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domingo, 9 de dezembro de 2012

Em busca do horizonte Azul – Parte IV


                Suspirou dolorosamente o ar contido naqueles pulmões destruídos pelo oxigénio contaminado. Observava o ambiente ao seu redor certificando-se que estava de volta à sua dura realidade, que teria regressado intacto da sua viagem no tempo. Apesar dos males, sentia-se razoavelmente bem. Foi então que o misterioso viajante que seguia as suas pisadas aproximou-se com carregando algo preso entre os seus dentes afiados. Uma lebre morta, cujo sangue permanecia ainda quente desprendeu-se do seu maxilar junto á fogueira. O animal observou a presa e afastou-se indiferente regressando ao seu descanso. Jason observava-o inquieto e incrédulo. “Estarei atingindo algum estado de insanidade? Ou será que o suposto inimigo dos homens, filho da natureza me trouxe o pequeno-almoço?” Divagava ele entre pensamentos perdidos. Eram tempos difíceis, a comodidade de questionar a sorte era um luxo nesses mesmos tempos. Reatou a fogueira e removeu a pele do animal morto. Era difícil encontrar animais, quase todas as árvores tinham desaparecido e o meio de subsistência fundamental a qualquer espécie, a água, tinha secado. As possibilidades de um lobo faminto partilhar o primeiro alimento de semanas com um ser humano era estranha. Completamente tresloucada e impossível.
                - Confessa lá! Estás a ver se me engordas até o Natal? Na falta de um peru, um humano com o coelho no estômago serve para fazer a festa.
                O animal olhou-o pela primeira vez diretamente nos olhos, o seu olhar era poderoso e irrepreensível. Jason entendeu-o como um sinal que devia calar-se e aproveitar o que a vida lhe estava a dar: Forças para continuar o seu caminho.
                Para um homem de estômago vazio de vários dias, carne de coelho mesmo sem tempero, parecia um banquete digno de um rei. Comeu deliciando cada momento daquela carne suculenta e fresca que se derretia por entre os dedos e dentes, estava de tal forma embriagado naquele momento que se sentiu subitamente envergonhado por não partilhar com o herói do dia, no entanto o lobo não mostrava interesse. Tentou aproximar-se do animal mas o mesmo devolveu-lhe um olhar que o susteve. Os seus olhos falavam por ele: “Cuidado, eu não sou um cão, se me tocares com essa mão imunda ficas sem ela!” Talvez não desta forma agressiva mas por certo algo parecido, pensou. Optou então por respeitar o espaço do seu novo amigo. Desejava beber água para completar aquele alimento, mas teria de procura-la sem qualquer certeza de a encontrar. Optou por ser grato pelo que tinha que era mais do que ontem, arrumou a sua mochila e retomou a sua caminhada, rumo ao sul. O lobo observou-o durante alguns segundos, depois levantou-se e seguiu-o.
                A estrada era desenhada por pedras e pó, algumas ruínas projetavam a existência de uma civilização, mas o estado das coisas impossibilitava um homem comum de reconhecer os lugares, a única certeza que tinha era que deveria seguir para sul, e sul era aquela estranha sensação de estar a descer uma colina, o instinto era a sua única guia. Ou talvez a sua obsessão fosse tão forte, que o coração possuía o poder de carregar o corpo até ao seu destino.
                Mesmo no fim de todos os tempos um ser humano perdido no mundo conseguia definir um trajeto, mesmo lutando contra todas as hipóteses a simples viagem mantinha-o vivo. No entanto não conseguia deixar de pensar no animal que o seguia, qual seria o seu incentivo. O egoísmo e a irresponsabilidade da humanidade destruiu tudo aquilo que ele teria conhecido, o seu mundo não existia mais, apenas uma sombra, uma lembrança. O que poderia motivar a natureza a continuar, a sobreviver. Eram perguntas paras as quais ele não possuía respostas.
                O animal caminhava a pouco mais de seis metros de distância, por mais que fosse se adaptando à sua presença permanecia incrédulo.
                - Não me admira que a tua espécie ainda ande por aí. Sobreviveram à Era do gelo há 300 mil anos atrás. Sobreviveram à chegada das colonizações humanas! Sobreviver está-vos no sangue. Pelo porte e pelo a coloração do pelo, acredito que seja umas das espécies descendentes do Canadá e do Alasca. Espécies tais, que pelo que julgava ter lido, mantém a distância dos homens.
                O lobo permanecia caminhando ignorando o tema da conversa. Fosse qual fosse a sua missão, falar não fazia parte do plano…
                - Sim, se fosse outro idiota qualquer já te teria confundido com um pastor alemão e teria ficado sem uma das mãos como recompensa.
                Pensas que foi a guerra que matou a maior parte das pessoas? Não, foi a ignorância, o mundo era governado por meia dúzia de pessoas inteligentes, os restantes eram apenas animais como tu, sujeitos ao conforto do progresso do mundo. Gostavam de conduzir um carro, por isso já não sobreviviam sem eles. Compravam comida feita, já não sabiam cozinhar. Quanto mais encontrar num deserto a planta certa, com a vitamina certa, que pudesse mante-los vivos por mais algum tempo. Passei a minha infância e adolescência a ser chamado de fanático por viver agarrado aos livros, viver uma vida não era suficiente, nunca foi. Tinha de saber como é que o mundo funcionava. Foi por isso que quando o mundo deixou de funcionar eles morreram todos, e eu continuei sobrevivendo as custas do meu conhecimento… Não entendes nada do que digo pois não?
                O lobo bocejou novamente…
                - Ok, entendes mas não estás interessado! Então e tu? Alguma história interessante? Algum hobbie para além de caçares lebres para humanos esfomeados?
                Jason parou subitamente, uma figura se desenhava no horizonte...
(Joel Flor)

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Em busca do horizonte Azul - Parte III

           Despertou por entre a luz ténue de um amanhecer cinzento que resplandecia pequenos raios de luz por entre as cortinas de fumo. Por mais que parecesse o fim de todos os tempos, um novo dia era sempre um novo dia. Procurou pelo lobo ao seu redor mas as restava apenas as marcas no chão de onde havia passado a noite. Estava em dúvida se teria mesmo estado ali, ou se seria apenas parte do seu sonho, da sua noite longa e tranquila.
                Estava bastante fraco, falta de alimento e água limpa. Os seus pés em sangue eram fruto de uma longa caminhada por aquele chão que em tempos foi o enorme continente americano. A terceira guerra mundial não tinha corrido muito bem para a humanidade e mãe natureza, a superfície da terra tinha mudado, oceanos tinham secado e a radioatividade que dizimou sessenta por cento da população mundial tinha-se levantado e manchado o céu de cinzento. Alguns cientistas diziam que iria levar algumas décadas para que a radioatividade começasse a dissipar. Mas em pouco tempo os sobreviventes deixaram de contar os anos, o ser humano regrediu ao seu estado mais selvagem, matavam por uma simples lata de sardinhas fora do prazo, ou outro qualquer recurso que pudesse melhorar a condição de alguém por mais um dia. No entanto a maior causa de morte era sem dúvida o suicídio. Havia rumores de que a radioatividade cobria toda a América do Norte, mais de metade da América do Sul, a Europa Ocidental e o Norte do continente Africano. No entanto os rumores já estavam gastos e velhos. Ninguém teria vindo em busca de sobreviventes, e a esperança dos poucos que lutavam para sobreviver acabou também por morrer.
                Tudo isto tinha permanecido ausente da sua mente, como um livro fechado que a memória não queria visitar. Esta era a história do mundo que em tempos conheceu, no entanto a sua história era a sua força que o fazia caminhar por aquele horizonte sem fim, em busca de algo que mais ninguém procurava. Nos calabouços da sua alma ele recordou o seu nome e sua história: “Jason MCcalen” proferiu ele entre murmúrios…
                A sua memória conduziu-o a poucos anos atrás. Uma nação em pânico, um aeroporto caótico, multidões atropelando-se descontroladamente num cenário aterrador. Mas subitamente o mundo e o seu ruído pararam naquele momento em que ele as segurou nos seus braços, uma mulher e uma criança de quatro anos…
                - É melhor correrem para o embarque. O pouco controlo que há vai ceder em breve, depois duvido que qualquer avião consiga decolar. – Comenta Jason.
                - Sabes que eu te amo, não sabes?
                - Sim Cíntia, eu também te amo, prometo que logo que possível vou ter convosco.
                Beijou a sua filha Sophie apertando-a nos seus braços e encaminhou-as para o portão de embarque. Viu las afastarem-se, como se o seu coração tivesse parando lentamente. Tentou segurar as lágrimas, pelo menos até que elas desaparecessem por entre as portas. No entanto Cíntia voltou-se uma última vez e sorrindo gritou-lhe: “Vemo-nos no Rio de Janeiro”. Aquele foi o último segundo, o seu último sopro de vida e tragicamente também o seu último sol dourado. No fim daquela tarde as bombas caíram do céu e mudaram brutalmente a face da terra.
 
