sábado, 23 de junho de 2012

A chuva das Memórias

                O silêncio é rompido pelo ressonar do trovão, antecipando-se ligeiramente ao leve tilintar das gotas de água que levantavam os primeiros grãos de poeira da terra. Aconchegava-se na sua caixa de papelão tentando combater o frio húmido que o vento carregava, mas de certa forma enfeitiçava-se lentamente sobre o poder do som da natureza, por aquela melodia melancólica. Os sons era tudo o que possuía, os infortúnios da vida teriam num passado distante lhe levado a visão deixando-o para sempre na escuridão. A lembrança das cores das formas era nada mais que um retrato desfigurado de uma outra vida.
                Por aquela altura a densidade do som da chuva teria absorvido todos os outros sons, a cidade permanecia no silêncio, assombrado pela força da natureza que chorava sobre o mundo dos homens.
                - Vivaldi desceu das nuvens para tocar só para mim, que honra! – Comenta ele sobre uma gargalhada para o seu cachorro sarnento e moribundo.
                O sorriso desvaneceu-lhe lentamente, e a tristeza o atingiu profundamente como os relâmpagos que desciam das nuvens. Chorou incansavelmente como a muito não chorava. Desejou por momentos que a loucura o tomasse, que perdesse noção de quem era, do que havia sido e do que o tempo lhe teria roubado.
                O som de passos chapinhando sobre a água despertou subitamente a sua atenção. Pelos passos das pessoas ele avaliava o seu carácter, a sua constituição física e até o peso da sua carteira.
                Era um homem, tinha passos firmes e despreocupados, não lentos mas tão pouco apressados, os sapatos cheiravam a novos e de boa qualidade, no entanto o que não esperava era a supressão daquele som quando o homem se susteve diante de si em silêncio.
                Assustado e incrédulo temeu por momentos pela sua vida, mas rapidamente recordou-se que a sua vida nada valia, e desejou logo de seguida que a mesma tivesse em risco a fim de pôr um termo ao seu sofrimento.
                - Porque choras? – Questionou aquele homem de presença firme. A sua voz transmitia segurança, compaixão e uma certeza de que não estaria ali por acaso.
                - Choro porque não tenho motivos para rir, como deves certamente observar.
                - Entendo! A vida consegue ser cruel por vezes, nas escolhas que nunca tivemos, nos sonhos que nunca vivemos e nas cicatrizes que nunca irão sarar.
                Seguiram-se alguns segundos de silêncio. O cego tentava perceber por qual motivo estaria ali aquele homem, com certeza não era apenas para conversar. No entanto sentia vergonha de questioná-lo e assim aguardou que o seu propósito se revelasse.
                - A chuva também me desperta várias memórias, apenas as tristes.
                - Parece que temos algo em comum então.
                O cego calculou que por aquele momento o estranho homem estivesse-lhe sorrindo e retribuiu-lhe da mesma forma. Teriam passado muitos anos desde a última vez que lhe tinham dado um pouco de atenção, sentir uma presença por perto era mais agradável do que recordava.
                - Gostava de te contar uma história, se tiveres interessado em ouvir. – Comentou o estranho.
                - Tenho todo o tempo do mundo.
                - Houve em tempos uma tempestade como esta. O dia tinha amanhecido com o céu limpo mas de um momento para outro as nuvens começaram a formar-se. Um homem muito rico afastou-se da costa com alguns amigos num barco turístico. A tempestade surgiu do nada, perdendo o controlo do barco o mesmo se encalhou sobre as rochas provocando-lhe vários estragos. Numa terrível luta contra a natureza o barco começou-se a afundar irremediavelmente.
               Um pescador que regressava de um dia trabalho surpreendido também pela tempestade, no entanto mais preparado para ultrapassá-la, avistou os destroços e escutou ao longe o grito das pessoas.
               Lutando contra todas as possibilidades ele mergulhou sobre mar, nadou com todas as forças e alcançou um local onde pedaços de madeira e restos do barco boiavam dançando por entre as ondas rebeldes. Recuperou o fôlego e entregou-se ao fundo do mar. Alguns corpos emergiam do abismo sem vida, contornou-os até que alcançou o barco nas profundezas do mar. Por entre os vidros de um compartimento observou um pequeno espaço onde uma criança recém-nascida boiava deitada num berço. A água entrava rapidamente o que lhe dava pouco tempo. Partiu um vidro que se rachou, a força da pressão estilhaçou-o em vários sentidos atingindo-o em várias partes do corpo, nomeadamente os olhos.
                Qualquer homem vulgar teria desistido por aquela altura, teria lutado para salvar a sua vida, mas aquele homem persistiu e momentos mais tarde emergiu sobre as ondas com a criança nos braços.
                Foi a única vida que conseguiu salvar, chorou amargamente por ter fracassado para com os outros quando foi encontrado pela polícia marítima.
                Ao fim de três dias sobre cuidados intensivos num hospital aquele homem veio a perder a vista completamente.
                A sua história nunca foi contada, nunca passou nas notícias, a única referência que se soube foi da ilustre família que perdeu a vida em alto mar. As pessoas já não se interessam por heróis, já não acreditam em contos de fada. Preferem os mexericos, os pobres da sociedade, a realidade cruel deste mundo decadente.
                - Se nunca foi contada como é que soubeste?
                - Porque graças a ti, hoje estou vivo!
                O cego permaneceu em silêncio atónito sem palavras, deixando que o estranho continuasse.
                - Procurei-te por todo o mundo, tenho uma dívida por pagar, e na minha família sempre pagamos as nossas dívidas.
                - Não me deves nada rapaz. Vive apenas e goza essa vida para que o meu sacrifício não tenha sido em vão.
                - Se o fizesse não seria muito diferente de todos os outros que se esqueceram de ti.
                - Não tem nada que me possas dar que eventualmente mude algo na minha vida.
                - Vou dar-te dois olhos novos. É uma cirurgia dispendiosa mas a minha dívida não tem preço, quando recuperares terás formação para trabalhar na minha empresa e nunca mais voltarás a dormir na rua ao som da chuva. Por mais que esse som nos toque na alma e nos consuma na sua magia.
                - Não sei o que dizer!
                - Não precisas de o fazer. A vida ensinou-me muito, tal como a nunca me arrepender de todo o bem que fizer, mesmo que o mundo não o reconheça. A isso, chama-se ser nobre. Um dia tu salvaste a minha vida. Deixa que salve a tua hoje.
                A chuva parou lentamente, vestígios do sol despiam a escuridão com os seus raios de luz, o estranho sentou-se lado a lado com o cego observando o arco-íris que surgia no horizonte.
                - Como é que ele é... O nascer do sol?
                - Hum… É magnífico! Simplesmente magnífico.
                O dia amanheceu sobre as ruas molhadas e desertas, sobre o palco de dois desconhecidos. Um contemplava-o com o olhar, outro com o coração.

