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terça-feira, 7 de maio de 2013

Sonhos de Papel

            Porque cantam os pássaros? Mesmo quando entre grades e correntes, privados da grandeza de um céu azul, de uma terra que se encolhe em casa bracejo que dão rumo as estrelas. Rumo, aquele horizonte onde o meu coração se perde, onde os sonhos se desfazem e a saudade se entristece.
Porque cantam os pássaros, enquanto os homens desfalecem sobre a incerteza do destino, das conquistas impossíveis, dos momentos perdidos.
            A natureza sempre me foi difícil de decifrar, o modo como se transforma, a ordem de todas as coisas que abrange, a sua irreverência, o seu poder e o seu domínio oculto e absoluto sobre um mundo de homens iludidos.
            Desde criança, sempre sonhei com coisas impossíveis, acreditava que se desejasse muito determinada coisa, a mesma viria ao meu encontro, como um destino traçado numa linha reta. Sonhava, com aquele barco que me conduziria pelo oceano aos confins da terra, sonhava com os pássaros, carregando-me sobre as nuvens, embalando me nas suas melodias. Sonhava com o meu pai, com todas as boas memórias, todas as preciosas recordações que conservo do homem que um dia foi, sonhava um dia vê-lo entrar por aquela porta marcada por um verniz velho, gasto pelo sol de várias gerações, que encolhia naturalmente a cada ano que eu ia crescendo.
            Mas o tempo mata a esperança e a inocência. O destino transforma-se numa palavra desprovida de sentido, aprendemos com os erros, com as nossas ilusões e fantasias. O tempo, esse revelou-me a realidade do mundo, do universo e de todas as coisas. Não existe um destino, existe apenas três conceitos que definem “o destino”. Escolhas, oportunidades e um pouco de sorte. O meu pai nunca retornou a casa, foi enterrado nas areias de um continente quente e longínquo. No meu coração ele morreu com as memórias e os sonhos de uma criança, que aguardava apenas o conhecimento do tempo, para entender a vida.
            É curioso o modo como o mundo se transforma com o tempo, recuamos por vezes no mesmo tempo analisando as evidências de tal forma que a maior mudança passa despercebida, o mundo por si mesmo não muda. Mudam os homens, mudamos nós. As feridas cicatrizam, os sonhos se transformam e as memórias se perdem.
            Embalo o meu pequeno filho nos braços, sabendo que o seu destino não está nas minhas mãos, na segurança dos meus braços, na consistência dos meus conselhos, na inequívoca certeza das minhas palavras.
            Encontro um incompreensível consolo no seu sorriso, na inocência da sua alegria sincera. A minha maior fraqueza e ao mesmo tempo a minha maior força e exemplo enquanto ser humano. Ali, residindo num ser de palmo e meio. Comprovando que até o mais pequeno dos seres consegue ser maior que o universo para alguém.
            Observo-o esbracejando os seus pequenos braços, sobre o calor do sol, tentando segurar entre os seus pequenos dedos aquela bola gigante de luz. Pequenos gracejos, sons rebeldes que desafiam o mundo ao seu redor.
            E o tempo corre, movendo-se na sombra das estações, na ilusão do renovo, de uma primavera que faz renascer a natureza, que em cada nova vida que dá, leva um pouco da vida dos homens. Pintamos um quadro, uma obra de arte, definimos a nossa vida entre os contornos da tinta, das sombras, das cores. Mas a ironia de um falso controlo, da ilusão de um plano, escreve uma nova história todos os dias. O homem, não consegue controlar o tempo, controlar a vida e a morte, um homem não decide a felicidade e o conforto da sua vida. Tão pouco não define o destino deste mundo que nos é passageiro. É movido pela incerteza, pelo acaso, pela sorte e por certas vezes por uma irrepreensível força de vontade, alimentada pela virtude dos seus sonhos.
            A criança cresce, a alma floresce, estabelece confiança, a ideia de um pequeno reflexo meu desvanece com os anos que o alimentam e o edificam nos percalços da vida, em todas as suas curvas e contornos que definem o seu carácter.
            O cansaço me assoma, nos ossos, na carne, no modo como tolero o mundo e as suas contantes mudanças. O que pintei no meu quadro? Onde estão os meus sonhos de papel que ganham vida entre as cores e as sombras da ilusão? Onde estão as histórias que terminam sempre da mesma forma nos livros? Sentado num banco de madeira observo as flores de um jardim, o perfume das rosas permanece, e então por detrás desta pintura, oiço os pássaros. Porque cantam os pássaros? A pergunta permanece, os homens mudam constantemente enquanto o mundo morre lentamente, segundo a segundo… Mas, porque cantam os pássaros?
            O branco das cortinas entrega-me a um quadro em branco, não existem mais curvas, caminhos, desvios ou dúvidas, o tempo esclarece todas as coisas, mas antes, ele destrói-nos lentamente, pedaço por pedaço, sonho por sonho.
            Sinto-me fraco, observo o olhar envelhecido do meu filho, cabelo grisalho, pele enrugada e o peso do mundo sobre os ombros. Tento recordar uma vida de encontros, histórias repletas de aventuras, mas o homem diante de mim, é um estranho como qualquer outro homem. Vidas diferentes, caminhos próprios, um tempo que esquece todas as coisas. No entanto noto sinceridade no seu olhar, arrependimento, vontade de concertar esse tempo, fazer com que alguns momentos perdurassem, e nunca nos fossem roubados. Ele sorri, como que aceitando, sinto-me em paz, pronto para a minha viagem, pronto para o final de todos os mistérios, desta curta passagem pelo mundo.
As cortinas desfalecem lentamente sinto a brisa do mar recortando os cabelos esbranquiçados que baloiçam juntamente com as ondas do mar.
            Os pássaros voam em silêncio, dançam por entre as estrelas, guiam-me pelas correntes do rio, que me carrega nos seus braços e me adormece na serenidade das cores. Ao fundo, o meu mundo se encolhe no horizonte.