(Joel Flor)

Em busca do horizonte Azul - Parte II

O animal aproximava-se lentamente, movia-se sem querer passar despercebido, descontraído e de focinho levantado. Talvez desse a sua presa por vencida pensou o homem que permaneceu imóvel. Estava fraco, com ele também a sua capacidade de reagir. A pouco mais de cinco metros o lobo susteve o passo e deitou-se confortavelmente sobre a areia, como um viajante que alcança o seu destino, repousando a sua cabeça sobre as patas. O homem permaneceu imóvel e atónito durante alguns segundos, até que se sentou sobre o chão deambulando entre o cansaço e o delírio.
                - Provavelmente se sente tão só e perdido quanto eu! – Indagou ele…
                O lobo permanecia tranquilo em repouso ignorando os delírios do seu anfitrião. Aquele era o seu reino de cinzas, ele, estava só de passagem.
                - São criaturas fantásticas os lobos, dizem… Diziam, que seguiam as suas presas durante dias por quilómetros de distância, no entanto nunca ouvi de um que se aproximasse tanto apenas pela companhia. O mundo está mais silencioso é verdade. Até a natureza transformou os seus costumes.
Estou intrigado, como é que sobreviveste? Há dias que não vejo homem ou animal, ou poça de água que sacie um miserável inseto. A grande guerra deu mesmo cabo deste mundo.
                O animal bocejava entediado recostando-se novamente por entre as patas…
                - Perdoa-me, não tenho com quem conversar há algum tempo. As poucas pessoas com quem cruzei na estrada estavam loucas, nada mais do que mortos ambulantes. Talvez esteja lentamente a seguir o mesmo rumo. Tenho o estômago dolorido de tantos dias sem comer, se estás à espera que eu morra para fazeres o banquete, és capaz de ficar desiludido.
                O homem moveu-se dolorosamente, juntando, folhas secas, restos de arbustos queimados e alguns pedaços de madeira ressequida. Amontoou-os e incendiou num fogo brando, regozijando-se confortavelmente na sua criação.
                - Isto vai manter-nos quentes ao longo da noite. Até amanhã! A menos que decidas comer-me durante a noite.
                Deitou-se por entre os seus trapos sem qualquer temor, o conforto do fogo abraçou-o, consolando as tristezas e carregando-o a um sono profundo. Viajou por entre tempos esquecidos, o sol ainda brilhava por entre as persianas da sua janela. O céu tinha um tom laranja, sobre os contornos do sol nascente. Sentia o calor, não do sol mas de um corpo. Aquele olhar meigo fixava-o, por entre aquele rosto pintado à mão. Uma memória comum a qualquer ser humano que na ignorância amaldiçoe o seu destino pensou. No entanto naquele lugar deserto onde todos os sonhos arderam, as suas memórias eram o mais próximo do paraíso que conseguia estar. Eram o verdadeiro alimento da sua alma.
 
(Joel Flor)

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Em busca do horizonte azul – Parte I

              Permaneceu… Observando aquele vasto horizonte perdido entre ruínas, coberto por um céu pintado de cinzento. A ausência de cor e vida transformava o passado do seu mundo numa memória que se afundava lentamente no poço do seu conhecimento, a sua vivência desintegrava-se a cada suspiro contido.
                A marca das suas pegadas desfazia-se lentamente sobre o sopro daquele vento mudo. Era indiferente, não havia caminho de regresso, nem nada a que regressar. Num só golpe evaporou-se o passado e o futuro. A sua história? Teria de reescrevê-la sobre as cinzas, não havia o que entender ou escolher, tinha apenas de aceitar. Continuar a viver na ausência da vida, ou render-se as consequências do seu tempo. Ninguém iria recordar o seu nome, nem a sua força, a história não iria registar a sua existência. Restava-lhe apenas a sua consciência.
                Então sentou-se sobre uma rocha lisa, observando o seu reflexo sobre um caco de espelho partido que ofuscava-o cintilante entre as cinzas como um farol na escuridão. Por entre o brilho de um reflexo contemplou o resto de um homem, um homem que teria conhecido em tempos, numa outra vida, num mundo distante. Uma dor profunda afligiu-o num pranto contido. Ajoelhou-se colhendo aquele caco de vidro espelhado e encostou-o ao seu pescoço, preparando-se para destruir o que restava da sua vida.
                - Lamento muito Cíntia. – Profere ele entre lágrimas.
                Antes que terminasse observou a pouco mais de cem metros o lobo cinzento que o seguia a vários dias. Provavelmente aguardando impaciente que ele morresse proporcionando assim algum alimento as demais criaturas que vagueavam a terra.
                O lobo avançou caminhando lentamente na sua direção, dando-o talvez como um dado adquirido. Pelo menos um dos dois tinha certeza de alguma coisa. A sua mente questionou-se sobre a diferença entre homem e animal. Ele possuía consciência das coisas o animal apenas o seu instinto de sobrevivência, devia estar um passo à sua frente, mas no entanto ali estava ele a ser estudado como um rato de laboratório. Talvez fosse mais fácil não ter memória nem sonhos, ter somente objetivos a curto prazo como o seu companheiro de viagem. O seu objetivo era sobreviver o dia de hoje. Para que o objetivo fosse comum, apenas um deles iria continuar a sua viagem.
                Naquele momento ele afastou o caco de vidro do seu pescoço, e decidiu que naquele dia em que escrevia a ultima página da sua vida, naquele dia cinzento, ele queria viver.
 