(Joel Flor)

sábado, 16 de junho de 2012

A Queda da Estrela

           Maria viu com os seus próprios olhos esverdeados, a estrela que dançava por entre as demais na escuridão da noite como um pirilampo endiabrado querendo dar nas vistas.
Era uma daquelas noites quentes de verão em que o perfume do sol permanece na sua ausência. A estrela permanecia inquieta, escondia-se ocasionalmente entre as nuvens mas logo tornava a esbanjar a sua presença numa magia espontânea. Ela permaneceu indiferente até que notou algo estranho, aquela forma dançante de luz começou a crescer, ganhando proximidade e a sua presença não pode mais ser ignorada. Desceu como um relâmpago sobre os montes provocando um enorme clarão sobre vários quilómetros, como se o sol tivesse despertado por alguns segundos.
Incrédula, ela observa tudo ao seu redor mas estava só, não havia ninguém para partilhar aquela visão extraordinária e terrível. O seu coração batia forte e incansavelmente num ritmo que lhe cortava a respiração. A sua mente estava dispersa, perdida, entre a incredulidade e o raciocínio. Então correu ao encalço daquela luz que começava a se apagar entre os montes, se encolhendo sobre a escuridão. Alcançou-a depois de uma corrida interminável, mas susteve-se quando sobre a terra, sobre um círculo de fogo, um anjo chorava a sua queda.