Joel Flor

sábado, 15 de dezembro de 2012

Em busca do horizonte Azul - Parte VII - Capítulo Final


                Cada dia e cada decisão que tomamos muda o curso da nossa história, mesmo sobre tempos difíceis, todos os homens tem a possibilidade de escolher o seu próprio destino, a vida deu-me esperança quando estava prestes a ceder, deste dia em diante irei contar a minha história enquanto luto por ela. Que sirva de legado a esse novo mundo que espero que a minha filha e os seus filhos um dia venham a herdar.
                Uma vez que nos desabituamos a mover-nos sobre qualquer tipo de veículo, viajar transforma-se na estranha sensação de estarmos a ser transportados no tempo, vendo a vida passar como lembranças que se evaporam em segundos.
                O terreno ia se transformando a cada distância percorrida. Foram três longos dias de estrada, de noite parávamos pelo caminho para descansarmos e abastecermos. O lobo que pouco a pouco fui intitulando de “Gray” tinha-se rendido ao afeto humano, por mais que o aborrecesse a sua reputação de fera estava irremediavelmente estragada, repousava o focinho sobre as minhas pernas durante a viagem e adormecia, recuperava todos os sonos perdidos em que me seguiu por aquele deserto a fora, em que por momento nenhum desistiu do seu último amigo. Gostava de ter a sua força e o seu empenho.
                O fim da viagem revelava por entre as nuvens o Cristo Redentor de braços abertos, o mundo permanecia sobre o seu silêncio tenebroso, ou talvez precisássemos apenas de nos aproximar mais um pouco.
                Os soldados da Tribo comunicavam via rádio. Numa das conversas de Ernesto percebi que procuravam manuais de voo, se seguisse a lógica do fim de uma era onde a salvação dependia de transportes aéreos, chegava facilmente à conclusão que nenhum homem que soubesse pilotar um avião ficaria no continente americano. Se procuravam manuais de voo, é porque tinham descoberto um avião intacto. Optei por manter em segredo o facto de ter sido piloto da força aérea Norte americana. Quando chegasse o momento oportuno usaria o conhecimento num benefício nobre, uma vez que o interesse dos meus companheiros de viagem era apenas destruir.
Descemos das viaturas, um nevoeiro cobria a madrugada da cidade, noutros tempos seria um amanhecer silencioso, no entanto teria vivido os últimos tempos no silêncio, conseguia decifrar vários tipos de silêncio, neste silêncio em particular conseguia quase ouvir o bater das centenas quase milhares de corações humanos batendo inquietos, aguardando mais um dia que poderia eventualmente ser o último.
Por entre o nevoeiro formaram várias figuras. Os soldados cumprimentaram-se à medida que encontravam outros soldados, escutava vários idiomas, havia inclusive alguns americanos entre eles, preferi não socializar, independentemente da língua e da cultura, os seres humanos eram quase todos iguais naquele lugar.
Um homem vestido com uma farda militar toda aprumada dirigiu-se a Ernesto, percebi logo que era um dos fundadores da nobre causa “Dos defensores da paz”.
- Só conseguiste esses pobres coitados? – Pergunta ele a Ernesto.
- Só existe cinzas no norte Julian, temos de nos desenrascar com o que temos.
- Conseguiste os manuais?
- Não mas os meus homens em São Paulo continuam à procura.
Julian trocou um olhar pelos novos reforços que chegaram…
- Algum de vocês na outra vida teve formação de voo?
                Permanecemos todos em silêncio como era de esperar, o homem deteve o seu olhar sobre mim durante alguns segundos.
                - Pensei que houvesse só cinzas no Norte, no entanto trazes-me um gringo?
                - Encontramo-lo perto do Panamá! Ele é de confiança! – Intervém Ernesto…
                - O que fazias antes da guerra gringo?
                - Era soldado, infantaria! – Respondi sem hesitar…
                - Muito bem! – É disso que precisamos!
                - E encantador de lobos em part-time! – Comenta um dos soldados sobre gargalhadas.
                Julian voltou-me as costas e seguiu, observava tudo ao meu redor, tentava estudar a área, tentava perceber onde estavam os civis, o meu coração pulsava violentamente, sabendo que a minha família poderia estar a pouco metros de mim, ou simplesmente do outro lado da cidade. Segurei o Ernesto pelo braço à medida que se afastava…
                - Preciso saber onde está a minha família. O que vamos fazer agora!
- Meu amigo, isto não é um safari, e os soldados aqui não fazem perguntas, limitam-se a aguardar ordens!
- Eles não tem nenhum motivo pelo qual questionar. Eu tenho, por favor. Preciso saber! Eu vou cumprir com o que me pediste.
Ernesto observa-o irritado, mas lentamente cede…
- Não existem civis neste lado da cidade. Apenas a base de operações desta Tribo, existe um arranha-céus no centro da cidade, onde estão alguns estrangeiros que a outro tribo considerou terem algum valor para futuras negociações. O edifício não é guardado, nem os civis são prisioneiros. Ninguém saí porque sobreviver cá fora é complicado. Sei apenas que nos últimos tempos não tem vivido nas melhores condições, todos os homens e ainda algumas mulheres foram incorporadas no exército da tribo. Restaram apenas alguns idóneos e crianças que aguardam a maturidade para terem algum uso, enquanto os idóneos apenas aguardam a morte. Se houver perto de cem pessoas nesse edifício será muito. Queres continuar a acreditar que a tua mulher está viva? Ou preferes de uma vez por todas encarar a realidade?
- Porquê que procuram manuais de voo?
- Existe um avião de transporte intacto no território da outra tribo. Nós vamos roubá-lo enquanto a tribo investe num ataque surpresa.
- Para quê que o Julian quer um avião?
- Olha à tua volta Jason? Vês algum paraíso no qual queiras passar o resto da tua vida?
- Os soldados sabem disso?
- Não, são demasiado burros para perceber. Assim que o Julian tiver conhecimento de voo, ele vai para a Austrália.
- E vai abandonar a causa?
- Acho que não percebeste gringo! Depois o ignorante sou eu?
- Elucida-me por favor!
- Ele não quer o Rio de Janeiro ou a Austrália! Ele quer o mundo inteiro, não vai abandonar a guerra refugiando-se nas colónias que ninguém sabe como estão. Ele quer invadir o país. Com fogo e sangue.
Observava a sinceridade com que o Ernesto me descrevia a mente monstruosa de Julian, senti uma certa tristeza pelo estado do mundo, aquele era o renascer das cinzas, aquele era o futuro dos nossos filhos, aquele era o motivo pelo qual centenas de pessoas iriam morrer nos próximos minutos. Seguindo simplesmente a loucura de uma mente.
- Eu gosto de ti gringo! Existe bondade em ti, mas temo por essa bondade. No mundo não se sobrevive mais com bondade, a sobrevivência está em saber escolher o menor dos males.
- Se vou morrer em breve, que seja como um homem de princípios, os princípios que os meus pais me deram. Princípios que o mundo se esforça arduamente para esquecer.
Virei-lhe e saí caminhando noutro sentido…
- Aonde é que vais soldado? Não podes abandonar a Tribo!
Escutei o rodar de um revólver, a arma de Ernesto estava apontada a mim, a opção livre que me tinha prometido acabava de expirar…
- Não me deixas alternativa, seu idiota, vou dar-te um atalho para ires logo ter com a tua família nos quintos dos infernos.
Antes que pressionasse aquele gatilho o maxilar de Gray já estava fechado sobre os seus dedos, o tiro saí passando a poucos metros do alvo, Gray investiu novamente sobre o Ernesto abocanhando-o pelo pescoço, jogando o corpo do homem sem vida sobre o chão. Escutei o som de homens correndo alvoraçados até nós. Tinha um dos jipes ao meu alcance, peguei o revólver do Ernesto e meti-me dentro do jipe. Gray não aguardou o convite, saltou de imediato para as traseiras do veículo que arrancou a fundo derrapando os pneus no asfalto. Logo estaria no meu encalço, fosse qual fosse o plano que iria construir nos próximos segundos teria de envolver um grande alvoroço de modo a acordar aquela cidade fantasma.
Nas traseiras do jipe tinha uma metralhadora russa carregada, peguei-a enquanto conduzia a alta velocidade pela longa avenida e disparei alguns tiros para o ar. Isso colocaria a segunda Tribo em alerta, Julian iria ter de repensar a sua estratégia e eu ganharia ainda mais tempo. Avistei ao fim de alguns quilómetros o enorme arranha-céus ainda intacto. Saí do jipe de arma em punho o local permanecia em silêncio, o Gray seguia-me de cabeça baixa, um verdadeiro soldado que me salvara a vida mais que uma vez. Contornamos o passeio por uma rua transversal, observávamos os telhados dos edifícios em busca de atiradores furtivos mas o trajeto permanecia livro. Corri até à porta principal e entrei no edifício, o meu coração disparou de tal forma que tive de me debruçar por alguns momentos para recuperar o fôlego. Um homem saiu de um dos corredores empunhando uma faca, lançou-se a mim furiosamente, no último segundo travei-o embatendo com a metralhadora no rosto. Dei-lhe uma joelhada no estômago, curvando-se atingiu-o novamente com a metralhadora nas costas fazendo-o desfalecer sobre o chão. Chamei o Gray que inspecionava os arredores e dirigimo-nos para as escadas. Lá fora o som de explosões tiros e gritos começou a ecoar. A batalha das tribos tinha começado. Felizmente o homem que sabia dos meus planos, da minha mulher e filha estava morto. Tinha de aproveitar tudo o que tinha a meu favor. Alcancei o último piso quase sem fôlego, centenas de pessoas encolheram-se quando me viram dobrar a esquina que me conduziu aquele enorme compartimento. Um vigésimo quinto andar com paredes exteriores de vidro davam uma vista magnífica para a cidade que encontrava agora o sol da manhã. O nevoeiro tinha-se levantado enquanto fazia a minha maratona de vinte e cinco andares.
As pessoas olhavam-me aterrorizadas, muitas crianças e mulheres…
- Não tenham medo, eu não vou vos magoar!
Lentamente percebi-me que o mais os assustava não era a minha metralhadora, mas sim os dentes afiados atrás de mim…
- Importas-te de sorrir uma vez na vida? Estás a assustar as pessoas!
Voltei-me para a multidão e gritei…
- Cíntia e Sophie Goldberg!
O silêncio permaneceu após os nomes, as pessoas trocavam olhares entre si dando a entender que desconheciam as pessoas em questão. O meu coração desfaleceu naquele momento caí desconsolado sobre as minhas pernas, aquele era o limite das minhas forças, o auge da minha fé tinha desmoronado, não haveria qualquer plano após o meu fracasso. Talvez o seu destino, o motivo pelo qual estaria vivo e teria alcançado aquela torre, seria de salvar aquelas pessoas, coloca-las num avião rumo à Austrália. Valia a pena salvar vidas quando a minha tinha irremediavelmente acabado, enquanto meditava no meu próximo passo relâmpago, uma vozinha doce e meiga por detrás de mim soletrou…
- Pai? 