(Joel Flor)

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

O som da vida - Parte I

            No ápice da montanha de gelo um sol morno se erguia por cima daquele mundo frio e silencioso, Os seus finos raios recortavam em camadas de luz os montes que se estendiam por entre o gelo até aos confins da terra.
Suspiros e murmúrios quase extintos ecoavam por entre o vento contando histórias de passados, sonhos que produziram lembranças num momento sublime que os meros mortais conhecem como vida.
O seu espírito vagueava sobre aquela paisagem sem compreender a sua natureza a sua existência, desconhecia o seu nome o seu princípio e o seu fim, sabia de certa forma que o seu corpo estava morto, não conseguia produzir qualquer som mas meditava num vazio, não sentia tristeza ou alegria ou qualquer emoção humana. Tentava recuperar qualquer lembrança de uma existência no entanto todos o dias lhe era dado a conhecer somente a sua solidão.
            Sabia de uma forma incompreensível que a determinado momento por um indefinido tempo teria sido alguém, teria vivido outra vida. A sua natureza era sublime, perfeita, mas o seu desconhecimento de todas as coisas e a sua solidão sobre aquele universo levavam-no a desejar a simplicidade de uma vida sujeita a dores e tormentos num mundo caótico em constante movimento.
            Então desejou, desejou de uma forma tão poderosa ser alguém, sentir, tocar, correr descalço sobre a terra húmida, sentir o toque da chuva sobre a pele, o sopro do vento a agitar os seus cabelos que, o universo atendeu ao seu pedido. Sentiu-se arrebatar como que aspirado às profundezas da terra e num breve instante despertou, como se há muito tivesse adormecido.
            Estava deitado sobre capim, sentia calor, ao fundo escutava vozes compulsivas e incompreensíveis de crianças que expressavam as suas naturezas alegres e rebeldes. O som parecia estranho mas ao mesmo tempo natural, quase óbvio. Levantou-se lentamente observando as suas mãos finas dedos compridos e delicados, correu-os pelo seu rosto. O toque era suave e transmitia uma sensação de conforto. As pernas balançavam como se nunca tivessem antes sido usadas. Cabelos loiros voavam de uma forma rebelde diante dos seus olhos. Caminhou com alguma dificuldade até à beira de um rio, as águas estavam tranquilas e transmitiam nitidamente a imagem do seu reflexo. Ele percebeu que na verdade era “Ela”, uma mulher bela, elegante de traços finos e esbeltos estendia-se à sua frente, desconhecia as suas vestes que pareciam apropriadas e desconhecia a sua imagem, quase certa de que em outra vida nunca teria sido a sua.
            Caminhou lentamente por entre as ervas molhadas que abraçavam o rio, observava agora as crianças de perto que a ignoravam por completo, perdidas nos seus afazeres, ausentes do complexo mundo exterior dos adultos.
Um homem observava-a de forma curiosa, apercebeu-se nitidamente da diferença entre géneros e das suas atrações, reconheceu a sua própria beleza e o efeito que exterior que produzia aos demais. Estava completamente perdida no tempo e no espaço e até que a natureza do seu retorno se revelasse teria de permanecer discreta, tentando ocultar o efeito da sua aparência enquanto desvendava o puzzle da sua existência.
Tentou afastar-se do contacto humano caminhou durante longas horas por campos, estradas, vilas, no entanto apenas se conseguiu sentir invisível entre as multidões das cidades maiores, onde todos eram estranhos entre eles.
Uma coluna de prédios estendia-se pela avenida onde os carros circulavam em dois sentidos, no passeio centenas, talvez milhares de pessoas caminhavam despercebidas de si mesmas e do mundo. Aconchegou-se num banco de costas para um pequeno jardim e voltada para a avenida. Com um capuz cobria o seu rosto ocultando os longos cabelos entre o blusão que trazia vestido. Tentava construir informação coerente, mas os seus fundamentos não tinham base. A sua história não tinha um ponto de partida e dos dois mundos que conhecia teria dúvidas de qual seria verdadeiramente o real.
Foi então que a voz de um homem que surgiu do nada sentado do seu lado se pronunciou…
- É impressionante não é?
- Desculpe? – A sua voz intrigou-lhe mais do que a pergunta que lhe dirigia o estranho, tocou lentamente nos seus lábios como se pudesse segurar as palavras com os dedos. Queria comunicar mas os argumentos não existiam.
- Refiro-me ao modo como circulam, perdidos em rotinas curtas obcecados por projetos que nunca viram a existir, numa luta constante contra a incerteza de um tempo, o tempo que lhes é concedido neste mundo.
Ela soube naquele momento que a aquele estranho possuía todas as respostas, que de certa forma também ele era parte de algo que transcendia a vida. Queria interroga-lo com centenas de perguntas mas a sua mente não as produzia. Foi então que se focou na questão principal e prosseguiu…
- O que sou eu?
- Foste em tempos, noutros tempos um deles.
- E agora?
- Não me perguntes a mim, foste tu que questionaste a tua origem, rejeitaste a tua natureza por uma segunda oportunidade.
- Isso acontece com frequência, existem mais casos?
- Apenas com os que não estão em paz com eles próprios. Aqueles que deixaram assuntos inacabados entre os mortais. Ou os que precisam se redimir dos seus erros, e corrigir os seus passos.
- O que devo eu fazer?
- Deves aproveitar o tempo que te foi dado. Em breve irás retornar.
- Quanto tempo tenho?
- Muito pouco!
- Como é que sabes tudo isto? Quem és tu?
- Sou alguém que observou muitas gerações, que conhece a natureza humana, as suas virtudes e as suas fraquezas. O resultado da sua imaturidade e por outro lado a beleza da sua devoção à vida, o poder dos seus sonhos.
- Não sei por onde começar!
- Segue o som da música.
- Qual som?
Olhou para aquela figura mas a mesma já lá não estava. Tinha-se evaporado. Confusa, começou lentamente a escutar um coro que cantava vigorosamente um canto. Levantou-se e seguiu o som.
Estreitou-se por uma ruela estreita e esguia, cruzou-se entre alguns olhares de residentes locais que estranhavam a sua presença até que estacou junto de um enorme portão em arco que estava aberto, de dentro ouvia-se um grupo de mulheres que cantava de uma forma virtuosa um canto religioso. Enquanto se apoderava daquele som que estremecia aquela sua natureza sentiu uma mão sobre o seu ombro. Voltando-se uma mulher de cor, de meia-idade sorria-lhe.
- Entra criança, vamos servir o almoço.
Denotou que estava já por alguns momentos com uma certa má disposição, que algo a incomodava, percebeu que não se alimentava a horas e o convite que a enfeitiçava com o perfume do guisado fez com que cedesse sem questionar.