                                                                                                                       (Joel Flor)

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Lendas de Guerra - A unificação dos Reinos - Capítulo X

- Capítulo X –



Os arqueiros de Vallars aguardavam a ordem para disparar sobre o exército que se aproximava, mas a ordem não foi dada. Malcon queria deliciar-se daquele momento e liderou o exército montado no seu cavalo empunhando a sua longa espada. Lorya teria abandonado a fileira das arqueiras colocando-se com a sua lança lado a lado de Rave e Alexis.
- Quem é que vai liderar os arcos?
- Eu dei as instruções necessárias, neste momento precisas mais de espadas do que arcos. Estou certa?
Rave assentiu sem desviar o seu olhar do Cavaleiro dourado que não cedia à proximidade, aguardava por outro lado que Jak cedesse e se aproximasse.
- Temos alcance para abatê-lo? – Questiona Alexis.
- Não, está fora de alcance, talvez se o conseguíssemos fazer-se aproximar! – Comenta Lorya sem demonstrar muito interesse.
- Não temos tempo para planos agora. Vamos formar um círculo de combate na frente do exército, vamos quebrar a marcha deles.
Os soldados de Jak alcançaram aquela frente de Vallars num estrondo terrível, corpos começaram a ser mutilados, trespassados por aquelas enormes lanças que foram içadas para frente. A ordem foi dada e as arqueiras soltaram as flechas que mergulharam com um cálculo perfeito trespassando pescoços, braços e pernas de uma minoria de soldados. Os guerreiros de Vallars começaram a pousar as lanças e a desembainharem espadas longas para um combate directo. Tinha começado. Ao sinal de Rave um pelotão de trezentas arqueiras recolheu os arcos e desembainharam espadas curtas avançando em corrida pelo terreno. Mais à frente já não havia ordem, todos lutavam pelas suas vidas da melhor forma que podiam. No entanto dois homens de Jak distinguiam-se pela técnica exímia que exibiam apanhando os soldados de surpresa. Rave e Alexis combatiam de costas um para o outro quebrando a muralha de ferro, Rave estraçalhou sete vidas numa combinação de golpes em quatro segundos. As armaduras, os escudos e as espadas pesadas tornavam os soldados lentos. Contra os assassinos mais rápidos do planeta era um facto letal, no outro extremo do campo o cavaleiro dourado estraçalhava vidas com golpes certeiros, cortando cabeças, rachando crânios, sempre mantendo-se na devida distância das arqueiras.
As arqueiras de espadas alcançaram a frente da batalha, eram ágeis usavam adagas e espadas curtas, saltavam por cima dos homens, deslizavam por debaixo deles como se fossem raposas proferindo golpes certeiros. Aquela antes muralha de ferro estava dividida ao meio. O combate prolongava-se por minutos desesperantes até que a determinada altura teriam perdido a noção do tempo numa batalha infernal contra o último suspiro. Lorya era uma guerreira exímia, combatia a poucos metros de Rave e Alexis, mais de cem corpos já jaziam entre a morte e a vida naquele círculo de guerra junto aos seus pés. Ao sinal de Malcom a infantaria leve, os famosos guerreiros de Vallars que teriam permanecido como espectadores até o momento avançaram em corrida. Malcom que estava rodeado de rebeldes que tentavam a todo custo colhê-lo como troféu viu-os serem varridos por aquela frente poderosa que avançava em velocidade pelo terreno ceifando dezenas de vidas. De um momento para o outro Rave apercebeu-se que iria acabar em breve. Todos iriam morrer nos próximos minutos a menos que ele arriscasse.
- O Malcom tem de morrer! – Gritou ele exasperado para Lorya. Sem tempo para lhe responder cercada de inimigos Lorya assentia. Voltando-se para Alexis deu lhe indicações rapidamente.