Voltou-se lentamente rendido ao chamado e o seu mundo parou, a guerra que decorria lá fora permaneceu em silêncio enquanto os seus olhos lacrimejados contemplavam a sua filha Sophie, uma criança de oito anos devolvia-lhe um olhar choroso e correu em seguida até aos seus braços apertando-o com força sem conseguir conter o choro. A alegria momentânea de Jason não conseguia contornar o desespero que tinha em saber da sua esposa, logo afagou-lhe as lágrimas dos olhos…
- Filha, a tua mãe? Onde está?
Uma senhora de idade interrompeu-os…
- Você é o Jason Goldberg, a Cíntia falou-nos muito de si. Ela nunca desesperou, acreditou em todas as suas forças que tu virias um dia por ela, por todos nós. És piloto não és?
Com algum receio o Jason respondeu que sim…
- Eu sei onde está o avião, o meu marido ia nos levar no dia da grande guerra, mas não viveu para fazê-lo. E assim permaneceu escondido até recentemente ambas as Tribos saberem da sua existência e de estar apto a viajar. A tua mulher levaram-na a duas semanas, descobriram que ele era médica e puseram-na a tratar de soldados feridos.
- Onde é que ela está?
Um velho dos seus setenta anos levantou-se e aproximou-se dele…
- Eu levo-te até ela. Mas prepara-te para enfrentares fogo.
- Tenho 25 andares para descer, não posso ir a passo de caracol, desenha-me um mapa porque o tempo escapasse.
Assim o fez, desenhou o trajeto até à base da Tribo e a morada do armazém onde estava o avião…
- Estamos a confiar-te a nossa última esperança…
- Formem fileiras de dez pessoas e sigam até ao armazém, são duas quadras, mantenham-se escondidos caso soldados das Tribos apareçam, fica com este revólver, é melhor que nada. Se eu não aparecer até o por do sol… Regressem à torre e… cuidem bem da minha filha.
- Não te preocupes Jason!
Desci as escadas em corrida, seguido pelo Gray. Entramos rapidamente no Jipe e seguimos a estrada que o velhote indicara. Sentia o som da batalha muito perto, alguns tiros começaram a cruzar o jipe. Atiradores tentavam abater-me.
Um tiro atingiu a roda do Jipe fazendo-o capotar na estrada. O Gray saltou antes que o carro embatesse contra o asfalto. Eu não fui tão rápido, senti algo perfurar a minha perna esquerda no impacto. Dolorosamente arrastei-me por debaixo do veículo procurando um abrigo. A poucos metros o Gray abatia à dentada um soldado que se aproximava. Alcançou-me preocupado cheirando o ferimento.
- Eu estou bem Gray! Vamos, não podemos perder tempo.
Movia-me dolorosamente coxeando de uma perna, ao final da rua existia um enorme hospital o qual a Tribo utilizava as instalações para vários fins. Entrei sem me preocupar mais com a cautela, dezenas de pessoas tratavam de homens feridos, carbonizados, cenários que me trouxeram à memórias tempos que julgava ter esquecido. Tentei ignorar os gritos e os odores de morte, foquei-me em encontrar apenas a Cíntia. As portas principais abriram-se, três soldados procuravam pelo gringo. Estava a ficar famoso! Teria de me transformar num assassino naquele futuro próximo, muitas vidas dependiam de mim, agachado na esquina do corredor disparei sobre um dos homens que tombou contra o chão. Os outros dois desviaram-se procurando cobertura e começaram a retribuir fogo cerrado. O pânico instaurou-se ainda mais, logo o tiroteio iria atrair mais soldados. As coisas começavam a complicar-se. Saltei por cima de uma maca sentindo as balas passarem rentes ao meu corpo. Corri pelo corredor vago tentando sobreviver mais uns segundos foi então que a vi, linda como desde o primeiro dia em que a conheci, atarefada sobre um paciente que morria em cima da mesa os seus olhos num instante cruzaram os meus, quando me reconheceu, não teve como se conter. Caiu de joelhos e começou a chorar. Corri até ela abraçando-a.
- Temos de sair daqui, os soldados querem matar-me! Eu sei do avião, vou tirar todo o mundo deste lugar.
- Eu sei que vais! Esperei uma eternidade por este dia!
- Conheces as instalações? Consegues pôr-nos o mais rápido possível fora daqui?
- Segue-me!
Alguns segundos depois corriam os dois pela estrada, Jason ignorava as dores, se conseguissem sobreviver aquele dia iria ter muito tempo para se queixar. Não havia nenhum veículo por perto tiveram de correr três quilómetros sem parar até que alcançaram o armazém. Os civis já lá estavam.
              - Ajudem-me a abrir estes portões.
 A luz invadiu o interior do armazém. Era um avião de carga com capacidade para todos e com porte suficiente para atravessar um oceano. Observou o combustível permanecia atestado durante todo aquele tempo, dentro da cabine havia uma mapa de navegação e uma fotografia de Sydney a capital Australiana. O velho piloto construiu o seu sonho e não viveu para concretizá-lo.
Os jipes de Julian pararam lá fora, Jason precipitou-se em embarcar todo mundo e correu com a metralhadora para junto dos portões, o velho de nome Celso puxou do revólver e acompanhou-o juntamente com Gray.
Eram seis soldados com o Julian, aproximavam-se armados. Jason sabia o que tinha de fazer, era única salvação que tinham, e assim fez disparou rapidamente sobre dois soldados os outros responderam com fogo pesado fazendo-o recuar. O velho precipitou-se e Julian atingiu-o com um tiro certeiro no peito. Jason tentou amparar-lhe a queda mas quando o segurou já estava morto. Investiu novamente em fúria atingindo outro soldado. O Gray atirou-se contra outro derrubando-o enquanto o esquartejava contra o chão. Julian preparava-se para abater o lobo enquanto o Jason derrubava outro soldado, e avançava em corrida contra o Julian, no último instante Julian optou por atirar em Jason que caiu estendido sobre o chão. Gray observando-os atirou-se a Julian que defendeu-se atempadamente com um tiro, o animal ignorou a dor e cravou os seus dentes no pescoço de Julian, lentamente ambos perderam as forças e caíram sobre terra.
 Jason levantava-se entre gemidos, a bala permanecia dentro de si a poucos centímetros do coração. Continuava a lutar contra a morte, o lobo permanecia imóvel sobre o chão, pegou-o com dificuldade nos seus braços trazendo-o para o interior do armazém, caiu de joelhos sobre o chão segurando o animal nos seus braços enquanto o mesmo desfalecia lentamente.
- Eu avisei-te que isso de andares comigo ia ser o teu fim! – Tentou brincar mas não se conteve, o seu amigo estava a morrer nos seus braços…
- Vá lá Gray, tu consegues sobreviver a isto. O que é isto em comparação à travessia do enorme deserto americano? Não vás!
Gray parecia aceitar o seu destino melhor do que o Jason que não se conformava, Cíntia observava-o de longe, sentia admiração pelo homem que ele era. Por vezes os piores momentos revelam as melhores pessoas. O curso da vida dita aquilo que somos consoantes os obstáculos que enfrentamos. Esse era o inevitável curso das histórias que ouvimos e nos fazem meditar, nos servem de base e princípios.
Coloquei o meu velho amigo sobre o chão abraçando-o uma última vez.
- Adeus Gray, até à próxima viagem!
Corri saltando para a cabine do avião, os braços da Cíntia contornavam o meu pescoço, não me iria soltar mais por nada deste mundo. O avião arrancou pela estrada, foi alvo de alguns tiros que não impediram a sua conquista dos céus. Em poucos segundos o Rio de Janeiro foi encolhendo por entre as Janelas, despedi-me da grande estátua de braços abertos que tentava abraçar um mundo perdido. O sol brilhava agora em todo o seu vigor e o horizonte era mais azul do que nunca. Pensei naquela cidade linda que ficava para trás, pensei no meu país que ficou reduzido a cinzas, pensei no ser humano e naquilo que nos define. Pensei no poder de uma simples ideia.
Uma ideia contamina um homem bom, muda a mente de uma nação, altera o destino de uma geração, muda o futuro do mundo e o curso de todas as coisas.
Uma ideia que ganhe vida pode ser a arma mais perigosa à face da terra. Enquanto o mundo perece, renasce e volta a perecer perante as inevitáveis ideias dos homens. Resta-nos permanecermos verdadeiros a nós mesmos, e fiéis aqueles que amamos. Com o amor vivo o mundo dentro de nós nunca será abalado…
 