Teria cerca de trinta pessoas circulando por aquela enorme casa. Ninguém a observava como uma estranha. Por outro lado, eram muito simpáticos e acolhedores. A senhora que a recebeu chamava-se Amélia, alguns minutos depois sentou-se do seu lado sorrindo de uma forma que certas pessoas sorriem, tá nas suas naturezas serem o que são e mesmo os piores trajetos que a vida por vezes impõe, não consegue mudar a natureza que as faz sorrir quando por vezes querem chorar.
- Minha criança! Pareces perdida, queres falar sobre isso?
- Eu acredito que todos temos um propósito no mundo, um motivo para estarmos aqui, mas não consigo encontrar o meu!
- Por vezes tentamos forçar o raciocínio, quando todas as respostas estão no coração. És jovem, não devias encontrar propósitos. Tens de viver somente, a vida e os propósitos hão de se revelar com o tempo. No tempo certo.
- Não estou certa do tempo que tenho!
- Ninguém está! O segredo está em viver e deixar o tempo correr!
- Sim mas no meu caso…
Susteve as suas palavras, não sabia até que ponto a sua história ou a ausência de uma poderia parecer estranha…
- Porque não voltas para casa? Pelo teu aspeto não pareces alguém que ande pela estrada. Deves ter alguém desesperado à tua procura.
- Eu não me recordo de nada! Como é que eu posso saber se alguém me procura e de onde venho?
- É simples, tens uma esquadra de polícia a dois quarteirões daqui. Se foste dada como desaparecida deverão ter um registo.
Assentiu em concordância e levantou-se lentamente…
- Obrigado pela sua hospitalidade, vou tentar descobrir alguma coisa.
Ela abraçou a Amélia sentindo um certo conforto naquele abraço, o contacto humano era um estranho despertar de emoções. Afastou-se lentamente acenando-lhe.
Contornou as pequenas ruelas saindo novamente na avenida principal, existiam dois mundos dentro daquela cidade, aquele pequeno subúrbio e aquela estrada recheada de montras, prédios, cartazes e pessoas, centenas de pessoas elegantes que circulavam seguindo as suas rotinas. A esquadra estava junto a uma esquina bem visível. Aproximou-se timidamente, cruzou-se com dois agentes que passaram por ela despercebidos. Alguns metros mais a frente outro agente a observava curioso, continuou passando por ele e entrou dentro do edifico. Várias pessoas trabalhavam entre papéis, telefones e computadores, na maioria fardados, outros pareciam civis. Dirigiu-se a um enorme balcão, do outro lado um agente jovem sorriu-lhe.
- Precisa de ajuda menina?
- Sim… Queria tentar descobrir se existe alguém a minha procura. Perdi a memória. Não me recordo nem do meu nome.
Intrigado e desvanecendo lentamente o sorriso o agente acompanhou-a a um corredor onde pediu-lhe que aguardasse. Alguns minutos passados foi encaminhada para outro agente, um homem dos seus cinquenta anos, sentou-se junto a uma secretária. Entre vários papéis tinha o retrato do agente com a esposa e duas filhas, a imagem tocou-a, mas logo retomou a sua atenção.
- Já procuraste nas tuas roupas se tens algum documento, algum contacto?
- Os bolsos estão vazios.
- Muito bem, eu vou tirar-te as impressões digitais, uma foto de rosto e outra de perfil. Se quiseres um café quente podes usar aquela máquina, isto vai demorar um pouco vou correr todas as imagens de pessoas desaparecidas nas últimas 48 horas, parece fácil mas infelizmente são mais do que imaginas. Pode ser que tenhamos sorte, e entretanto vou emitir um ficheiro com os teus dados e partilhar com as outras esquadras. Há de se conseguir alguma coisa. Sempre se consegue, tem é de se ter paciência.
- Obrigado.
E assim esperou, esperou e adormeceu estendida naquele banco desconfortável até que as dores quebrassem o sono contornando a embriaguez do cansaço. O agente de nome Carlos estava de pé diante de si, lá fora o sol tinha-se posto dando lugar a uma noite fria e gélida. A falta de conforto parecia a melhor alternativa que tinha perante a escuridão das ruas agora um pouco mais desertas.
- Lamento, verifiquei todos os casos atuais de desaparecimento nas últimas 72 horas, não existe ninguém à tua procura. São agora 22 horas tenho de ir embora, suponho que não tenhas onde ficar certo?
- Suponho que não.
- Tem uma pensão do outro lado da rua, se quiseres posso-te alojar lá e retomamos amanhã cedo. Se te sentires animada, podes sempre passar aqui a noite num dos computadores, vendo casos mais antigos. Vão andar alguns agentes por aí qualquer coisa que precises, podes pedir-lhes.
- Não acredito que consiga dormir com tanta coisa em que pensar, fico aqui.
- Muito bem, se não tiveres sorte pode ser que amanhã já tenhamos notícias.
Assentiu com um leve sorriso, tinha tido sorte com as pessoas que cruzaram o seu caminho nas últimas horas, já era algo de valor. Pesquisou vários casos sem sucesso, ao fim de quarenta minutos os olhos estavam cansados e resolveu sair um pouco. Mergulhou naquela noite escura e fria. As respostas que precisava, a busca pela verdade, ninguém desde mundo lhe podia dar.
Como se alguém escutasse a voz do seu coração uma criança que estava sentada no passeio envolta em trapos dos seus doze anos de idade dirigiu-lhe a voz.
- Os mistérios do mundo são tão pequenos quando o ser humano se debruça sobre os mistérios da sua alma, da sua própria existência. No entanto contra todas as possibilidades sem qualquer fundamento ele insiste na procura da verdade.
- Não é o certo? Buscarmos sempre a verdade?
- A verdade sem conhecimento e sabedoria é apenas uma ideia. Pode ser manipulada e transformada segundo intentos, no entanto aquele que conhece a verdade e caminha na sua luz, esse sim desvenda todos os segredos.
- Quem és tu? Para além de alguém que conhece várias gerações humanas e o demais que não me recordo.
- A humanidade só me conhece no fim da sua jornada, alguns tendem a chamar-me de morte. Eu considero uma palavra forte e negativa. Não sou eu que tiro a vida, apenas aguardo por todos quando a mesma chega ao fim, sou um guia, num novo mundo, numa nova vida.
Não vais encontrar ninguém à tua procura porque já ninguém te espera encontrar com vida. Como aguardei muitos, um dia vim por ti também, uma alma destroçada, cheia de remorsos.
- Porque motivo não me recordo de nada?
- Quanto vieste ter comigo pediste que te apagasse o passado, assim o fiz e mesmo sem o registo de uma vida, a tua alma quis regressar.
- Se eu recuperar a memória poderei saber o que busco?
- Poderás arrepender-te também de buscar seja o que for.
- É o único caminho!
Aquela criança suspirou durante breves momentos, mostrando o primeiro sinal de incerteza sobre o que iria fazer…
- Muito bem, fecha os teus olhos!
Como uma luz que clareou a sua mente a memória retornou, e ela caiu de joelhos em pranto e desespero perante o terror da verdade…


