sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Em busca do horizonte Azul - Parte V

                Lentamente a sombra desenhava os traços de um homem, permanecia imóvel, observando e estudando-os cautelosamente. Jason tentou transmitir o mínimo de hostilidade possível, o estranho não denotava qualquer sinal de loucura, a menos que a mesma quebrasse o seu silêncio. Embora Jason tivesse um ar amigável, o lobo tinha cara de poucos amigos.
                Era um mundo sem lei, qualquer pessoa roubava e matava sem se preocupar por responder pelos seus crimes, e pessoas cruéis pareciam ser as poucas a sobreviverem naquele mundo caótico.
                Jason manteve uma distância curta, entre um sorriso cumprimentou-o…
                - Boa tarde! O meu nome é Jason, sou um viajante, não precisa se preocupar com as minhas intenções, estou apenas de passagem.
                - Um viajante? Hum… O mundo deixou de ser um mistério há algum tempo. Qualquer canto é igual a outro canto, e uma coisa que todos os cantos têm em comum é serem um belo pedaço de merda. Foi a herança desta nossa geração, cinzas e trevas. Viajar! Não passas de mais um louco com certeza!
                - Não vou discutir ideias consigo, no entanto se poder-me dizer em que cidade ou país atualmente estamos, ficaria lhe muito grato. Tentei encontrar placas mas não restou nada de uns dias de viagem para cá.
                O homem que aparentava os seus sessenta anos olhava-o de soslaio…
                - Que género de idiota se aventura por aí, os caminhos são perigosos. Do que andas à procura? Posso saber?
                - A minha mulher e filha estão alugares no Rio de Janeiro, tenho de encontrá-las. - As palavras saíram dolorosamente por entre os seus lábios, como se uma ancora tivesse sido libertada do fundo de um mar revolto. O seu coração era uma terra de sonhos perdidos, mas o amor que o alimentava, que movia as suas pernas dia após dia, numa busca atormentada era maior do que a sua falta de fé. Maior que todos os obstáculos.
                - E quando é que tiveste novidades delas? – A pergunta saia com certa ironia, pronunciando todas as letras que ele nunca quis ouvir, palavras que atacavam a sua mente dia após dia de tal forma que ele sabia a sua resposta e sabia a próxima pergunta…
                - Separamo-nos antes… Antes das bombas caírem… - Jason falava de cabeça baixa, sentia o peso das suas palavras, fazerem-no perder as forças, colocarem-no na posição e um homem louco, e foi então que o velho fez a pergunta que temia ouvir…
                - Que certeza tens então de que elas estão vivas? O mundo foi todo devastado, noventa por cento da população mundial desapareceu da face da terra. E tu procuras duas pessoas? És o mais louco de todos os que conheci…
                - A radioatividade não chegou ao Sul da América…
                - Não da forma que chegou aqui mas chegou, e talvez ainda pior porque os que sobreviveram transformaram o país num verdadeiro inferno. O que esperavas? Que todos juntos dessem as mãos e trabalhassem para construir um mundo melhor? Um mundo como nunca antes visto?
                - Diz-me o nome da porcaria desta cidade antes que o meu amigo aqui te arranque a cabeça e a mastigue como se fosse um rebuçado de mentol. – O lobo em concordância exibia os dentes sobre um rosno avançando lentamente. Jason tentava disfarçar a surpresa da reação do animal, tinha falado por impulso, mas parecia que tinha conquistado mesmo um amigo. Ou talvez o lobo tivesse apenas simpatizado tanto com o velho como ele.
                - México… Estamos no México! – Responde o velho sobre uma voz trémula.
                - Obrigado!
                Seguiram caminho ignorando-o, alguns metros mais à frente…