Fim
(Joel Flor)

sábado, 3 de novembro de 2012

O som da vida - Parte II


             Alice estava um tanto inquieta no final daquela tarde de Outono, teria discutido com a sua mãe a respeito de uma festa que pretendia ir durante todos os dias daquela semana. Lutava irremediavelmente contra a sua vontade que a proibia de sair de casa, “Tens dezasseis anos, não vais a lado nenhum!” Aquelas palavras da sua mãe fluíam como um eco imortal na sua cabeça, como uma cassete que virara vezes e vezes espezinhando a sua consciência.
Geralmente os confrontos com a sua mãe eram conversas curtas, mas aquela era a festa da sua vida, o rapaz de quem gostava iria lá estar, ela tinha a certeza de que se não fosse, o perderia para sempre. Acreditava que o seu destino estava traçado, e a escolha dos seus passos independentemente da idade que tivesse eram seus para serem escolhidos quando bem entendesse, ninguém tinha o direito de lhe roubar os sonhos.
Teria garantido à sua amiga Jessica que estaria à porta da sua casa as 21 horas daquele dia, mesmo que o céu desabasse sobre a sua cabeça, e aquela promessa não iria quebrar por nada deste mundo.
O sol desaparecendo lentamente por cima do telhado dos seus vizinhos apenas aumentava o seu nervosismo, penteou os seus longos cabelos loiros, vestiu um vestido vermelho e lentamente pintava os seus lábios com um batom da mesma cor. Aquele gesto adulto ainda lhe era estranho, lentamente ia conhecendo uma nova figura diante do espelho, a ideia de parecer cinco anos mais velha agradava-a bastante. A porta abriu-se de rompante, a mãe observava-a de semblante fechado, apesar do incómodo ela tentou permanecer indiferente…
- É assim que vai ser então?
- Não sou mais uma criança, todas as minhas amigas saem quando querem e não dão satisfações a ninguém. Acho que estas a viver no século errado. Não vou mais desperdiçar esta fase da minha vida por causa das tuas ideias.
- Muito bem, no entanto a algo que deves saber sobre essa vida que julgas conhecer tão bem. Decisões de peso têm as suas consequências, tiveste toda a tua vida quem as assumisse por ti. Se saíres por aquela porta hoje, não voltes a entrar, nunca mais.
Alice estremeceu perante a dureza das palavras que ouvia, mas manteve-se fiel à sua promessa, assim que a sua mãe saiu do quarto tentou focar-se apenas na festa, o demais haveria de decidir mais tarde quando fosse oportuno.
Andava de um lado para o outro dentro daquelas quatro paredes, os minutos passavam lentamente, a noite teria consumido a luz do sol por detrás daquela janela do seu quarto, não suportava mais aquele nervosismo e optou por sair uns minutos mais cedo. A sua mãe estava no seu quarto, a televisão da sala transmitia um recital infantil no entanto não tinha telespectadores à exceção do gato Matias que bocejava entediado, deitado no sofá. Cruzou aquele corredor esperando ouvir um grito a qualquer momento mas tal não aconteceu. Assim que colocou os pés fora de casa e a porta se fechou por trás. Os nervos acalmaram, suspirou fundo e seguiu por aquela rua silenciosa.
Um grupo de bêbados passou por ela com alguns gracejos, era uma novidade ser mulher, ignorou-os e acelerou o passo, a casa de Jéssica ficava a pouco mais do que quinhentos metros, a rua era agora mais isolada, teria passado por ela durante anos à luz do dia, no entanto naquela noite parecia outro lugar. Ouviu um ruído estranho, quando se preparava para voltar um braço forte prendeu-a de costas enquanto a outra mão tapava-lhe a boca, tentou-se debater inutilmente mas perdia os sentidos lentamente, um lenço na sua boca obrigava-a a respirar algo que a faria adormecer. Sentiu um pavor enorme, perdeu as forças e mergulhou inconsciente nos braços daquele estranho.
Algumas horas mais tarde despertou na traseira de uma carrinha de caixa, uma pequena janela iluminava aquele compartimento, com a luz do sol que ia se erguendo no horizonte. Do outro lado da estrada um carro da polícia cruzou com a carrinha mas seguiu o seu caminho. Sentiu vontade de gritar por auxílio mas não tinha forças, estava apavorada, e uma tentativa infrutífera poderia provocar a sua morte, então encolheu-se sobre uma coberta, tremendo e chorando, a única pessoa em quem conseguia pensar era na sua mãe. 