 
Continua…


(Joel Flor)
 

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Lendas de Guerra - A unificação dos Reinos - Capítulo VII

- Capítulo VII –



Dois dias depois, por entre os bosques de Jak…

Rave movia-se por entre a natureza como se fizesse parte dela, difundia-se por entre a sombra das enormes árvores, o sol penetrava com dificuldade por entre os galhos espessos, numa natureza selvagem de arbustos e riachos num universo cheio de uma vida oculta que florescia na escuridão. Uma pequena torre se elevava por entre as árvores, onde um ancião habitava completamente isolado do mundo. Uma entrada secreta dava acesso a umas escadas que o guiavam ao topo. Rave não precisava ser discreto, algo lhe dizia que o ancião já o aguardava com a habitual caneca de chá silvestre. Entrando naquela pequena divisão sorriu-lhe apesar do velho não comtemplar sorrisos, teria nascido cego…
- O que te traz por cá, filho de Hazindor?
- Eu venho em busca de orientação. – Responde Rave entre suspiros.
- Reconhecer a falta da mesma, é uma rara prova de humildade nestes dias.
- Eu não quero ser o homem que fui. Será que existe algum caminho na minha vida que não requeira mais sangue?
- Se a vida que queres salvar for somente a tua: Existe sim, mas se vives em função de uma causa maior, o teu destino não pode ser alterado. Quer a busques ou quer ela bata à tua porta, a guerra irá sempre estar no teu caminho.
- Existem vários homens que julgam defender uma causa maior. Mas buscam apenas os seus interesses.
- Sim… Ainda bem que ainda existem homens como tu para travá-los. O dia que abandonares os teus princípios, o mal irá prevalecer.
Rave assentiu observando as longas árvores que se estendiam pela janela da torre num campo verde interminável…
- Obrigado! Tenho de ir agora.
- Eu tenho outra visita, ela queria muito se encontrar contigo, talvez o futuro que buscas seja aqui decidido hoje.
Rave colocou a sua mão sobre as espadas um tanto incomodado por alguém que se aproximava pelas escadas mas susteve o seu instinto por momentos quando a jovem mulher guerreira de cabelos dourados ondulados surgiu diante deles com o seu arco pendente sobre as suas costas juntamente com a aljava onde transportava as suas flechas…
- Eu sou a Lorya Cay, líder das arqueiras dos bosques.
- Arqueiras? – Questiona ele entre risos. - Isso não passa de um mito.
- Vivemos num mundo de pouca imaginação, quer queiras quer não todos os mitos são fundados numa verdade que muitos procuram ocultar.
- O que queres de mim?
- Eu sei quem tu és. O grandioso assassino de Hazindor!
- Noutra vida. Continuo sem saber quem tu és realmente.
Intrometendo-se o ancião tomou a palavra…
- Ela é quem diz ser. Existe uma lenda sobre a grande cidade esquecida, onde termina o reino de Vallars. Há muitos anos atrás, o senhor da cidade renunciou o domínio de Vallars sobre as suas terras. Esse senhor pretendia levantar um exército que enfrentasse o rei, investiram arduamente na construção de armaduras, espadas e escudos. O rei ao saber da sua audácia mandou os seus exércitos durante a noite, apanhou a cidade dormindo, mandou matar todos os homens e crianças que pudessem envergar uma espada, os números decretaram que mais de 6000 vidas foram tiradas, apenas as mulheres e suas filhas foram poupadas. Quando o rei regressou na semana seguinte para visitar os despojos da guerra a cidade estava vazia.
As mulheres pegaram em suas crianças e seguiram a estrada que as conduziam ao norte, o rastro desapareceu por entre os enormes bosques de Jak e nunca mais foram vistas, isto é o que a história registou. O que a lenda conta foi que dedicaram-se também à arte da guerra e tornaram-se em exímias arqueiras. Vallars nunca considerou a população feminina perigosa, esta foi a arma que usaram para crescer e formarem este exército em segredo ao longo dos anos. Dentro dos bosques são invencíveis, mas para atacar Vallars irão precisar de alguém que conheça todo o tipo de terreno, de um exímio mestre de guerra.
- Foram vocês então que atacaram os cavaleiros de Vallars com os selvagens de Kombalin, suponho eu. Segundo sei também, foi que tratava-se de uma pequena parte do exército, e que vocês mesmo atacando de surpresa um grupo de cavaleiros que não teve o devido tempo de vestir as armaduras, foram derrotados.
- Nós não permanecemos até ao final da batalha, a nossa existência tinha de permanecer em oculto até ao momento final.
- Digam isso aos selvagens cujos corpos continuam lá a apodrecer. Vallars sabe que os reinos do norte procuram uma unificação, sabe agora que possuem arqueiros exímios, de onde vieram não lhes interessa. Hazindor nem sequer assinou a sua participação e no entanto Vallars que iria ser invadida já está percorrendo os reinos do norte espalhando sangue e morte, sempre um passo à vossa frente. Os pequenos erros, que eles cometeram ao longo da história, foram devido à arrogância de alguns comandantes. O Anglus é diferente, eu conheço-o, ele é prudente, calmo, um verdadeiro arquitecto de guerra. Hazindor tem os melhores guerreiros à face da terra, mas à frente deles agora está um rapaz que é um insulto à nossa história e que de guerra pouco ou nada entende. Todos procuram vingança, e é por ela que os erros acontecem. Este é um jogo de poder, um jogo de reis, não uma disputa de amadores.
Permaneciam em silêncio sentindo o efeito das duras palavras de Rave ecoando com o peso de um destruidor de sonhos…
- Vieste até cá à procura de um novo caminho, o caminho revelou-se a ti, agora a escolha é tua meu filho. – Comenta o ancião sobre o olhar perturbado de Rave.
Suspirou como se tentasse colocar o mundo para fora dos seus pulmões…
- Se Vallars vier até nós eu combato do vosso lado, mas recuso-me a procurar a guerra em Vallars, do mesmo modo recuso-me a lutar pela ambição de lordes, luto apenas pelo povo. Estes termos não são negociáveis.
- Eu aceito-os. – Responde Lorya prontamente.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Lendas de Guerra - A unificação dos Reinos - Capítulo V

- Capítulo V –




Tom e Ned permaneciam exaustos em silêncio com os olhos vidrados sentados sobre um chão arenoso, aquecendo-se ao calor da lareira. Os corpos dos cavaleiros continuavam a ser removidos do campo. Ambos contemplavam o cenário horrível que se estendiam por vários hectares. Teriam perdido mais de duzentos soldados numa batalha que devia ter corrido doutra forma, mas o importante para quem não se preocupa com os números é que tinham ganho. A história seria o que quer que eles quisessem. Os mortos não iriam poder deixar os seus relatos. No entanto sobre Tom e Ned, ninguém iria precisar mentir.
Batedores foram enviados tentando procurar o rastro dos arqueiros que teriam abatido os cavaleiros no confronto, pela primeira vez na história os selvagens actuavam em conjunto com outra força, uma força desconhecida que recordava uma antiga lenda.
Os dois rapazes levantaram-se prontamente sobre a presença do comandante Anglus que surgiu diante deles…
- Meu comandante!
- À vontade rapazes! Estamos todos muito orgulhosos da maneira como vocês combateram naquela frente e eu não sou de paparicar ninguém. Mas já vi veteranos de guerra borrarem-se todos perante um cenário semelhante. Iria perguntar onde aprenderam a combater mas o teu sobrenome fala por ti.
- O meu sobrenome?
- Sabes ao menos quem o teu pai foi? O que ele fez por este reino?
- O meu pai ainda é! Eu sei quem ele é!
- Como eu disse… o que ele foi, não o que ele é.
Os jovens permaneceram em silêncio perante aquela afirmação repentina e inesperada, no entanto convicta. Tom sabia que o seu pai tinha sido cavaleiro como ele, e isso era tudo. Mas pelo que parecia estava prestes a descobrir algo mais.
- O teu pai foi um pioneiro na guerra para além das fronteiras. Ele liderou batalhões por todo o reino do norte e nunca perdeu uma batalha. Nem mesmo os assassinos de Hazindor conseguiram por um fim à sua vida. Os que tentaram morreram na tentativa.
O comandante falava de Ted MCcalan, com uma certa vaidade, um certo orgulho. Mas Tom recordava lentamente as histórias das atrocidades que teriam sido feitas por Vallars no norte, aldeias queimadas juntamente com mulheres e crianças. As acções que teriam unificado os reinos e gerado o ódio entre os povos. Nenhum exército teria alguma vez derrubado Hazindor, ou tomado o forte do lorde Murtosa em Essin. As vitórias teriam sido arrancadas sobre o sangue dos inocentes. Tom tentava ocultar o seu constrangimento ao seu comandante. Sabia que nem sempre devia dar atenção aos rumores e acreditava que conhecia melhor o seu pai do que Anglus.
- Obrigado comandante! Fico feliz por saber que somos de bom uso ao reino.
- Mantenham-se vivos. A cada passo que dermos agora estaremos cada vez mais longe de casa e mais no coração dos inimigos. Estes eram selvagens que nunca tiveram instrução decente de como manejar uma espada. Não é nada disto que iremos encontrar em Essin.
- Estamos cientes do perigo meu senhor. Daremos o nosso melhor!
- Ainda bem! Agora descansem, amanhã avançamos.