                - Parece que vamos ser bons amigos! Agora já sabes o que procuro. O motivo pelo qual viajo com o peso do mundo nas costas. Mesmo assim queres vir atrás de mim?
                O animal caminhava descontraído, quase como que se realmente escutasse os desabafos daquele ser humano. A sua voz era reconfortante, recordava-lhe a voz de um velho amigo, recordava-lhe também que não estava só no que restava do mundo.
                - Não fiz nem um terço do meu percurso… é impossível!
                Sentou-se desconsolado sobre o chão, lentamente observava o enorme animal que lhe retribuía um olhar profundo como que tentando penetrar nos seus pensamentos.
                - Tu foste criado por humanos, não foste? E entendes não só muitas palavras, como emoções humanas. Já foste amado, e já amaste e protegeste alguém, como me proteges agora. E o mais belo de tudo é que nunca foste domado, foste conquistado, permaneces livre e selvagem, e essa liberdade reflete as mais nobres escolhas.
                A estrada desenhava um conjunto de curvas e contra curvas, o piso calcado demonstrava que o caminho teria sido percorrido com alguma frequência após a grande guerra. Não sabia até que ponto era bom ou mau, dependia das pessoas com quem cruzasse.
                Dia e meio de viagem teria passado desde o velho pessimista, o percurso era plano e dos mais desertos que teria deparado. As forças começavam a faltar aos dois, numa luta contra a sede, a fome e o cansaço. Seria difícil encontrar qualquer tipo de caça naquele lugar. Tombou desfalecido de joelhos sobre o chão, a sua boca ressequida sangrava e o corpo não suportava mais o seu peso.
                Caminhar era uma forma de não pensar, a mente fluía perdida entre um único propósito, a busca de um horizonte azul, a prova de que o mundo estava vivo e com ele as pessoas que amava, mas a dimensão da jornada poderia ser maior que as suas forças. Deitado sobre chão sentia o vento frio espalhando grãos de areia sobre o seu corpo. Imóvel durante algumas horas, tentou sentar-se apoiando-se dolorosamente nos seus braços. O seu companheiro ainda ali estava, não o tinha abandonado. No horizonte levantava-se lentamente uma tempestade de areia, estava mais frio do que o habitual, poderia tentar procurar um abrigo mas o tempo e as foças não conseguiam suportar mais esforços. Olhou para aquela criatura de olhos profundos tentando ver algum sinal, algum novo incentivo…
                - Estava prestes a acabar com a minha vida quando te conheci, acredito que não apareceste ao acaso. Existem momentos na nossa vida que surgem apenas para nos lembrar que temos de ser fortes. Que temos de continuar. Não vou morrer aqui hoje, eu prometi à Cíntia e à minha filha que iria ter com elas, dei-lhes a minha palavra.
                Lançou um último olhar sobre a tempestade que se aproximava agora mais rápido e devolveu o olhar ao animal…
                - Eu sei que não gostas muito de contacto humano. Mas a tempestade deve decorrer toda a noite e se a temperatura baixar mais ainda corremos o risco de não chegarmos até amanhã. Se realmente percebes o que digo, senta-te ao pé de mim. O calor dos dois corpos vai manter-nos vivos, pelo menos até à tempestade se dissipar.
                 O animal susteve-se durante alguns segundos mas logo se aproximou deitando-se do seu lado lentamente…
                - Prometo que não te faço festinhas quando tiveres a dormir! – Comenta ele num fraco sorriso. O lobo devolveu-lhe o rosno em concordância.
                - Espero que o meu próximo companheiro de viagem tenha sentido de humor, um chimpanzé ou um papagaio, qualquer coisa do género.
                A tempestade alcançou-os numa nuvem gigantesca de areia, fecharam os olhos e cobriram as narinas com panos, o mundo desapareceu por momentos, apenas o canto do vento se manifestava na escuridão…
 
