aquece a pele, nos conforta, onde escuto o riso das crianças pela manhã ao caminharem para a escola, nos seus pequenos passos, ambiciosos e ao mesmo tempo desprovidos de guia, de um sentido, pendentes ao amparo dos pais. Esse sonho, esse reflexo de uma memória que fere a alma, onde caminho lado a lado contigo de mãos dadas, e o mundo, esse… cabe na nossa mão.
Escuto agora o som da chuva forte, que se sobrepõe a todos os outros sons, o murmúrio dos homens que deambulam pela neblina foi ocultado pelo seu poder, pela sua magnitude, por essa natureza tão sublime que dá vida, e renova os corações com o seu canto.
Vejo-te agora claramente, o cabelo ondulado que te caí sobre os olhos com um espiral reluzente aos contornos do sol, da luz que resplandece o teu sorriso, dos teus lábios que estremecem o meu mundo pelo seu toque.
Preservo o meu nome como letras gastas, quase extintas, mas mantenho vivo esse teu perfume, a tua essência que vive dentro de mim, que me possuí e me entretece como um feitiço eterno, como uma masmorra da alma, da qual a chave, foi lançada nas profundezas da terra. Aqui… no fim do meu mundo respiro-te, e sinto-te, no toque da chuva, no sopro do vento, e na força da terra.


- Do outro lado do mundo -

Observo os meus passos na areia, esse rastro solitário, o toque morno da maré que sobe lentamente, do vento que sopra em vão, tentando alterar o rumo do mundo. Observo o despertar do sol no horizonte, aguardo que a luz te traga de volta aos meus braços. Que esse mundo cruel que te roubou de mim, te devolva num súbito gesto de misericórdia, de compaixão, de piedade. Que se sinta comovido pela nossa paixão, pelo nosso amor profundo. Que saiba esse mundo, que és a luz do meu mundo, que quando me roubou de ti, levou também o meu sol e me abarcou nessa escuridão, nesse ocultar dos sentidos. Na perplexidade de uma vida sem rumo, sem destino, sem sentido, sobrevivendo apenas da saudade, da esperança, da dolorosa memória que me visita a cada momento, a cada instante. Do sonho que momentaneamente me conduz de volta a ti, numa pequena imagem que me traz de volta esse mesmo sonho que um dia fomos, essa ilusão impossível que os homens não podem entender.
Está acima de todos nós, numa linguagem que por nós não pode ser escrita, porque por nós não foi tão pouco gerada.
Procuro o meu recanto, na solidão, no desespero e penso que vives. Imploro aos céus que sonhes como eu, que te transportes a esse reino de mil e uma cores que nos dá vida, e nos faz resplandecer na escuridão. Aguardo hoje… sempre… eternamente, por esse retorno que não pode ser negado, não pode ser esquecido, pois vives em mim e me dás vida. Nesse mundo sereno, ambicioso coberto de amor, que só existe através ti… de mim… de nós.