Pela noite sonhos perturbadores visitavam a consciência de Tom, sombras inquisidoras acusavam-no de assassinato perseguindo e atentando à sua vida. Escutava o grito dos inocentes sobre as espadas que se abatiam sobre eles. Desperta subitamente sobre suores num medo contido, medo tal que não teria sentido no campo de batalha, mas o visitava agora nos seus pensamentos. Tentou pensar em Kyla, a jovem com quem teria estado antes de partir para a guerra, de quem não teve oportunidade de se despedir e que daria tudo para voltar a vê-la. Envolto naquela última lembrança, naquele último toque, ele sentiu a calma o receber num abraço caloroso, deixando a escuridão e a inquietude para trás.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Conto "A Sombra dos Heróis"




Prefácio

No ano de 2004 terminava assim a minha primeira grande obra literária, de nome “Águias de Ferro” um livro que daria aproximadamente duzentas páginas com uma história fantástica e emocionante carregada de ficção e acção. Com o passar do tempo e com a maturidade que absorvi dos livros que me inspiravam, tornei-me um pouco mais exigente comigo mesmo e a hipótese de publicar este livro transformou-se numa ideia quase nula. Uma vez que as alterações teriam de passar pela estrutura, pelo tipo de linguagem, no tempo que esse processo me tomaria poderia escrever dois ou mais livros o que acabei no final por fazer.
            O conto “A sombra dos heróis” veio deste modo dar vida as essas personagens esquecidas que deixei no fundo de uma gaveta e talvez um pouco de inspiração para que um dia esse projecto tome um novo rumo e ganhe vida. Espero que apreciem este pequeno número de páginas que estarão ao vosso dispor.


Um abraço do amigo e escritor
Joel Flor




Parte um


                Matt não conseguia mais distinguir o verão do inverno, a noite do dia, o destino teria lhe dado a conhecer as estrelas que em criança tão fervorosamente venerava, deleitando-se nas suas próprias histórias. No século XXII, cresceu ouvindo lendas de uma guerra distante, que era travado no espaço entre a humanidade e uma nova raça. Felizmente, até ao momento um confronto na Terra tinha sido evitado. Mas a guerra permanecia e o seu fim não acenava para quem o procurava.
 Matt formou-se na academia militar. Com a idade de vinte e seis anos o seu primeiro nome era tenente, despediu-se dos seus pais e da namorada Christine e partiu para as estrelas. Após um ano no espaço, chegou a informação do paradeiro de um coronel destemido que teria se perdido entre a guerra juntamente com a sua elite, “A elite dos bravos” como era chamada, havia sinal de actividade num planeta vermelho num sistema inactivo sem vida, o inimigo de nome Arakuness, uma forma de vida inteligente e extraterrestre combatia outra forma de vida desconhecida. No entanto os radares não detectavam seres humanos no planeta. Não havia registo de confrontos internos entre Arakuness, eram diferentes dos homens, lutavam por um propósito final, e agiam sobre um comando apenas. A curiosidade dos líderes moveu o batalhão de Matt para o terrível destino desconhecido, em busca de um guerreiro que por si só, poderia alterar o curso da guerra.
                O enorme vaivém espacial aterrou sobre o planeta, um pelotão de quinhentos soldados emergiu do interior ao comando do Capitão Raines, a guerra tinha sido travada até ao momento a milhares de anos de luz da Terra nos últimos vinte anos. Raines um soldado em fim de carreira tinha sido um dos poucos que teria visto um Arakuness, o enorme exército humano teria sido quebrado por uma disputa de colónias e só agora começavam a preparar-se para reivindicar os planetas do sistema perdido. Da guerra restava apenas a lenda contada pelos poucos sobreviventes. Os restantes quinhentos nunca teriam visto um inimigo e alguns começavam até mesmo a duvidar da sua existência.
                Todo o mistério foi quebrado quando um grito aterrador emergiu entre os rochedos que se estendiam por todo o horizonte, um enorme Arakuness despertou sobre aquele fecho de luz vermelho que separava o céu da terra. Rapidamente ceifou seis vidas que não tiveram tempo de ver a morte. Uma quantidade enorme de fogo foi descarregada sobre aquele ser, quando o último tiro cessou o exército apercebeu-se que não se acolheu no silêncio anterior. O chão tremia sobre a terrível marcha dos Arakuness. Sem armas de fogo marchavam sobre os humanos com um único propósito, eliminá-los a todos.
                O pânico momentâneo foi fatal, os extraterrestres cercaram-nos por todos os lados. Num movimento inteligente quebraram as defesas e penetraram no coração do exército. Raines não teve oportunidade de criar um raciocínio, tinha sido arrastado para um confronto directo e desproporcional  à preparação dos seus soldados. Estava cada um por si contra uma força letal que desconheciam. Os soldados tinham uma curta margem de tiro e estavam a morrer rapidamente sem oportunidade de criar baixas no adversário que numa distância curta era praticamente indestrutível.
                Por cima da colina o grupo de homens observava-os através de um binóculo…
- Os Arakuness estão em confrontos!
- Confrontos contra quem? – Questiona o coronel Scott a quem procuravam durante todos aqueles anos.
                Segurando os binóculos um sentimento de espanto assoma-o…
                - É impossível!!!
                - O que se passa?
                - Vejo bandeiras da Aliança!
                Numa altura em que os seus soldados já preparavam canhões de longo alcance para quebrar a investida dos Arakuness um grito urgente de Scott interrompeu-os…
                - CESSEM FOGO! Preparem-se para combate directo!
                Os soldados trocaram um olhar inquieto e surpreso de leves segundos e apressaram-se a obedecer o coronel sem saber o que se passava. Scott montou sobre uma mota e liderou a marcha do seu pequeno exército de trinta homens. Todos tinham um ar marcado pela guerra. Tony era metade humano, metade robô, uma operação teria poupado a sua vida após ter sido estilhaçado por uma explosão, teria o feito mais forte do que antes, mesmo na distância que o afastava da humanidade, Scott sabia que ele o seguiria até a morte.