(Joel Flor)

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Joel Flor e o projecto "O Mundo através dos meus olhos"


 
      Na sequência da caminhada literária que produzi nos últimos dois anos, 2013 irá com certeza dar vida ao meu quarto livro. Com o projeto "As Lágrimas do Furacão" finalizado mas ainda aguardando o momento certo, optei por antecipar algo diferente. "O Mundo através dos meus olhos" será um livro que reúne o meu trabalho dos últimos dois anos em contos e poemas passando também por uma pequena biografia numa interação quase direta com o leitor.
             Estando o conteúdo praticamente já estabelecido o projeto irá atravessar um processo rígoroso, no aperfeiçoamento dos textos, e na criação exclusiva de escritas inéditas.
 
         "Ao escrever não procuro atingir nenhuma meta. Nem manter nenhum hábito. Escrevo apenas porque tenho prazer em fazê-lo. Tudo o demais vem de acréscimo."
 
(Joel Flor)

domingo, 9 de dezembro de 2012

Em busca do horizonte Azul – Parte IV


                Suspirou dolorosamente o ar contido naqueles pulmões destruídos pelo oxigénio contaminado. Observava o ambiente ao seu redor certificando-se que estava de volta à sua dura realidade, que teria regressado intacto da sua viagem no tempo. Apesar dos males, sentia-se razoavelmente bem. Foi então que o misterioso viajante que seguia as suas pisadas aproximou-se com carregando algo preso entre os seus dentes afiados. Uma lebre morta, cujo sangue permanecia ainda quente desprendeu-se do seu maxilar junto á fogueira. O animal observou a presa e afastou-se indiferente regressando ao seu descanso. Jason observava-o inquieto e incrédulo. “Estarei atingindo algum estado de insanidade? Ou será que o suposto inimigo dos homens, filho da natureza me trouxe o pequeno-almoço?” Divagava ele entre pensamentos perdidos. Eram tempos difíceis, a comodidade de questionar a sorte era um luxo nesses mesmos tempos. Reatou a fogueira e removeu a pele do animal morto. Era difícil encontrar animais, quase todas as árvores tinham desaparecido e o meio de subsistência fundamental a qualquer espécie, a água, tinha secado. As possibilidades de um lobo faminto partilhar o primeiro alimento de semanas com um ser humano era estranha. Completamente tresloucada e impossível.
                - Confessa lá! Estás a ver se me engordas até o Natal? Na falta de um peru, um humano com o coelho no estômago serve para fazer a festa.
                O animal olhou-o pela primeira vez diretamente nos olhos, o seu olhar era poderoso e irrepreensível. Jason entendeu-o como um sinal que devia calar-se e aproveitar o que a vida lhe estava a dar: Forças para continuar o seu caminho.
                Para um homem de estômago vazio de vários dias, carne de coelho mesmo sem tempero, parecia um banquete digno de um rei. Comeu deliciando cada momento daquela carne suculenta e fresca que se derretia por entre os dedos e dentes, estava de tal forma embriagado naquele momento que se sentiu subitamente envergonhado por não partilhar com o herói do dia, no entanto o lobo não mostrava interesse. Tentou aproximar-se do animal mas o mesmo devolveu-lhe um olhar que o susteve. Os seus olhos falavam por ele: “Cuidado, eu não sou um cão, se me tocares com essa mão imunda ficas sem ela!” Talvez não desta forma agressiva mas por certo algo parecido, pensou. Optou então por respeitar o espaço do seu novo amigo. Desejava beber água para completar aquele alimento, mas teria de procura-la sem qualquer certeza de a encontrar. Optou por ser grato pelo que tinha que era mais do que ontem, arrumou a sua mochila e retomou a sua caminhada, rumo ao sul. O lobo observou-o durante alguns segundos, depois levantou-se e seguiu-o.
                A estrada era desenhada por pedras e pó, algumas ruínas projetavam a existência de uma civilização, mas o estado das coisas impossibilitava um homem comum de reconhecer os lugares, a única certeza que tinha era que deveria seguir para sul, e sul era aquela estranha sensação de estar a descer uma colina, o instinto era a sua única guia. Ou talvez a sua obsessão fosse tão forte, que o coração possuía o poder de carregar o corpo até ao seu destino.
                Mesmo no fim de todos os tempos um ser humano perdido no mundo conseguia definir um trajeto, mesmo lutando contra todas as hipóteses a simples viagem mantinha-o vivo. No entanto não conseguia deixar de pensar no animal que o seguia, qual seria o seu incentivo. O egoísmo e a irresponsabilidade da humanidade destruiu tudo aquilo que ele teria conhecido, o seu mundo não existia mais, apenas uma sombra, uma lembrança. O que poderia motivar a natureza a continuar, a sobreviver. Eram perguntas paras as quais ele não possuía respostas.
                O animal caminhava a pouco mais de seis metros de distância, por mais que fosse se adaptando à sua presença permanecia incrédulo.
                - Não me admira que a tua espécie ainda ande por aí. Sobreviveram à Era do gelo há 300 mil anos atrás. Sobreviveram à chegada das colonizações humanas! Sobreviver está-vos no sangue. Pelo porte e pelo a coloração do pelo, acredito que seja umas das espécies descendentes do Canadá e do Alasca. Espécies tais, que pelo que julgava ter lido, mantém a distância dos homens.
                O lobo permanecia caminhando ignorando o tema da conversa. Fosse qual fosse a sua missão, falar não fazia parte do plano…
                - Sim, se fosse outro idiota qualquer já te teria confundido com um pastor alemão e teria ficado sem uma das mãos como recompensa.
                Pensas que foi a guerra que matou a maior parte das pessoas? Não, foi a ignorância, o mundo era governado por meia dúzia de pessoas inteligentes, os restantes eram apenas animais como tu, sujeitos ao conforto do progresso do mundo. Gostavam de conduzir um carro, por isso já não sobreviviam sem eles. Compravam comida feita, já não sabiam cozinhar. Quanto mais encontrar num deserto a planta certa, com a vitamina certa, que pudesse mante-los vivos por mais algum tempo. Passei a minha infância e adolescência a ser chamado de fanático por viver agarrado aos livros, viver uma vida não era suficiente, nunca foi. Tinha de saber como é que o mundo funcionava. Foi por isso que quando o mundo deixou de funcionar eles morreram todos, e eu continuei sobrevivendo as custas do meu conhecimento… Não entendes nada do que digo pois não?
                O lobo bocejou novamente…
                - Ok, entendes mas não estás interessado! Então e tu? Alguma história interessante? Algum hobbie para além de caçares lebres para humanos esfomeados?
                Jason parou subitamente, uma figura se desenhava no horizonte...
(Joel Flor)