- Mantém-me vivo miúdo, dá-me cobertura.
- Rave são pelo menos quinhentos metros! Tu nunca vais conseguir, aquele lado está completamente perdido!
- Dá a ordem de retirada, se eles vos seguirem manda abrirem fogo para lhes fechar a entrada nos bosques.
- Rave eu…
- Tu estás no comando agora faz o que te digo! – Replicou Rave em alta voz enquanto trespassava a garganta de um soldado que falhou a cabeça de Alexis por milímetros.
Rave avançou em corrida proferindo golpes rápidos pelo caminho, libertou-se da armadura leve que carregava tornando-se ainda mais rápido. Saltava por cima dos soldados como se fossem pedras e muros a uma altura em que já nenhum soldado de Jak estava ao seu alcance. Embateu de frente contra a infantaria leve que atrasou o seu passo mas de longe o travou, começou a esquartejar tudo que se movia à sua frente sentindo alguns cortes na sua pele desprotegida.
Um soldado habilidoso, um comandante pela armadura colocou-se no seu caminho embatendo a espada contra a dele empurrou-o para a frente atingindo-lhe com o escudo na cabeça, o segundo golpe que seria da sua espada foi travado a tempo. Rave desarmou-o e trespassou-o pelo estômago sentindo também o seu sangue escorrer-lhe da cabeça. Prosseguiu abatendo rapidamente mais quatro soldados. Erguendo-se por cima de um homem volumoso e robusto pisou-lhe na cabeça e elevou-se a alguns metros de altura embatendo a espada na do cavaleiro dourado que desviou em apuros o golpe jogando-o por terra.
Rave caiu sobre o chão violentamente, atordoado, levantou-se lentamente com a vista turva tentando focar desesperadamente o cenário que o rodeava antes que a sua vida fosse ceifada. Quando os soldados preparavam-se para trespassá-lo a ordem surgiu daquela voz imponente e autoritária.
- Deixem-no! Esse é meu! – Malcom queria o seu troféu, nada melhor do que o único homem digno de ser morto que teria encontrado nos últimos dias. Levantou a sua espada e avançou com todo o seu vigor.
- Luta justamente! – Gritou Rave para o adversário.
- Eu sou um lorde, seu porco miserável. – Responde Malcom quanto preparava-se para atingi-lo na cabeça com a sua espada longa. Rave deslizou agilmente pelo chão, num golpe certeiro sobre as articulações das pernas do cavalo. O grande animal tombou sem forças jogando o seu dono violentamente contra o chão.
- Um lorde de pouca honra pelos vistos. Agora lutas justamente? Ou vais chamar os teus soldados para te salvarem?
Malcom trespassou brutalmente o seu cavalo moribundo e avançou em fúria sobre Rave, começou a distribuir golpes elegantes e fortíssimos, Rave desvia-se agilmente da fúria do filho de Vallars. O exército estava suspenso observando-os impacientemente. Aproveitando uma falha do lorde, Rave atinge-o violentamente com uma cotovelada nos lábios que começam a jorrar sangue de imediato. Malcom coloca a mão à boca, intensificando ainda mais à sua fúria, apontou um golpe frontal com toda a sua força. Rave contornou aquele ataque rodopiando o seu corpo pelo corpo do cavaleiro como que partilhassem uma dança, deslizou a sua espada atravessando o corpo de Malcom, arrancando sem misericórdia a sua vida. O corpo caiu tombado sobre o chão. Rave estendeu o seu olhar sobre o outro lado do campo a longos metros de si, os sobreviventes alcançavam a floresta e uma muralha de fogo separava-os dos soldados de Vallars. Estava orgulhoso do seu pupilo, enfrentava agora o seu destino em paz, cercado por milhares de guerreiros aguardando que a sua vida lhe fosse tirada.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Lendas de Guerra - A unificação dos Reinos - Capítulo IX