A polícia iniciou as buscas na manhã seguinte quando a mãe de Alice ligou à Jéssica e a mesma respondeu que a Alice nunca teria aparecido. Era uma cidade pequena, o acontecimento gerou um impacto profundo, ao fim de uma semana as buscas não produziram qualquer resultado ou pista. A Alice poderia estar em qualquer lugar agora.
Estavam em março de 2002, foi finalmente em novembro do mesmo ano que encontraram a cena do crime, uma cave funda por de trás de uma quinta, um passante teria visto um homem descarregar um corpo embrulhado numa manta. No dia anterior uma jovem de dezanove anos teria sido dada como desaparecida. Pela altura que as autoridades chegaram ao local foi tarde demais para lhe salvar a vida. Sandro Valêncio de quarenta e dois anos de idade foi detido e julgado pelo homicídio qualificado de vinte e duas mulheres, apenas o corpo da última mulher foi encontrado, no entanto através de análises de ADN conseguiram identificar a passagem de Alice por aquele lugar. Confessando o assassino também a sua morte.
 

A parte final da história era redigida pela criança, tendo Alice conhecimento apenas da forma brutal como teria sido assassinada. Sentou-se lentamente sobre a calçada, por mais frustrante que fosse, as respostas não traziam soluções no seu caso.
- Chamo-me Alice!
- Sim, esse foi o teu nome um dia, e esta a tua história.
- Quantos anos passaram?
- Passaram seis anos, por isso é que não conseguiram ajudar-te na esquadra. O processo foi arquivado quando o assassino confessou. Ninguém anda á tua procura há muito tempo.
- Não entendo, o que devo eu fazer?
- No coração dos homens todos os caminhos são evidentes, quando são corrompidos pela natureza humana, começam logo a surtir as dúvidas. Tu sabes o que tens de fazer, segue o caminho que te trouxe de volta este mundo.
- Mas…
A pergunta sucumbiu perante a luz que abraçava o seu entendimento, a criança desapareceu deixando-a novamente. Ela sabia que o tempo era limitado, que o privilégio que lhe tinham concedido teria de servir o seu propósito, e naquele momento ela sabia exatamente o que tinha de fazer. Teria de se reconciliar com a sua mãe, para que as duas seguissem os diferentes caminhos em paz.
Caminhou durante horas por aquela estrada longa, vendo o sol iluminar o seu caminho lentamente, começou a reconhecer bairros, lojas, e pouco a pouco algumas pessoas que não notavam a sua presença. Sentia-se como um fantasma vagueando o seu universo perdido, passou pela porta da Jéssica, teria agora vinte e três anos, talvez ainda morasse com os pais, quem sabe teria encontrado a sua cara-metade naquela noite e estivesse agora casada, a vida segue milhões de destinos quando temos imaginação para nos perdermos divagando diversos sentidos.
Ao fundo da rua a porta da sua casa desenhava todas as recordações da sua infância. Aproximou-se lentamente, a cidade dormia, eram seis horas da manhã, susteve o passo diante da sua porta. Procurou o vaso onde a sua mãe sempre escondia uma chave suplente e notou que os velhos hábitos mantinham-se vivos. Abriu lentamente a porta e entrou, o velho gato Matias que não gostava de estranhos reconheceu-a de imediata esfregando-se nos seus pés, acariciou-o e seguiu pelo corredor. A porta do quarto estava entreaberta, antes que avançasse denotou vários frascos de comprimidos, antidepressivos, comprimidos para dormir. O cenário evidente revelava que os últimos anos não teriam sido fáceis.
Abriu lentamente a porta deixando um pequeno rastro de luz iluminar a escuridão do interior. A sua mãe estava deitada por debaixo de um lençol, dormia profundamente, todos os cantos da casa mostravam falta de asseio, percebeu que as limpezas não eram tão frequentes como antigamente. Certamente continuava solteira desde o falecimento do seu pai e os cuidados pessoais teriam perdido a sua prioridade, como mulher e como ser humano.
Sentou-se lentamente sobre a cama com medo de acordar, apesar do efeito dos comprimidos ser forte. Acariciou-lhe lentamente o cabelo que começava a ficar grisalho, talvez já fosse antes no entanto agora não se dava ao trabalho de o disfarçar.
A voz daquele ser que a acompanhava ocasionalmente sobre a forma humana, pronunciou-se ao seu ouvido…
- Fala o que tens de falar, ela vai ouvir e tudo produzirá o devido efeito.
Alice comoveu-se antes que as palavras saíssem, as lágrimas caiam lentamente pelo seu rosto…
- Mãe, eu sei que me consegues ouvir, estou aqui porque quero que saibas que lamento muito tudo o que aconteceu. Lamento ter sido tão egoísta, lamento não te ter apoiado quando o pai partiu, lamento não ter-te abraçado todas as vezes que te vi chorar. Perdoa-me por ter-te deixado naquele dia, a vida ensina-nos através dos nossos erros, mas nem todos tem uma segunda oportunidade para se redimirem. Tu tens a oportunidade de uma nova vida, algo que eu já não tenho. Não desperdices a vida, sobrevivendo presa ao passado. Agarra os dias vindouros com as duas mãos. Luta pela tua felicidade, por mim e por ti, para que eu possa partir em paz, sabendo que haverá apenas saudade e não remorsos. Perdoa-me por tudo, para que eu possa também, perdoar-me a mim mesma.
Abraçou aquele corpo quente, mesmo dormindo as lágrimas caiam do rosto daquela mulher. Alice sentiu-se leve, a sua missão no mundo estaria cumprida, era tempo de regressar. Levantou-se lentamente e seguiu o seu caminho. Passando por um espelho observou-se de relance por um momento, não se tinha apercebido até aquele momento que tinha envelhecido como se tivesse a idade que teria viva.
Lá fora um homem de boa aparência observava-a, tranquilo como se a conhecesse, e logo ela entendeu que a morte a aguardava numa nova forma. Aproximou-se dele…
- Chegou a hora de regressarmos.
- Então a minha missão está cumprida?
- Sim. – O homem observava-a sabendo que a pergunta transmitia alguma falta de convicção, estava em paz, mas continuava triste.
- O assassino é o único homem que sabe que morri, mesmo que tenha confessado, o meu corpo nunca foi encontrado.
- Sabia! Ele morreu há dois anos atrás, assassinado numa prisão. Até os presos tem mães, filhas e irmãs. Um homem como aquele não seria bem aceite em lado nenhum. Foi encontrado morto na sua cela. A justiça sempre chega a todos.
- Então ninguém vivo pode afirmar que realmente eu fui assassinada, amostras de sangue não provam nada.
- Onde é que queres chegar?
- Eu queria uma segunda oportunidade!
- Já a tiveste!
- A minha mãe precisa de mim.
- Todos precisam de alguém, mas o mundo não é perfeito.
- Tu observas a humanidade desde o princípio dos tempos. Tem um pouco de fé em nós, eu sei que podes fazer algo por nós, podes dar-nos algo em que acreditar.
- Isso ultrapassa-me, sou apenas um guia.
- Por favor!
- Consegues ouvir este som, esta melodia? É o som do silêncio, do fim. Eu chamo-lhe “A Melodia do silêncio”, é como um consolo divino que sentimos quando deixamos este mundo em paz, o som não significa o fim, significa que está livre, perdes o mundo mas ganhas o universo. O som está a chamar por ti.
A Alice aproximou-se do homem segurando-lhe na mão, colocou sobre o seu peito, junto ao seu coração. Consegues ouvir este som? O seu ritmo, que pulsa e estremece o nosso ser? Este é “O som da vida”. Eu escolho a vida, deixa-me viver!
O homem observou-a durante alguns momentos, lentamente esboçou o seu primeiro sorriso durante aquele percurso e partiu. A Alice manteve-se atónita durante alguns momentos, contemplou aquele mundo ao seu redor, como se pela primeira vez ele lhe pertencesse. Entrou d1entro de casa novamente, dirigiu-se ao seu velho quarto. Permanecia intacto. O frasco de batom continuava aberto em cima da sua mesa. A janela do seu quarto pintava o mesmo quadro que conhecera toda a sua vida. Deitou-se lentamente sobre a sua cama encolhendo-se sobre os cobertores, perdida entre uma exaustão que teria sido combatida até momentos atrás pela adrenalina. Cedeu e adormeceu num sono profundo.
 