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Em busca do horizonte Azul - Parte III

           Despertou por entre a luz ténue de um amanhecer cinzento que resplandecia pequenos raios de luz por entre as cortinas de fumo. Por mais que parecesse o fim de todos os tempos, um novo dia era sempre um novo dia. Procurou pelo lobo ao seu redor mas as restava apenas as marcas no chão de onde havia passado a noite. Estava em dúvida se teria mesmo estado ali, ou se seria apenas parte do seu sonho, da sua noite longa e tranquila.
                Estava bastante fraco, falta de alimento e água limpa. Os seus pés em sangue eram fruto de uma longa caminhada por aquele chão que em tempos foi o enorme continente americano. A terceira guerra mundial não tinha corrido muito bem para a humanidade e mãe natureza, a superfície da terra tinha mudado, oceanos tinham secado e a radioatividade que dizimou sessenta por cento da população mundial tinha-se levantado e manchado o céu de cinzento. Alguns cientistas diziam que iria levar algumas décadas para que a radioatividade começasse a dissipar. Mas em pouco tempo os sobreviventes deixaram de contar os anos, o ser humano regrediu ao seu estado mais selvagem, matavam por uma simples lata de sardinhas fora do prazo, ou outro qualquer recurso que pudesse melhorar a condição de alguém por mais um dia. No entanto a maior causa de morte era sem dúvida o suicídio. Havia rumores de que a radioatividade cobria toda a América do Norte, mais de metade da América do Sul, a Europa Ocidental e o Norte do continente Africano. No entanto os rumores já estavam gastos e velhos. Ninguém teria vindo em busca de sobreviventes, e a esperança dos poucos que lutavam para sobreviver acabou também por morrer.
                Tudo isto tinha permanecido ausente da sua mente, como um livro fechado que a memória não queria visitar. Esta era a história do mundo que em tempos conheceu, no entanto a sua história era a sua força que o fazia caminhar por aquele horizonte sem fim, em busca de algo que mais ninguém procurava. Nos calabouços da sua alma ele recordou o seu nome e sua história: “Jason MCcalen” proferiu ele entre murmúrios…
                A sua memória conduziu-o a poucos anos atrás. Uma nação em pânico, um aeroporto caótico, multidões atropelando-se descontroladamente num cenário aterrador. Mas subitamente o mundo e o seu ruído pararam naquele momento em que ele as segurou nos seus braços, uma mulher e uma criança de quatro anos…
                - É melhor correrem para o embarque. O pouco controlo que há vai ceder em breve, depois duvido que qualquer avião consiga decolar. – Comenta Jason.
                - Sabes que eu te amo, não sabes?
                - Sim Cíntia, eu também te amo, prometo que logo que possível vou ter convosco.
                Beijou a sua filha Sophie apertando-a nos seus braços e encaminhou-as para o portão de embarque. Viu las afastarem-se, como se o seu coração tivesse parando lentamente. Tentou segurar as lágrimas, pelo menos até que elas desaparecessem por entre as portas. No entanto Cíntia voltou-se uma última vez e sorrindo gritou-lhe: “Vemo-nos no Rio de Janeiro”. Aquele foi o último segundo, o seu último sopro de vida e tragicamente também o seu último sol dourado. No fim daquela tarde as bombas caíram do céu e mudaram brutalmente a face da terra.
 