- Capítulo IX –



Campos de Idian, fronteira de Jak, duas semanas depois…
O extenso acampamento do exército de Vallars estendia-se pelos largos campos onde as planícies terminavam. Os enormes bosques que os observavam acima da colina transpareciam um aspecto inquisidor, de certa forma muito mais assustadores que os rebeldes que procuravam. Malcon não tinha demonstrado pressa até ao momento. Tinham-se instalado o mais comodamente possível. Começavam a levantar barracas de madeira dando a ideia de quem teria vindo para ficar. Ter tempo para planear a sua estratégia não era propriamente o incentivo que Rave buscava, quanto mais os seus soldados reparavam naquele enorme exército que se formava pouco a pouco, cada vez mais a coragem se dispersava entre eles. Malcom aguardava que o povo de Jak fosse até ele e poupasse-o de entrar pelos terrenos astutos dos bosques, e cada minuto que passava a sua defesa ia crescendo. Ele estava a preparar-se para uma guerra não uma batalha, as construções destinavam-se a ataques futuros a Hazindor e Kombalin. e a cada minuto que Jak lhes concedia mais se aproximavam desse plano. Todos estes pensamentos giravam na mente de Rave. Teria conseguido mais cento e cinquenta soldados naquele compasso de espera e os selvagens de Kombalin não apareciam no horizonte como prometido. Era tempo de agir.
Quando o sol se estendeu no seu ponto mais alto, a frente de Jak emergiu das sombras dos bosques. Vallars começou a preparar-se lentamente sem qualquer preocupação. Rave tentava incutir a máxima disciplina que podia, havia alguns homens de guerra entre ele que o ajudavam a atingir esse fim. Alexis permanecia do seu lado, com uma vestimenta que lhe ficava larga, tinha o corpo de um rapaz, não faziam armaduras para rapazes da sua idade. Parecia nervoso, a ansiedade teria o deixado com enjoos, estava pálido mas queria ocultar tudo isso a Rave que o afastaria de imediato se denotasse qualquer sinal de fraqueza. Então o silêncio terminou com o grito de guerra do outro lado do campo quando um soldado de Jak regressava após falar com o representante de Vallars.
- O que foi que eles propuseram? – Questionou Rave embora já soubesse a resposta.
- A rendição total, um juramento de fidelidade ao rei e a incorporação no exército de Vallars. Em troco seriamos todos poupados.
- O que ele achou dos nossos termos?
- Riu-se e cuspiu no chão. Disse que seríamos queimados juntamente com os bosques.
- Então temos guerra!
- Eu não vesti esta roupa ridícula para nada! – Comenta Alexis num ar revoltoso.
- Se todos partilhassem do teu espírito o Malcom iria ter sérios motivos com que se preocupar. – Virando-se face ao exército que aguardava as ordens Rave pronunciou-se em voz alta.
- Vocês não são mais lavradores, pastores, carpinteiros, homens ou mulheres. Hoje somos todos soldados, não lutamos por honra, glória ou poder, Lutamos pelos nossos filhos, pelos nossos pais, pelos nossos irmãos e irmãs. Lutamos pela nossa terra, lutamos pelo nosso futuro, que neste dia Vallars possa testemunhar a coragem de Jak.
Todos assentiram em gritos de concordância. Do outro lado do campo o exército de Vallars marchava em passo lento e ordeiro. Os longos escudos desenhavam uma muralha de ferro impenetrável tal como Rave teria previsto. Os soldados empunhavam lanças compridas empunhadas ao céu.
Rave gritou a ordem de avanço, Alexis respirou fundo e quando abriu os olhos, a ansiedade e o pavor tinham-se transformado numa extenuante adrenalina que fluía sobre o seu sangue fazendo o seu coração pulsar aceleradamente. Controlando-se respirou fundo e mentalizou-se. – Eu nasci para isto. – Desembainhou as suas espadas e seguiu o seu mentor para aquele inferno de homens de ferro.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Lendas de Guerra - A unificação dos Reinos - Capítulo VIII