                Dum salto elegante Scott libertou duas lâminas longas que teriam sido desenhadas e projectadas somente para aquele propósito, caindo entre quatro Arakuness eliminou-os em segundos. Os restantes soldados penetraram no coração da batalha numa força letal. Matt estava estendido sobre o chão com um Arakuness colocando a pata sobre o seu peito, a enorme garra da criatura estava encostada ao seu pescoço pronto para o degolar. Antes que visse a sua vida expirar, o coronel Scott passou por eles em velocidade e cortou a cabeça daquela criatura. Trocou uma breve troca de olhares com o soldado e prosseguiu rapidamente contra a frente dos Arakuness. Matt permanecia sentado no chão incrédulo e sem forças. Teria crescido a ouvir as histórias de Scott e agora ali estava ele, no primeiro encontro ainda lhe salvava a vida. Após breves minutos Scott cessava a investida e num grito forte dava a ordem “RECON”, os soldados sabiam então que estava terminado. Observando os sobreviventes de Raines, Scott pronunciasse…
                - Quem é que está no comando?
                Por entre as sombras coberto de sangue, mancando de uma perna que iria perder brevemente Raines aproximou-se…
                - Capitão Raines, viemos de muito longe coronel, estamos aqui para levá-lo para casa.
                - Só demoraram quinze anos, estou pasmo!
                - Não tínhamos qualquer informação do seu paradeiro, o que lhe aconteceu?
                - Foi nos dado a ordem de guardar a estação espacial “New World” até que os reforços chegassem. Eu não questiono as minhas ordens, no entanto os reforços nunca vieram e nós fomos abandonados à morte. Depois de perdermos a estação a nossa nave despenhou-se neste planeta ficando inutilizável, temos tentado sobreviver até hoje, de tal forma que os Arakuness acabaram por perder o interesse.
                Raines registava toda aquela informação, incrédulo no que aquele pequeno número de soldados teria feito. Teriam salvo 349 homens pela sua intervenção quando na verdade eram eles que deveriam ser salvos.
                Matt observava-os um por um, teria visto o funeral de Scott nas televisões em que um caixão vazio descia à sepultura sobre as lágrimas de uma esposa e um casal de crianças. O dia em que o mundo chorou o único herói que havia conhecido.  A guerra teria lhe tirado tudo, teria dado a sua vida para a servir, mas mesmo assim na sua devoção a humanidade abandonou-o. Observava cada um dos soldados, não havia vida nos seus olhares, esperança ou qualquer sentimento. A estação New World tinha morrido com todos eles.
                Havia uma certa energia que rondava aquele planeta, o ar era pesado e segundo o médico de serviço, um homem não sobreviveria mais do que duas semanas inalando aquele oxigénio contaminado, não havia sinal de existência de água, muito menos de qualquer fonte de alimento. Quinze anos eram muito tempo para qualquer homem resistir de uma forma impossível. Cada elemento que rodeava Matt tornava aquele momento mais misterioso e difícil de decifrar.
                A noite desceu rapidamente de um momento para o outro, Raines e Scott conversavam em particular nos aposentos do coronel dentro do pequeno acampamento. Os soldados já se teriam recolhido no vaivém aguardando impacientemente partirem daquele mundo amaldiçoado. Matt observava o céu vermelho, pensou que fosse onde quer que estivesse o céu seria sempre o mesmo, no entanto ali estava ele, contemplando outro universo completamente distinto, tão longe de casa e de tudo o que tinha conhecido. O Capitão saiu da tenda do coronel indiferente. Scott saiu em seguida aproximando-se de Tony o cyborg.
                - O que vamos fazer? – Questiona Tony na sua voz metálica.
                - Não temos qualquer propósito aqui, esperámos todos os dias por essa nave. Agora que ela veio só nos resta partir.
                - Não sei, acho que não me enquadro muito no perfil de um habitante da Terra.
                - Lembra-te que os teus amigos estão contigo, não te abandonei antes, não será gora também. O que outros dizem e pensam pouco importa. Prometi que vos levaria todos para casa um dia, ninguém fica para trás.
                - Então e a guerra?
                - Nunca estivemos destinados a vencer. Lutarei no dia que ela bater a minha porta, no meu planeta. Não voltarei a procurá-la nos confins do universo.
                Aquele cyborg permaneceu em silêncio, não demonstrava emoções, apenas assentiu em concordância.
                Matt teria sido instruído para inspeccionar o campo de batalha uma última vez antes de partirem. Em busca de itens e armas que não convinham estar ao dispor dos Arakuness, caminhando lentamente entre aqueles corpos, denotou que os soldados humanos tinham desaparecido, excepto um que estava de pé observando o horizonte. Permanecia imóvel e emotivo, Matt aproximou-se rapidamente dele assustado perguntou-lhe o nome e o soldado respondeu calmamente…
                - Sargento Hank, tenente.
                - O que aconteceu sargento? Porque não seguiu as tropas como foi indicado a todos?
                - O que aconteceu aqui tenente está para lá de qualquer explicação que eu lhe possa dar. Eu senti a lâmina trespassar o meu coração, senti a vida expirar no meu último fôlego. Existe qualquer coisa neste mundo que nos impede de discernir o real do impossível. Não sei se estou a sonhar, ou se estamos mesmo vivos.
                Matt mantinha-se atónito e incrédulo aproximando-se do soldado segurou-lhe no pulso na esperança de lhe dizer “Se tens pulso é porque estás vivo soldado, agora vem que tens algumas explicações a dar.” Mas tal não aconteceu, um calafrio arrebatou o seu corpo quando procurou o pulso de Hank e não o encontrou.