(Joel Flor)

Em busca do horizonte Azul - Parte II

O animal aproximava-se lentamente, movia-se sem querer passar despercebido, descontraído e de focinho levantado. Talvez desse a sua presa por vencida pensou o homem que permaneceu imóvel. Estava fraco, com ele também a sua capacidade de reagir. A pouco mais de cinco metros o lobo susteve o passo e deitou-se confortavelmente sobre a areia, como um viajante que alcança o seu destino, repousando a sua cabeça sobre as patas. O homem permaneceu imóvel e atónito durante alguns segundos, até que se sentou sobre o chão deambulando entre o cansaço e o delírio.
                - Provavelmente se sente tão só e perdido quanto eu! – Indagou ele…
                O lobo permanecia tranquilo em repouso ignorando os delírios do seu anfitrião. Aquele era o seu reino de cinzas, ele, estava só de passagem.
                - São criaturas fantásticas os lobos, dizem… Diziam, que seguiam as suas presas durante dias por quilómetros de distância, no entanto nunca ouvi de um que se aproximasse tanto apenas pela companhia. O mundo está mais silencioso é verdade. Até a natureza transformou os seus costumes.
Estou intrigado, como é que sobreviveste? Há dias que não vejo homem ou animal, ou poça de água que sacie um miserável inseto. A grande guerra deu mesmo cabo deste mundo.
                O animal bocejava entediado recostando-se novamente por entre as patas…
                - Perdoa-me, não tenho com quem conversar há algum tempo. As poucas pessoas com quem cruzei na estrada estavam loucas, nada mais do que mortos ambulantes. Talvez esteja lentamente a seguir o mesmo rumo. Tenho o estômago dolorido de tantos dias sem comer, se estás à espera que eu morra para fazeres o banquete, és capaz de ficar desiludido.
                O homem moveu-se dolorosamente, juntando, folhas secas, restos de arbustos queimados e alguns pedaços de madeira ressequida. Amontoou-os e incendiou num fogo brando, regozijando-se confortavelmente na sua criação.
                - Isto vai manter-nos quentes ao longo da noite. Até amanhã! A menos que decidas comer-me durante a noite.
                Deitou-se por entre os seus trapos sem qualquer temor, o conforto do fogo abraçou-o, consolando as tristezas e carregando-o a um sono profundo. Viajou por entre tempos esquecidos, o sol ainda brilhava por entre as persianas da sua janela. O céu tinha um tom laranja, sobre os contornos do sol nascente. Sentia o calor, não do sol mas de um corpo. Aquele olhar meigo fixava-o, por entre aquele rosto pintado à mão. Uma memória comum a qualquer ser humano que na ignorância amaldiçoe o seu destino pensou. No entanto naquele lugar deserto onde todos os sonhos arderam, as suas memórias eram o mais próximo do paraíso que conseguia estar. Eram o verdadeiro alimento da sua alma.
 
(Joel Flor)

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Em busca do horizonte azul – Parte I

              Permaneceu… Observando aquele vasto horizonte perdido entre ruínas, coberto por um céu pintado de cinzento. A ausência de cor e vida transformava o passado do seu mundo numa memória que se afundava lentamente no poço do seu conhecimento, a sua vivência desintegrava-se a cada suspiro contido.
                A marca das suas pegadas desfazia-se lentamente sobre o sopro daquele vento mudo. Era indiferente, não havia caminho de regresso, nem nada a que regressar. Num só golpe evaporou-se o passado e o futuro. A sua história? Teria de reescrevê-la sobre as cinzas, não havia o que entender ou escolher, tinha apenas de aceitar. Continuar a viver na ausência da vida, ou render-se as consequências do seu tempo. Ninguém iria recordar o seu nome, nem a sua força, a história não iria registar a sua existência. Restava-lhe apenas a sua consciência.
                Então sentou-se sobre uma rocha lisa, observando o seu reflexo sobre um caco de espelho partido que ofuscava-o cintilante entre as cinzas como um farol na escuridão. Por entre o brilho de um reflexo contemplou o resto de um homem, um homem que teria conhecido em tempos, numa outra vida, num mundo distante. Uma dor profunda afligiu-o num pranto contido. Ajoelhou-se colhendo aquele caco de vidro espelhado e encostou-o ao seu pescoço, preparando-se para destruir o que restava da sua vida.
                - Lamento muito Cíntia. – Profere ele entre lágrimas.
                Antes que terminasse observou a pouco mais de cem metros o lobo cinzento que o seguia a vários dias. Provavelmente aguardando impaciente que ele morresse proporcionando assim algum alimento as demais criaturas que vagueavam a terra.
                O lobo avançou caminhando lentamente na sua direção, dando-o talvez como um dado adquirido. Pelo menos um dos dois tinha certeza de alguma coisa. A sua mente questionou-se sobre a diferença entre homem e animal. Ele possuía consciência das coisas o animal apenas o seu instinto de sobrevivência, devia estar um passo à sua frente, mas no entanto ali estava ele a ser estudado como um rato de laboratório. Talvez fosse mais fácil não ter memória nem sonhos, ter somente objetivos a curto prazo como o seu companheiro de viagem. O seu objetivo era sobreviver o dia de hoje. Para que o objetivo fosse comum, apenas um deles iria continuar a sua viagem.
                Naquele momento ele afastou o caco de vidro do seu pescoço, e decidiu que naquele dia em que escrevia a ultima página da sua vida, naquele dia cinzento, ele queria viver.
 