- Capítulo VIII –


Acampamento das arqueiras dos bosques, alugares por entre as enormes florestas de Jak, três semanas depois…
Alexis treinava o seu equilíbrio empoleirado numa árvore, por vezes a visita desagradável daquela dor profunda na sua perna visitava-o com o frio. Tentava superar as suas fraquezas, estar acima das suas cicatrizes, uma devoção tão forte que perturbava Rave. O assassino procurava a todo o custo mantê-lo fora da guerra. Mas a guerra estava a caminhar na direcção deles como a fúria de uma tempestade.
Rave estendia o seu olhar por entre a multidão de todas as idades, entregues aos seus afazeres numa disciplina impressionante. A luta pela sobrevivência daquele povo transmitia resultados perfeitos. As arqueiras eram realmente extraordinárias na arte do arco, tinham superado as suas expectativas, no entanto um pouco débeis na arte da espada. Do seu ponto de vista um soldado teria de ser perfeito, algo que colocou em prática de ensino da melhor forma que pode. As notícias da guerra informavam que Vallars estava a avançar em duas frentes distintas, o que complicava muito mais a possibilidade da unificação dos reinos do norte, uma vez que cada qual teria de defender as suas terras. Pelo Este Anglus continuava a devastar aldeias e vilas, cobrando o juramento de lealdade ao rei a todos os povos do norte, quem negasse seria acusado de traição sobre pena de morte. No entanto enfrentava agora uma força rebelde que atrasava arduamente o seu caminho até Essin. Os rebeldes lideravam os seus ataques durante a noite em vagas sucessivas refugiando-se em seguida nos terrenos selvagens, mas Anglus estava determinado a tomar o tempo que fosse preciso.
Pelo oeste notícias chegavam do exímio guerreiro, Lorde Malcom sobrinho do rei que liderava os seus exércitos exibindo a sua armadura dourada. Uma pequena fracção de camponeses e caçadores que se impôs teria sido esmagada ao longo da semana. Marchavam agora livremente rumo aos bosques de Jak, o tenebroso terreno que os separava de Hazindor.
Kombalin era o destino mais complicado de Vallars, até o momento o seu envolvimento na guerra era um mistério. Rave não confiava neles, na frente da facção estava um enorme gigante, cheio de tatuagens do rosto aos pés que lhe dava uma aparência medonha e duvidosa. No entanto era o único selvagem que possuía um cérebro decente e fazia uso dele, dizia Rave. Se havia algo que o líder de Kombalin não tinha, era ignorância, mas muito menos seria possuidor de compaixão. O seu envolvimento teria algum interesse, o qual permanecia um mistério.
- Recebi agora a mensagem, o sobrinho do rei estará nas fronteiras de Jak dentro de três dias, estimasse com um exército de sete mil de infantaria, perto de quinhentos arqueiros, apenas alguns cavaleiros. – Comenta Lorya Cay ao se dirigir a Rave.
- Sim, cavaleiros neste terreno seriam inúteis. Eles esperam que a batalha termine com as arqueiras a refugiarem-se nos bosques. Os bosques são terrenos perigosos para se percorrer numa montada. As armaduras serão pesadas e espessas. Escudos compridos de metro e meio para a frente da batalha, redondos para a traseira onde conservam os soldados mais habilidosos e rápidos. As flechas vão ser inúteis para travá-los, eles não cometem o mesmo erro duas vezes. Vamos arriscar uma batalha em campo aberto.
- Achas que podemos vencer?
- Não… Mas podemos atrasar o avanço deles. Pelo menos até os teus amigos selvagens chegarem, se é que viram mesmo.
- Eles não fazem uso ao conceito de pontualidade. Mas temos que acreditar que eles virão, ele deu-me a palavra dele.
- Acreditar não vence batalhas. Manda um mensageiro tentar interceptá-los para termos uma ideia do tempo que temos.
- Está certo. – Assentiu Lorya prontamente.
As forças de Jak eram na maioria mulheres, estimava-se um número de duas mil arqueiras prontas para combater. Entre os povos espalhados pelas vilas que contornavam a fronteira de Jak, Rave teria conseguido recrutar cerca de trezentos homens capazes de lutar, na maioria ex-soldados e jovens infectados de medo. Provavelmente cederiam todos face ao inimigo, prevalecia apenas a inspiração na coragem do homem que tinham à sua frente. O assassino mais perigoso à face da terra lutava agora por todos eles.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Lendas de Guerra - A unificação dos Reinos - Capítulo VII