Na primeira página de todos os jornais nacionais uma notícia pulsava em destaque: “Jovem desaparecida aparece ao fim de seis anos.” O mundo alegrava-se na felicidade de uma mãe, por momentos esquecia-se dos seus problemas, da sua vaidade, da sua ignorância, da sua intolerância, do seu egoísmo. Por momentos recordava o que era ser humano e viver cada dia em virtude de uma causa nobre, de um verdadeiro propósito.

 
 
 

Fim

 
(Joel Flor)

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

O som da vida - Parte I

            No ápice da montanha de gelo um sol morno se erguia por cima daquele mundo frio e silencioso, Os seus finos raios recortavam em camadas de luz os montes que se estendiam por entre o gelo até aos confins da terra.
Suspiros e murmúrios quase extintos ecoavam por entre o vento contando histórias de passados, sonhos que produziram lembranças num momento sublime que os meros mortais conhecem como vida.
O seu espírito vagueava sobre aquela paisagem sem compreender a sua natureza a sua existência, desconhecia o seu nome o seu princípio e o seu fim, sabia de certa forma que o seu corpo estava morto, não conseguia produzir qualquer som mas meditava num vazio, não sentia tristeza ou alegria ou qualquer emoção humana. Tentava recuperar qualquer lembrança de uma existência no entanto todos o dias lhe era dado a conhecer somente a sua solidão.
            Sabia de uma forma incompreensível que a determinado momento por um indefinido tempo teria sido alguém, teria vivido outra vida. A sua natureza era sublime, perfeita, mas o seu desconhecimento de todas as coisas e a sua solidão sobre aquele universo levavam-no a desejar a simplicidade de uma vida sujeita a dores e tormentos num mundo caótico em constante movimento.
            Então desejou, desejou de uma forma tão poderosa ser alguém, sentir, tocar, correr descalço sobre a terra húmida, sentir o toque da chuva sobre a pele, o sopro do vento a agitar os seus cabelos que, o universo atendeu ao seu pedido. Sentiu-se arrebatar como que aspirado às profundezas da terra e num breve instante despertou, como se há muito tivesse adormecido.
            Estava deitado sobre capim, sentia calor, ao fundo escutava vozes compulsivas e incompreensíveis de crianças que expressavam as suas naturezas alegres e rebeldes. O som parecia estranho mas ao mesmo tempo natural, quase óbvio. Levantou-se lentamente observando as suas mãos finas dedos compridos e delicados, correu-os pelo seu rosto. O toque era suave e transmitia uma sensação de conforto. As pernas balançavam como se nunca tivessem antes sido usadas. Cabelos loiros voavam de uma forma rebelde diante dos seus olhos. Caminhou com alguma dificuldade até à beira de um rio, as águas estavam tranquilas e transmitiam nitidamente a imagem do seu reflexo. Ele percebeu que na verdade era “Ela”, uma mulher bela, elegante de traços finos e esbeltos estendia-se à sua frente, desconhecia as suas vestes que pareciam apropriadas e desconhecia a sua imagem, quase certa de que em outra vida nunca teria sido a sua.
            Caminhou lentamente por entre as ervas molhadas que abraçavam o rio, observava agora as crianças de perto que a ignoravam por completo, perdidas nos seus afazeres, ausentes do complexo mundo exterior dos adultos.
Um homem observava-a de forma curiosa, apercebeu-se nitidamente da diferença entre géneros e das suas atrações, reconheceu a sua própria beleza e o efeito que exterior que produzia aos demais. Estava completamente perdida no tempo e no espaço e até que a natureza do seu retorno se revelasse teria de permanecer discreta, tentando ocultar o efeito da sua aparência enquanto desvendava o puzzle da sua existência.
Tentou afastar-se do contacto humano caminhou durante longas horas por campos, estradas, vilas, no entanto apenas se conseguiu sentir invisível entre as multidões das cidades maiores, onde todos eram estranhos entre eles.
Uma coluna de prédios estendia-se pela avenida onde os carros circulavam em dois sentidos, no passeio centenas, talvez milhares de pessoas caminhavam despercebidas de si mesmas e do mundo. Aconchegou-se num banco de costas para um pequeno jardim e voltada para a avenida. Com um capuz cobria o seu rosto ocultando os longos cabelos entre o blusão que trazia vestido. Tentava construir informação coerente, mas os seus fundamentos não tinham base. A sua história não tinha um ponto de partida e dos dois mundos que conhecia teria dúvidas de qual seria verdadeiramente o real.
Foi então que a voz de um homem que surgiu do nada sentado do seu lado se pronunciou…
- É impressionante não é?
- Desculpe? – A sua voz intrigou-lhe mais do que a pergunta que lhe dirigia o estranho, tocou lentamente nos seus lábios como se pudesse segurar as palavras com os dedos. Queria comunicar mas os argumentos não existiam.
- Refiro-me ao modo como circulam, perdidos em rotinas curtas obcecados por projetos que nunca viram a existir, numa luta constante contra a incerteza de um tempo, o tempo que lhes é concedido neste mundo.
Ela soube naquele momento que a aquele estranho possuía todas as respostas, que de certa forma também ele era parte de algo que transcendia a vida. Queria interroga-lo com centenas de perguntas mas a sua mente não as produzia. Foi então que se focou na questão principal e prosseguiu…
- O que sou eu?
- Foste em tempos, noutros tempos um deles.
- E agora?
- Não me perguntes a mim, foste tu que questionaste a tua origem, rejeitaste a tua natureza por uma segunda oportunidade.
- Isso acontece com frequência, existem mais casos?
- Apenas com os que não estão em paz com eles próprios. Aqueles que deixaram assuntos inacabados entre os mortais. Ou os que precisam se redimir dos seus erros, e corrigir os seus passos.
- O que devo eu fazer?
- Deves aproveitar o tempo que te foi dado. Em breve irás retornar.
- Quanto tempo tenho?
- Muito pouco!
- Como é que sabes tudo isto? Quem és tu?
- Sou alguém que observou muitas gerações, que conhece a natureza humana, as suas virtudes e as suas fraquezas. O resultado da sua imaturidade e por outro lado a beleza da sua devoção à vida, o poder dos seus sonhos.
- Não sei por onde começar!
- Segue o som da música.
- Qual som?
Olhou para aquela figura mas a mesma já lá não estava. Tinha-se evaporado. Confusa, começou lentamente a escutar um coro que cantava vigorosamente um canto. Levantou-se e seguiu o som.
Estreitou-se por uma ruela estreita e esguia, cruzou-se entre alguns olhares de residentes locais que estranhavam a sua presença até que estacou junto de um enorme portão em arco que estava aberto, de dentro ouvia-se um grupo de mulheres que cantava de uma forma virtuosa um canto religioso. Enquanto se apoderava daquele som que estremecia aquela sua natureza sentiu uma mão sobre o seu ombro. Voltando-se uma mulher de cor, de meia-idade sorria-lhe.
- Entra criança, vamos servir o almoço.