(Joel Flor)

sábado, 3 de novembro de 2012

O som da vida - Parte II


             Alice estava um tanto inquieta no final daquela tarde de Outono, teria discutido com a sua mãe a respeito de uma festa que pretendia ir durante todos os dias daquela semana. Lutava irremediavelmente contra a sua vontade que a proibia de sair de casa, “Tens dezasseis anos, não vais a lado nenhum!” Aquelas palavras da sua mãe fluíam como um eco imortal na sua cabeça, como uma cassete que virara vezes e vezes espezinhando a sua consciência.
Geralmente os confrontos com a sua mãe eram conversas curtas, mas aquela era a festa da sua vida, o rapaz de quem gostava iria lá estar, ela tinha a certeza de que se não fosse, o perderia para sempre. Acreditava que o seu destino estava traçado, e a escolha dos seus passos independentemente da idade que tivesse eram seus para serem escolhidos quando bem entendesse, ninguém tinha o direito de lhe roubar os sonhos.
Teria garantido à sua amiga Jessica que estaria à porta da sua casa as 21 horas daquele dia, mesmo que o céu desabasse sobre a sua cabeça, e aquela promessa não iria quebrar por nada deste mundo.
O sol desaparecendo lentamente por cima do telhado dos seus vizinhos apenas aumentava o seu nervosismo, penteou os seus longos cabelos loiros, vestiu um vestido vermelho e lentamente pintava os seus lábios com um batom da mesma cor. Aquele gesto adulto ainda lhe era estranho, lentamente ia conhecendo uma nova figura diante do espelho, a ideia de parecer cinco anos mais velha agradava-a bastante. A porta abriu-se de rompante, a mãe observava-a de semblante fechado, apesar do incómodo ela tentou permanecer indiferente…
- É assim que vai ser então?
- Não sou mais uma criança, todas as minhas amigas saem quando querem e não dão satisfações a ninguém. Acho que estas a viver no século errado. Não vou mais desperdiçar esta fase da minha vida por causa das tuas ideias.
- Muito bem, no entanto a algo que deves saber sobre essa vida que julgas conhecer tão bem. Decisões de peso têm as suas consequências, tiveste toda a tua vida quem as assumisse por ti. Se saíres por aquela porta hoje, não voltes a entrar, nunca mais.
Alice estremeceu perante a dureza das palavras que ouvia, mas manteve-se fiel à sua promessa, assim que a sua mãe saiu do quarto tentou focar-se apenas na festa, o demais haveria de decidir mais tarde quando fosse oportuno.
Andava de um lado para o outro dentro daquelas quatro paredes, os minutos passavam lentamente, a noite teria consumido a luz do sol por detrás daquela janela do seu quarto, não suportava mais aquele nervosismo e optou por sair uns minutos mais cedo. A sua mãe estava no seu quarto, a televisão da sala transmitia um recital infantil no entanto não tinha telespectadores à exceção do gato Matias que bocejava entediado, deitado no sofá. Cruzou aquele corredor esperando ouvir um grito a qualquer momento mas tal não aconteceu. Assim que colocou os pés fora de casa e a porta se fechou por trás. Os nervos acalmaram, suspirou fundo e seguiu por aquela rua silenciosa.
Um grupo de bêbados passou por ela com alguns gracejos, era uma novidade ser mulher, ignorou-os e acelerou o passo, a casa de Jéssica ficava a pouco mais do que quinhentos metros, a rua era agora mais isolada, teria passado por ela durante anos à luz do dia, no entanto naquela noite parecia outro lugar. Ouviu um ruído estranho, quando se preparava para voltar um braço forte prendeu-a de costas enquanto a outra mão tapava-lhe a boca, tentou-se debater inutilmente mas perdia os sentidos lentamente, um lenço na sua boca obrigava-a a respirar algo que a faria adormecer. Sentiu um pavor enorme, perdeu as forças e mergulhou inconsciente nos braços daquele estranho.
Algumas horas mais tarde despertou na traseira de uma carrinha de caixa, uma pequena janela iluminava aquele compartimento, com a luz do sol que ia se erguendo no horizonte. Do outro lado da estrada um carro da polícia cruzou com a carrinha mas seguiu o seu caminho. Sentiu vontade de gritar por auxílio mas não tinha forças, estava apavorada, e uma tentativa infrutífera poderia provocar a sua morte, então encolheu-se sobre uma coberta, tremendo e chorando, a única pessoa em quem conseguia pensar era na sua mãe. 