Parte dois


                Matt apressou-se ao alcance do vaivém sem saber ao certo o que iria fazer ou que relatório iria transmitir a Raines. De uma coisa estava certo. Nunca deveriam ter pisado aquele planeta.
                Segurou Raines pelo braço forçando-o à sua atenção, Raines devolveu-lhe um olhar preocupante…
                - O que se passa?
                - Existe algo de errado aqui. Os corpos na colina desapareceram todos… e temos um soldado caminhando sem pulso, que supostamente teria sido dado como morto a algumas horas atrás.
                - Isso não faz qualquer sentido Matt. Onde é que está esse soldado?
                - O que não faz qualquer sentido é os homens de Scott terem permanecido vivos neste mundo durante quinze anos. Não faz sentido o Scott ter cinquenta anos e aparentar trinta.
                - Qual é a tua teoria sobre isto?
                - Eles nunca sobreviveram há batalha de New World, Raines. Este planeta é um planeta que dá vida a quem já não a tem. Esta energia estranha que sentimos mas não conseguimos ver alimenta a imagem daquilo que um dia fomos.
                - Talvez alimente apenas a ilusão daquilo que esperamos ver.
                - Isto não é uma ilusão. É real!
                - Vamos conversar com ele então, com o Scott.
                - Não acredito que isso seja prudente. Ele pode saber e pode ternos ocultado até ao momento, o coronel pode ser mais perigoso do que alguma vez imaginámos.
                - Perigoso ou não, ele salvou-te a vida, devias estar um pouco mais grato por isso.
                Matt silenciou-se sobre o peso daquelas palavras, no entanto não sabia qual seria as consequências de nada fazer. Não sabia até que ponto poderiam ou não estar envolvidos os Arakuness naquele fenómeno sobrenatural. Mas ele tinha de ter a certeza que o Scott estava vivo ou não. Tinha treinado a sua vida inteira para chegar até ele, não ia fracassar por falta de evidências. Ignorou o Raines e aproximou-se do compartimento onde Scott estava reunido com os seus homens, entrando sem se anunciar foi surpreendido por uma enorme lâmina encostada ao seu pescoço. Tony observava-o friamente desprovido de qualquer emoção.
                - Consigo ouvir o teu coração acelerado daqui. O que te traz a nós? – Questiona Tony.
                - Quero falar com  o coronel.
                - O coronel está ocupado, vais ter a viagem toda para falares com ele.
                - Talvez não.
                Scott levantou o seu olhar perante a audácia do jovem Matt…
                - Deixa-o Tony, esperem todos lá fora…
                Os soldados saíram sem questionar deixando-o a sós com Matt. Sem grandes cerimónias Scott questionou-o…
                - O que passa tenente?
                - Algo permanece na minha mente como uma agulha que me atinge o entendimento, cada vez que me questiono pelo facto de vocês estarem vivos. Ao fim de todo este tempo.
                - Onde é que queres chegar? A Aliança gastou milhões a ensinar-me a sobreviver, talvez simplesmente tenham tido sucesso.
                - Quando foi a última vez que escutaste o bater do teu coração?
                Scott olhou-o atónito e confuso, não fazia ideia das intenções de Matt que se surpreendeu a si mesmo também…
                - Tu não fazias ideia pois não?
                - Ideia do quê?
                Matt aproximou-se de Scott colocando-lhe a mão sobre o peito.
                - Que a muito que o teu coração parou de bater.
                Scott desviou o seu olhar pensativo tentando remexer no seu passado, estava confuso com tudo aquilo que lhe fazia sentido de uma forma assustadora.
                - É impossível!
                - Depois de tudo aquilo que pessoas como nós viram, simplesmente recuso-me a acreditar em tal palavra. A minha pergunta agora é: quais são as vossas intenções?
                Scott permaneceu em silêncio observando o seu compartimento, tinha um pouco dele em cada canto. O seu coração estava dividido pela saudade de um mundo de uma família que se mantinha numa imagem turva e da vida que se mantinha presente, dos homens que o acompanhavam pela vida e pela morte, e pelo elo que havia superado a morte.
                - Vocês não têm nada a temer de mim e dos meus soldados, nós vamos partir com vocês, se a tua teoria for verdadeira, supostamente é este mundo que nos mantém vivos. Se o abandonarmos supostamente algo deverá também acontecer.
                - Está certo, não digo que confio naquilo em que te tornaste, mas confio no passado que deixaste para trás, naquilo que um dia foste. A tua família também confia.
                Matt remove do seu bolso uma fotografia que carregava o rosto da esposa de Scott, o filho e a filha. Scott comoveu-se de imediato ao reconhecê-los…
                - Eles cresceram tanto!
                - A tua mulher esteve no teu funeral, mas sempre acreditou que um dia voltarias a entrar pela porta de casa como se nada tivesse acontecido. No dia em que embarquei ela entregou-me essa foto, para que tivesses a fazer o que quer que fosse, largasses tudo e voltasses para os seus braços.
                As lágrimas desciam lentamente a face de Scott percorrendo a sua pela marcada como a corrente de um rio, o seu olhar vazio pronunciava o resto da sua humanidade e da vida que o mantinha vivo. Era um homem forte e destemido, cujo universo poderia ser abalado somente através do amor que se mantinha aceso numa vela quase extinta.
                Soaram os alarmes através da planície que ecoava como um som morto. Scott e Matt precipitaram-se para o exterior da tenda. No horizonte a marcha dos Arakuness persistia em que nenhum deles saísse vivo daquele planeta.
                Raines não se preocupou em preparar uma defesa, encaminhou todos para o Vaivém, ninguém mais iria morrer naquele lugar, este eram os seus planos. No entanto os Arakuness estavam determinados a cumprir o objectivo que tinham traçado. Scott avançou com os seus soldados atingindo a primeira frente que os alcançava dando algum tempo aos restantes que terminassem a evacuação. Quatro longos minutos foram suficientes para colocar todos a salvo na nave. Raines gritou para Scott que recuasse com os seus homens, não havia mais necessidade de se arriscarem, o mesmo olhando o hesitante concordou de seguida. Alcançaram a nave em segundos sendo seguidos por centenas que se transformavam em milhares. Dentro do vaivém dois Arakuness que conseguiram alcançá-los foram eliminados rapidamente por dois tiros de Matt que sorriu satisfeito por ter conseguido abater um extraterrestre na sua aventura no espaço. A nave começou a erguer-se do chão cobrindo o terreno de fumo e pó. Uma vez na cabine de armas os soldados não hesitaram em começar a esbanjar um mar de fogo sobre os Arakuness no terreno.
                Raines respirou fundo ao notar que estavam todos a salvo e que a missão teria sido cumprida com êxito, lentamente a nave alcançava a atmosfera. Matt despedia-se sobre a imagem do planeta vermelho que se afastava lentamente através de uma janela.
                Subitamente a sua atenção despertou para um fenómeno inesperado, mas no entanto aguardado sem que soubesse as consequências da sua natureza. Ao fundo num compartimento os soldados assustados teriam abandonado a sala em pânico permanecendo apenas Scott e os seus soldados. Matt percorreu o corredor passando por vários soldados que cruzavam com ele assustados.
                Ao entrar naquela sala Scott comunicava pelo rádio para que Raines interrompesse o voo, algo teria acontecido. Matt caminhava lentamente atónito ao que os seus olhos contemplavam, de uma forma assustadora e irreal. Scott permanecia como uma imagem projectada sobre uma parede, uma luz transparecia da sua imagem, não estava mais na condição de carne e osso, de um simples mortal. Os seus homens de igual modo eram como fantasmas sobre a forma humana. Observavam-no agora calmos e serenos.
                - Tinhas razão. – Comentava Scott…
                - O que tencionas fazer agora?
                - Não podemos deixar este mundo, apenas existimos nele.
                - Farei com existam sempre nas nossas memórias, por tudo o que fizeram e pelo sacrifício que tomaram. Lamento que termine assim.
                - Não te preocupes, vamos ficar bem. Diz a minha família que os amo muito. Que sempre irei visita-los nos seus sonhos.
                - Assim farei. Obrigado por tudo Scott.
                A nave permaneceu sobrevoando o planeta, Scott deu instrução que um dos portões fosse aberto. Os trinta soldados mergulharam em queda livre flutuando sobre o céu como sóis que se desprendiam como estrelas cadentes de um quadro pintado à mão. A determinada altura os corpos ganharam cor e vida e começaram a cair em velocidade sobre o campo de batalha. Scott soltou as suas armas e aterrou cortando um Arakuness ao meio. O vaivém proporcionou-lhe cobertura aérea e a elite de soldados mais uma vez derrubou os alienígenas em poucos minutos. Quando tudo terminou Scott ergueu o seu olhar para a nave e acenou em forma de despedida.
                A Nave desapareceu como uma luz que se extinguia no infinito do espaço. Scott trocou um olhar por todos os guerreiros. Mantinham-se frios e sobre controlo como as máquinas que tinham sido ensinados a ser.
                - Lamento mas não vou conseguir manter a minha promessa. Nós nunca sairemos deste lugar. Esta é a nossa maldição.
Na linha do horizonte emergia um exército de duzentos soldados, o sargento Hank vinha na frente aproximando-se deles.
                - Sargento Hank apresentasse ao seu serviço coronel. Ensine-nos a matar Arakuness e o seguiremos para onde quer que nos leve.
                - Creio que existe um motivo muito maior que a teoria de um planeta amaldiçoado para estarmos vivos. Nenhum de nós voltará a ver a Terra, no entanto no que depender de nós nenhum Arakuness a verá também. Não seremos mais heróis perdidos na nossa sombra. De hoje em diante seremos a Legião dos mortos. Que a nossa lenda nos siga até aos confins do tempo.
                - Os soldados assentiram em concordância. Iriam manter os Arakuness entretidos por um tempo indeterminado.
                Entretanto Matt estava de novo entregue aos silêncio das estrelas. Ia a caminho de casa, da sua namorada e dos seus pais que o aguardavam do jeito que o viram partir. No entanto ele voltaria mudado. Tudo o que tinha sentido e presenciado tinham-no transformado e parte daquela energia tinha regressado com ele. Desejava sobre todas as coisas que Scott e os seus homens encontrassem a paz que os permitisse encontrar o descanso eterno. Não imaginava que os seus caminhos poderiam se cruzar novamente um dia, mas o propósito de Scott, era maior que a vida e a morte, que o possível e o impossível, e o descanso que Matt lhe teria desejado estava decididamente fora dos seus planos.