- Capítulo VII –



Dois dias depois, por entre os bosques de Jak…

Rave movia-se por entre a natureza como se fizesse parte dela, difundia-se por entre a sombra das enormes árvores, o sol penetrava com dificuldade por entre os galhos espessos, numa natureza selvagem de arbustos e riachos num universo cheio de uma vida oculta que florescia na escuridão. Uma pequena torre se elevava por entre as árvores, onde um ancião habitava completamente isolado do mundo. Uma entrada secreta dava acesso a umas escadas que o guiavam ao topo. Rave não precisava ser discreto, algo lhe dizia que o ancião já o aguardava com a habitual caneca de chá silvestre. Entrando naquela pequena divisão sorriu-lhe apesar do velho não comtemplar sorrisos, teria nascido cego…
- O que te traz por cá, filho de Hazindor?
- Eu venho em busca de orientação. – Responde Rave entre suspiros.
- Reconhecer a falta da mesma, é uma rara prova de humildade nestes dias.
- Eu não quero ser o homem que fui. Será que existe algum caminho na minha vida que não requeira mais sangue?
- Se a vida que queres salvar for somente a tua: Existe sim, mas se vives em função de uma causa maior, o teu destino não pode ser alterado. Quer a busques ou quer ela bata à tua porta, a guerra irá sempre estar no teu caminho.
- Existem vários homens que julgam defender uma causa maior. Mas buscam apenas os seus interesses.
- Sim… Ainda bem que ainda existem homens como tu para travá-los. O dia que abandonares os teus princípios, o mal irá prevalecer.
Rave assentiu observando as longas árvores que se estendiam pela janela da torre num campo verde interminável…
- Obrigado! Tenho de ir agora.
- Eu tenho outra visita, ela queria muito se encontrar contigo, talvez o futuro que buscas seja aqui decidido hoje.
Rave colocou a sua mão sobre as espadas um tanto incomodado por alguém que se aproximava pelas escadas mas susteve o seu instinto por momentos quando a jovem mulher guerreira de cabelos dourados ondulados surgiu diante deles com o seu arco pendente sobre as suas costas juntamente com a aljava onde transportava as suas flechas…
- Eu sou a Lorya Cay, líder das arqueiras dos bosques.
- Arqueiras? – Questiona ele entre risos. - Isso não passa de um mito.
- Vivemos num mundo de pouca imaginação, quer queiras quer não todos os mitos são fundados numa verdade que muitos procuram ocultar.
- O que queres de mim?
- Eu sei quem tu és. O grandioso assassino de Hazindor!
- Noutra vida. Continuo sem saber quem tu és realmente.
Intrometendo-se o ancião tomou a palavra…
- Ela é quem diz ser. Existe uma lenda sobre a grande cidade esquecida, onde termina o reino de Vallars. Há muitos anos atrás, o senhor da cidade renunciou o domínio de Vallars sobre as suas terras. Esse senhor pretendia levantar um exército que enfrentasse o rei, investiram arduamente na construção de armaduras, espadas e escudos. O rei ao saber da sua audácia mandou os seus exércitos durante a noite, apanhou a cidade dormindo, mandou matar todos os homens e crianças que pudessem envergar uma espada, os números decretaram que mais de 6000 vidas foram tiradas, apenas as mulheres e suas filhas foram poupadas. Quando o rei regressou na semana seguinte para visitar os despojos da guerra a cidade estava vazia.
As mulheres pegaram em suas crianças e seguiram a estrada que as conduziam ao norte, o rastro desapareceu por entre os enormes bosques de Jak e nunca mais foram vistas, isto é o que a história registou. O que a lenda conta foi que dedicaram-se também à arte da guerra e tornaram-se em exímias arqueiras. Vallars nunca considerou a população feminina perigosa, esta foi a arma que usaram para crescer e formarem este exército em segredo ao longo dos anos. Dentro dos bosques são invencíveis, mas para atacar Vallars irão precisar de alguém que conheça todo o tipo de terreno, de um exímio mestre de guerra.
- Foram vocês então que atacaram os cavaleiros de Vallars com os selvagens de Kombalin, suponho eu. Segundo sei também, foi que tratava-se de uma pequena parte do exército, e que vocês mesmo atacando de surpresa um grupo de cavaleiros que não teve o devido tempo de vestir as armaduras, foram derrotados.
- Nós não permanecemos até ao final da batalha, a nossa existência tinha de permanecer em oculto até ao momento final.
- Digam isso aos selvagens cujos corpos continuam lá a apodrecer. Vallars sabe que os reinos do norte procuram uma unificação, sabe agora que possuem arqueiros exímios, de onde vieram não lhes interessa. Hazindor nem sequer assinou a sua participação e no entanto Vallars que iria ser invadida já está percorrendo os reinos do norte espalhando sangue e morte, sempre um passo à vossa frente. Os pequenos erros, que eles cometeram ao longo da história, foram devido à arrogância de alguns comandantes. O Anglus é diferente, eu conheço-o, ele é prudente, calmo, um verdadeiro arquitecto de guerra. Hazindor tem os melhores guerreiros à face da terra, mas à frente deles agora está um rapaz que é um insulto à nossa história e que de guerra pouco ou nada entende. Todos procuram vingança, e é por ela que os erros acontecem. Este é um jogo de poder, um jogo de reis, não uma disputa de amadores.
Permaneciam em silêncio sentindo o efeito das duras palavras de Rave ecoando com o peso de um destruidor de sonhos…
- Vieste até cá à procura de um novo caminho, o caminho revelou-se a ti, agora a escolha é tua meu filho. – Comenta o ancião sobre o olhar perturbado de Rave.
Suspirou como se tentasse colocar o mundo para fora dos seus pulmões…
- Se Vallars vier até nós eu combato do vosso lado, mas recuso-me a procurar a guerra em Vallars, do mesmo modo recuso-me a lutar pela ambição de lordes, luto apenas pelo povo. Estes termos não são negociáveis.
- Eu aceito-os. – Responde Lorya prontamente.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Lendas de Guerra - A unificação dos Reinos - Capítulo VI