A polícia iniciou as buscas na manhã seguinte quando a mãe de Alice ligou à Jéssica e a mesma respondeu que a Alice nunca teria aparecido. Era uma cidade pequena, o acontecimento gerou um impacto profundo, ao fim de uma semana as buscas não produziram qualquer resultado ou pista. A Alice poderia estar em qualquer lugar agora.
Estavam em março de 2002, foi finalmente em novembro do mesmo ano que encontraram a cena do crime, uma cave funda por de trás de uma quinta, um passante teria visto um homem descarregar um corpo embrulhado numa manta. No dia anterior uma jovem de dezanove anos teria sido dada como desaparecida. Pela altura que as autoridades chegaram ao local foi tarde demais para lhe salvar a vida. Sandro Valêncio de quarenta e dois anos de idade foi detido e julgado pelo homicídio qualificado de vinte e duas mulheres, apenas o corpo da última mulher foi encontrado, no entanto através de análises de ADN conseguiram identificar a passagem de Alice por aquele lugar. Confessando o assassino também a sua morte.
 

A parte final da história era redigida pela criança, tendo Alice conhecimento apenas da forma brutal como teria sido assassinada. Sentou-se lentamente sobre a calçada, por mais frustrante que fosse, as respostas não traziam soluções no seu caso.
- Chamo-me Alice!
- Sim, esse foi o teu nome um dia, e esta a tua história.
- Quantos anos passaram?
- Passaram seis anos, por isso é que não conseguiram ajudar-te na esquadra. O processo foi arquivado quando o assassino confessou. Ninguém anda á tua procura há muito tempo.
- Não entendo, o que devo eu fazer?
- No coração dos homens todos os caminhos são evidentes, quando são corrompidos pela natureza humana, começam logo a surtir as dúvidas. Tu sabes o que tens de fazer, segue o caminho que te trouxe de volta este mundo.
- Mas…
A pergunta sucumbiu perante a luz que abraçava o seu entendimento, a criança desapareceu deixando-a novamente. Ela sabia que o tempo era limitado, que o privilégio que lhe tinham concedido teria de servir o seu propósito, e naquele momento ela sabia exatamente o que tinha de fazer. Teria de se reconciliar com a sua mãe, para que as duas seguissem os diferentes caminhos em paz.
Caminhou durante horas por aquela estrada longa, vendo o sol iluminar o seu caminho lentamente, começou a reconhecer bairros, lojas, e pouco a pouco algumas pessoas que não notavam a sua presença. Sentia-se como um fantasma vagueando o seu universo perdido, passou pela porta da Jéssica, teria agora vinte e três anos, talvez ainda morasse com os pais, quem sabe teria encontrado a sua cara-metade naquela noite e estivesse agora casada, a vida segue milhões de destinos quando temos imaginação para nos perdermos divagando diversos sentidos.
Ao fundo da rua a porta da sua casa desenhava todas as recordações da sua infância. Aproximou-se lentamente, a cidade dormia, eram seis horas da manhã, susteve o passo diante da sua porta. Procurou o vaso onde a sua mãe sempre escondia uma chave suplente e notou que os velhos hábitos mantinham-se vivos. Abriu lentamente a porta e entrou, o velho gato Matias que não gostava de estranhos reconheceu-a de imediata esfregando-se nos seus pés, acariciou-o e seguiu pelo corredor. A porta do quarto estava entreaberta, antes que avançasse denotou vários frascos de comprimidos, antidepressivos, comprimidos para dormir. O cenário evidente revelava que os últimos anos não teriam sido fáceis.
Abriu lentamente a porta deixando um pequeno rastro de luz iluminar a escuridão do interior. A sua mãe estava deitada por debaixo de um lençol, dormia profundamente, todos os cantos da casa mostravam falta de asseio, percebeu que as limpezas não eram tão frequentes como antigamente. Certamente continuava solteira desde o falecimento do seu pai e os cuidados pessoais teriam perdido a sua prioridade, como mulher e como ser humano.
Sentou-se lentamente sobre a cama com medo de acordar, apesar do efeito dos comprimidos ser forte. Acariciou-lhe lentamente o cabelo que começava a ficar grisalho, talvez já fosse antes no entanto agora não se dava ao trabalho de o disfarçar.
A voz daquele ser que a acompanhava ocasionalmente sobre a forma humana, pronunciou-se ao seu ouvido…