Denotou que estava já por alguns momentos com uma certa má disposição, que algo a incomodava, percebeu que não se alimentava a horas e o convite que a enfeitiçava com o perfume do guisado fez com que cedesse sem questionar.
Teria cerca de trinta pessoas circulando por aquela enorme casa. Ninguém a observava como uma estranha. Por outro lado, eram muito simpáticos e acolhedores. A senhora que a recebeu chamava-se Amélia, alguns minutos depois sentou-se do seu lado sorrindo de uma forma que certas pessoas sorriem, tá nas suas naturezas serem o que são e mesmo os piores trajetos que a vida por vezes impõe, não consegue mudar a natureza que as faz sorrir quando por vezes querem chorar.
- Minha criança! Pareces perdida, queres falar sobre isso?
- Eu acredito que todos temos um propósito no mundo, um motivo para estarmos aqui, mas não consigo encontrar o meu!
- Por vezes tentamos forçar o raciocínio, quando todas as respostas estão no coração. És jovem, não devias encontrar propósitos. Tens de viver somente, a vida e os propósitos hão de se revelar com o tempo. No tempo certo.
- Não estou certa do tempo que tenho!
- Ninguém está! O segredo está em viver e deixar o tempo correr!
- Sim mas no meu caso…
Susteve as suas palavras, não sabia até que ponto a sua história ou a ausência de uma poderia parecer estranha…
- Porque não voltas para casa? Pelo teu aspeto não pareces alguém que ande pela estrada. Deves ter alguém desesperado à tua procura.
- Eu não me recordo de nada! Como é que eu posso saber se alguém me procura e de onde venho?
- É simples, tens uma esquadra de polícia a dois quarteirões daqui. Se foste dada como desaparecida deverão ter um registo.
Assentiu em concordância e levantou-se lentamente…
- Obrigado pela sua hospitalidade, vou tentar descobrir alguma coisa.
Ela abraçou a Amélia sentindo um certo conforto naquele abraço, o contacto humano era um estranho despertar de emoções. Afastou-se lentamente acenando-lhe.
Contornou as pequenas ruelas saindo novamente na avenida principal, existiam dois mundos dentro daquela cidade, aquele pequeno subúrbio e aquela estrada recheada de montras, prédios, cartazes e pessoas, centenas de pessoas elegantes que circulavam seguindo as suas rotinas. A esquadra estava junto a uma esquina bem visível. Aproximou-se timidamente, cruzou-se com dois agentes que passaram por ela despercebidos. Alguns metros mais a frente outro agente a observava curioso, continuou passando por ele e entrou dentro do edifico. Várias pessoas trabalhavam entre papéis, telefones e computadores, na maioria fardados, outros pareciam civis. Dirigiu-se a um enorme balcão, do outro lado um agente jovem sorriu-lhe.
- Precisa de ajuda menina?
- Sim… Queria tentar descobrir se existe alguém a minha procura. Perdi a memória. Não me recordo nem do meu nome.
Intrigado e desvanecendo lentamente o sorriso o agente acompanhou-a a um corredor onde pediu-lhe que aguardasse. Alguns minutos passados foi encaminhada para outro agente, um homem dos seus cinquenta anos, sentou-se junto a uma secretária. Entre vários papéis tinha o retrato do agente com a esposa e duas filhas, a imagem tocou-a, mas logo retomou a sua atenção.
- Já procuraste nas tuas roupas se tens algum documento, algum contacto?
- Os bolsos estão vazios.
- Muito bem, eu vou tirar-te as impressões digitais, uma foto de rosto e outra de perfil. Se quiseres um café quente podes usar aquela máquina, isto vai demorar um pouco vou correr todas as imagens de pessoas desaparecidas nas últimas 48 horas, parece fácil mas infelizmente são mais do que imaginas. Pode ser que tenhamos sorte, e entretanto vou emitir um ficheiro com os teus dados e partilhar com as outras esquadras. Há de se conseguir alguma coisa. Sempre se consegue, tem é de se ter paciência.
- Obrigado.
E assim esperou, esperou e adormeceu estendida naquele banco desconfortável até que as dores quebrassem o sono contornando a embriaguez do cansaço. O agente de nome Carlos estava de pé diante de si, lá fora o sol tinha-se posto dando lugar a uma noite fria e gélida. A falta de conforto parecia a melhor alternativa que tinha perante a escuridão das ruas agora um pouco mais desertas.
- Lamento, verifiquei todos os casos atuais de desaparecimento nas últimas 72 horas, não existe ninguém à tua procura. São agora 22 horas tenho de ir embora, suponho que não tenhas onde ficar certo?
- Suponho que não.
- Tem uma pensão do outro lado da rua, se quiseres posso-te alojar lá e retomamos amanhã cedo. Se te sentires animada, podes sempre passar aqui a noite num dos computadores, vendo casos mais antigos. Vão andar alguns agentes por aí qualquer coisa que precises, podes pedir-lhes.
- Não acredito que consiga dormir com tanta coisa em que pensar, fico aqui.
- Muito bem, se não tiveres sorte pode ser que amanhã já tenhamos notícias.
Assentiu com um leve sorriso, tinha tido sorte com as pessoas que cruzaram o seu caminho nas últimas horas, já era algo de valor. Pesquisou vários casos sem sucesso, ao fim de quarenta minutos os olhos estavam cansados e resolveu sair um pouco. Mergulhou naquela noite escura e fria. As respostas que precisava, a busca pela verdade, ninguém desde mundo lhe podia dar.
Como se alguém escutasse a voz do seu coração uma criança que estava sentada no passeio envolta em trapos dos seus doze anos de idade dirigiu-lhe a voz.
- Os mistérios do mundo são tão pequenos quando o ser humano se debruça sobre os mistérios da sua alma, da sua própria existência. No entanto contra todas as possibilidades sem qualquer fundamento ele insiste na procura da verdade.
- Não é o certo? Buscarmos sempre a verdade?
- A verdade sem conhecimento e sabedoria é apenas uma ideia. Pode ser manipulada e transformada segundo intentos, no entanto aquele que conhece a verdade e caminha na sua luz, esse sim desvenda todos os segredos.
- Quem és tu? Para além de alguém que conhece várias gerações humanas e o demais que não me recordo.
- A humanidade só me conhece no fim da sua jornada, alguns tendem a chamar-me de morte. Eu considero uma palavra forte e negativa. Não sou eu que tiro a vida, apenas aguardo por todos quando a mesma chega ao fim, sou um guia, num novo mundo, numa nova vida.
Não vais encontrar ninguém à tua procura porque já ninguém te espera encontrar com vida. Como aguardei muitos, um dia vim por ti também, uma alma destroçada, cheia de remorsos.
- Porque motivo não me recordo de nada?
- Quanto vieste ter comigo pediste que te apagasse o passado, assim o fiz e mesmo sem o registo de uma vida, a tua alma quis regressar.
- Se eu recuperar a memória poderei saber o que busco?
- Poderás arrepender-te também de buscar seja o que for.
- É o único caminho!
Aquela criança suspirou durante breves momentos, mostrando o primeiro sinal de incerteza sobre o que iria fazer…
- Muito bem, fecha os teus olhos!
Como uma luz que clareou a sua mente a memória retornou, e ela caiu de joelhos em pranto e desespero perante o terror da verdade…