- Capítulo VI –




A Fortaleza de Hazindor estendia-se sobre as montanhas do enorme desfiladeiro onde diziam que terminava o mundo. Um mar gigantesco e misterioso se estendia pelo horizonte inalcançável, brilhante e poderoso. Rave subia a estrada estreita de pedra que o conduzia aos enormes portões da fortaleza, chamavam-lhe a terra dos sem pátria. Recordava lentamente o dia em que teria chegado até aos assassinos, uma criança assustada que teria visto a sua aldeia ser queimada e a sua família assassinada. Pela estrada teria sido capturado por aqueles homens de negro, os lendários assassinos de Hazindor. Um homem de rosto coberto analisava cada osso do seu corpo, se denotasse fragilidade, teria o morto sem qualquer remorso, mas o rapaz era forte, tinha um olhar vazio e frio, mas acima de todas essas qualidades não demonstrava qualquer medo.
Talvez por ver a sua história se repetir no rosto de Alexis se tenha movido de compaixão e o acolhido ao seu cuidado. Talvez também por conhecer tão bem o mal, o peso dos seus actos, apoiava fielmente o seu antigo Lorde. Procurava fazer as pazes com o seu passado, nas escolhas que não tinha conseguido contornar, e o seu caminho começava ali, na casa do seu inimigo, no princípio da sua jornada.
O novo lorde Kastus Erakis repousava sobre um tanque aquecido, aromatizado pelas pétalas das rosas que flutuavam delicadamente sobre as águas. Sentia-se tranquilo nos seus aposentos, na lendária fortaleza que vinte mil homens não teriam conseguido tomar. Mas subitamente a sua confiança se abateu quando Rave se apresentou calmamente diante de si.
- A esta altura já deves ter percebido que os sete homens que enviaste até mim estão mortos. Creio que pudemos passar esse assunto. – Comenta Rave.
- Deixa-me ir buscar a minha espada para que possamos lutar justamente.
- Não estou aqui para te matar seu rato miserável. Do que adianta? Colocariam outro idiota como tu no teu lugar, porque de idiotas o mundo está cheio, agora homens como o teu pai foi, esses são raros. Não percebes que o Drakon como muitos outros, estão a usar-te, para conseguirem a guerra que tanto sonham?
- O mundo inteiro está em guerra. Porque não estaríamos nós também? Deverei esperar que ela me bata à porta?
- Ela já nos bateu à porta no passado e sobrevivemos. Eu sei que o teu pai queria que eu liderasse os assassinos. Mas Hazindor não me interessa, nunca interessou, o meu único interesse é a paz. Tinha esperanças de te conseguir fazer ver que o caminho que escolheste não te trará qualquer benefício, apenas o sangue dos nossos irmãos.
- Porque te preocupas connosco? Mesmo depois de ter-te mandado matar? Este nem sequer é o teu verdadeiro povo.
- Eu estou-me nas tintas para ti e para a ordem. Apenas honro um pouco mais a memória de um velho as portas da morte, do que os seus próprios filhos. Eu escolhi o meu caminho e não me irei colocar no teu e nas escolhas que tomares. Mas se voltares a aproximar-te de mim ou do Alexis eu prometo-te que ofereço a tua cabeça num espeto ao rei Falcon.
- Não te preocupes, tenho outras prioridades, segue o teu caminho em paz… irmão!
- Não percas o teu tempo a perseguir-me agora. Conheço estas terras melhor do que tu… e esta é pelo teu pai.
Antes que Kastus tivesse tempo de responder Rave atinge-o violentamente com o cabo da sua espada partindo-lhe o nariz e deixando-o inconsciente entre as rosas.
Rave partiu sem entender o que teria feito, pelo caminho a raiva que o consumiu dava-lhe uma plena certeza que iria assassinar Kastus Erakis entre outros. Mas a viagem apaziguou o seu propósito, pagando sangue com sangue nunca lhe traria paz, apenas alimentaria o monstro adormecido dentro de si.