- Fala o que tens de falar, ela vai ouvir e tudo produzirá o devido efeito.
Alice comoveu-se antes que as palavras saíssem, as lágrimas caiam lentamente pelo seu rosto…
- Mãe, eu sei que me consegues ouvir, estou aqui porque quero que saibas que lamento muito tudo o que aconteceu. Lamento ter sido tão egoísta, lamento não te ter apoiado quando o pai partiu, lamento não ter-te abraçado todas as vezes que te vi chorar. Perdoa-me por ter-te deixado naquele dia, a vida ensina-nos através dos nossos erros, mas nem todos tem uma segunda oportunidade para se redimirem. Tu tens a oportunidade de uma nova vida, algo que eu já não tenho. Não desperdices a vida, sobrevivendo presa ao passado. Agarra os dias vindouros com as duas mãos. Luta pela tua felicidade, por mim e por ti, para que eu possa partir em paz, sabendo que haverá apenas saudade e não remorsos. Perdoa-me por tudo, para que eu possa também, perdoar-me a mim mesma.
Abraçou aquele corpo quente, mesmo dormindo as lágrimas caiam do rosto daquela mulher. Alice sentiu-se leve, a sua missão no mundo estaria cumprida, era tempo de regressar. Levantou-se lentamente e seguiu o seu caminho. Passando por um espelho observou-se de relance por um momento, não se tinha apercebido até aquele momento que tinha envelhecido como se tivesse a idade que teria viva.
Lá fora um homem de boa aparência observava-a, tranquilo como se a conhecesse, e logo ela entendeu que a morte a aguardava numa nova forma. Aproximou-se dele…
- Chegou a hora de regressarmos.
- Então a minha missão está cumprida?
- Sim. – O homem observava-a sabendo que a pergunta transmitia alguma falta de convicção, estava em paz, mas continuava triste.
- O assassino é o único homem que sabe que morri, mesmo que tenha confessado, o meu corpo nunca foi encontrado.
- Sabia! Ele morreu há dois anos atrás, assassinado numa prisão. Até os presos tem mães, filhas e irmãs. Um homem como aquele não seria bem aceite em lado nenhum. Foi encontrado morto na sua cela. A justiça sempre chega a todos.
- Então ninguém vivo pode afirmar que realmente eu fui assassinada, amostras de sangue não provam nada.
- Onde é que queres chegar?
- Eu queria uma segunda oportunidade!
- Já a tiveste!
- A minha mãe precisa de mim.
- Todos precisam de alguém, mas o mundo não é perfeito.
- Tu observas a humanidade desde o princípio dos tempos. Tem um pouco de fé em nós, eu sei que podes fazer algo por nós, podes dar-nos algo em que acreditar.
- Isso ultrapassa-me, sou apenas um guia.
- Por favor!
- Consegues ouvir este som, esta melodia? É o som do silêncio, do fim. Eu chamo-lhe “A Melodia do silêncio”, é como um consolo divino que sentimos quando deixamos este mundo em paz, o som não significa o fim, significa que está livre, perdes o mundo mas ganhas o universo. O som está a chamar por ti.
A Alice aproximou-se do homem segurando-lhe na mão, colocou sobre o seu peito, junto ao seu coração. Consegues ouvir este som? O seu ritmo, que pulsa e estremece o nosso ser? Este é “O som da vida”. Eu escolho a vida, deixa-me viver!
O homem observou-a durante alguns momentos, lentamente esboçou o seu primeiro sorriso durante aquele percurso e partiu. A Alice manteve-se atónita durante alguns momentos, contemplou aquele mundo ao seu redor, como se pela primeira vez ele lhe pertencesse. Entrou d1entro de casa novamente, dirigiu-se ao seu velho quarto. Permanecia intacto. O frasco de batom continuava aberto em cima da sua mesa. A janela do seu quarto pintava o mesmo quadro que conhecera toda a sua vida. Deitou-se lentamente sobre a sua cama encolhendo-se sobre os cobertores, perdida entre uma exaustão que teria sido combatida até momentos atrás pela adrenalina. Cedeu e adormeceu num sono profundo.
 

Na primeira página de todos os jornais nacionais uma notícia pulsava em destaque: “Jovem desaparecida aparece ao fim de seis anos.” O mundo alegrava-se na felicidade de uma mãe, por momentos esquecia-se dos seus problemas, da sua vaidade, da sua ignorância, da sua intolerância, do seu egoísmo. Por momentos recordava o que era ser humano e viver cada dia em virtude de uma causa nobre, de um verdadeiro propósito.

 
 
 

Fim

 
(Joel Flor)