 
Continua…


(Joel Flor)
 

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Jornada



Deleita silenciosamente os seus ossos cansados no velho cadeirão da sala. A lareira que teria levado algumas horas para alcançar o triunfo do fogo, esbanjava agora o consolo do seu calor como um abraço afável onde todos os percalços do dia se dissolvem graciosamente sobre as chamas.
O seu corpo permanecia imóvel, o único sinal de vida que expressava eram os olhos que viajam pelos cantos da casa, pelas recordações em cima das prateleiras, por entre livros, móveis, fotografias de rostos que permaneciam apenas por entre o perfume amargo da saudade. O silêncio trazia de volta as recordações e como ela detestava aquele silêncio. Poderia um vendedor de TV por cabo entrar de rompante mesmo que o velho televisor avariado há oito anos encurtasse a sua visita. Poderia um parente distante aparecer junto à porta com uma mala entre os dedos. Podia na pior das hipóteses cair uma tempestade, talvez o som da chuva e do trovão a consolassem com a sua melodia, mas até a brisa da tarde descansava no seu recanto.
Esse era o problema do silêncio, quando ele absorve a nossa vida levando tudo e todos, o mundo e a natureza acabam também por se esquecer de nós, até que as nossas memórias morram connosco e a nossa história se desfaça entre as cinzas como se nunca tivesse existido. “Cinzas ao vento”, este era um dos inúmeros pensamentos que a perturbavam.
Na história da sua vida, os três filhos teriam partido para a guerra e não voltaram, o seu marido teria adormecido para sempre na sua cama, num sono profundo e pacífico. Um homem de consciência tranquila sobre o legado que teria dado aos filhos e da história que teria deixado para trás.
Parte dela teria morrido com eles e a pessoa que ela foi em tempos era apenas uma sombra. A casa que em tempos era inundada pelos sorrisos das crianças que cresciam aos seus pés. Dos churrascos de domingo dos amigos que despareceram com o tempo. Essa melodia graciosa e acolhedora, o som da vida estava presente naqueles retratos, ela permanecia como a última nota de uma música. Como a última frase de um romance com um final óbvio.
O som de um veículo surge no horizonte, o seu vulto movimenta-se por entre as persianas de madeira contornando a luz do por do sol quase extinto. O silêncio è rompido pelo som das rodas que se sustém junto à sua porta, mantendo-se apenas o som de um motor que trabalhava como um relógio.
Ela teria tido aquele mesmo sonho vezes sem conta, que um veículo trouxesse as suas crianças de volta para os seus braços, até que o sonho morreu com o fim da esperança.
Levantou-se dolorosamente sobre os seus ossos cansados apoiando-se sobre as suas pernas. Escutou vozes do lado de fora. O ronco do motor se afastou lentamente à medida que um homem batia à porta. Aproximou-se exausta tentando reconhecer os traços que se desenhavam por entre as cortinas da porta. Sem pensamentos prévios foi recebida pelo sorriso do seu filho mais novo, estava envelhecido, teria permanecido durante dez anos como prisioneiro de guerra. Acolheu-a nos seus braços durante alguns minutos até que entraram os dois e conversaram durante horas.
Era tempo de escrever uma nova história, de seguir um novo percurso. Existem coisas na nossa vida que parecem incontornáveis, fins que parecem previsíveis e sonhos que parecem maldições, mas num universo em constante movimento a única certeza que é certa, é não termos certeza de nada. Que devemos acreditar até ao último segundo. Que devemos manter sempre acesa, a luz na escuridão.
 
 
 
(Joel Flor)